“Não ficar em primeiro lugar não vai ser o fim do mundo”

“Não ficar em primeiro lugar não vai ser o fim do mundo” “A vida continua”, independentemente do resultado obtido pelo concorrente da Solisform na categoria de soldador ao Campeonato Nacional das Profissões, que decorre durante esta semana no Porto. Se David Martins vencer, será o representante de Portugal no EuroSkills, de 1 a 5 de Outubro em França. Mas Sónia Leal, gestora da escola do grupo Randstad, admite que têm que “estar preparados para um segundo lugar”. “Não ficar em primeiro lugar não vai ser o fim do mundo”, reconhece, formulando o desejo de que para o David “tenha sido uma experiência única”. No entanto, em entrevista ao “Setúbal na Rede”, acaba por assumir que “as expetativas são as melhores”, o pensamento focado está “em ganhar” e “o grau de confiança é bastante grande”. A gestora da Solisform admite que David Martins “tem nas costas um grande peso da responsabilidade” e que uma boa participação “dá prestígio à escola” e é “uma chancela de qualidade”.

“Setúbal na Rede” – Que expetativas tem para a participação da Solisform no Skills Portugal deste ano?

Sónia Leal – As expetativas são sempre as melhores. Pensamos sempre em ganhar. O pensamento positivo acima de tudo. Como em todos os campeonatos há um risco, caso contrário não tinha piada, mas as expetativas são positivas. Acreditamos muito neste jovem e o grau de confiança é bastante grande.

SR – Em que se baseia essa confiança?

 

SL – No trabalho e na dedicação do jovem, na responsabilidade que ele tem e, acima de tudo, no feedback que o Jairo Carrasco nos vai transmitindo. É um jovem que, com algum treino, já conseguiu um grande desenvolvimento em termos de competências e naquilo que se pretende para os campeonatos.

SR – No entanto tem revelado também algum nervosismo. Isso não preocupa?

 

SL – Se ele não estivesse nervoso, eu é que estava preocupada porque é muito normal. Conhecemos imensas histórias de pessoas que são boas naquilo que fazem e antes de atuar têm sempre a sensação de borboletas no estômago, porque há sempre nervosismo. Se isso não acontecer, as coisas não correm bem, pelo menos esta é a minha perspetiva. Um excesso de confiança não é bom, não facilita, e esse nervosismo está associado à própria responsabilidade, o que é muito bom e é normalíssimo.

SR – Que comparações se pode estabelecer entre este concorrente e os anteriores neste estágio de preparação?

 

SL – Depende muito de pessoa para pessoa, da maneira de ser de cada um e como encaram este campeonato. Há pessoas que têm uma autoconfiança dominante e, por mais que não tenham experiência nos campeonatos, não se mostram muito nervosos, mostram-se muito confiantes. Em relação ao David, ele nunca passou por nenhuma experiência de campeonato. Nós também não o conhecemos em versão de campeonato, o que significa que vai ser uma novidade para nós. A grande vantagem é que, nesta competição, ele vai estar fechado na sua cabine e isso implica que esteja concentrado. Portanto, ele não vai estar a ver se está à frente ou atrás em termos do trabalho já executado. Mas é um facto que nós não conhecemos o David em modo de campeonato, conhecemo-lo apenas em modo de treino. Vamos ver como é que ele se vai portar.

SR – No campeonato, não tendo noção do que se passa à sua volta, ele está a competir apenas consigo próprio, no fundo, numa situação similar à dos treinos.

 

SL – O único fator com que o David tem que jogar é com o tempo, porque são quatro dias de prova em que ele tem de fazer todos os exercícios inerentes. Se for noutra profissão, como de cabeleiro, o concorrente pode olhar para o lado e ver como estão a correr as provas dos outros. Mas aqui não e o David tem uma grande vantagem que é de estar a sozinho e mesmo que consiga ver a peça de outros por breves instantes e possa parecer visualmente melhor que a dele, isso não quer dizer nada porque o que conta também é a radiografia que se faz à peça.

SR – Este tipo de provas constituem momentos de grande solidão para os concorrentes?

 

SL – Muitas vezes, há que pensar no que é que pensa um soldador, porque é um trabalho muito solitário, mas que também exige muito esforço físico. Na prova, são horas seguidas a soldar e com essa característica de uma forte solidão, que pode ser decisivo no estado de espírito do concorrente.

SR – Qual é a rotina nas provas e o que é que o David vai encontrar?

 

SL – Num campeonato nacional, aquilo que está a concurso são as várias regiões do país. Portanto, cada região vai lutar pelo maior número de concorrentes nas competições internacionais. Isto significa que o ambiente que se vive é mesmo de competição, ou seja, enquanto num campeonato internacional são as cores da bandeira portuguesa que prevalecem, num campeonato nacional o que prevalece são as regiões. O espírito é muito competitivo mas o David, à semelhança de anteriores concorrentes, não se vai aperceber tanto da festa. Só se apercebe da festa no fim. São quatro dias de pura concentração em que apenas no último dia de prova lhe é permitido descomprimir. Ele vai estar muito concentrado o tempo todo e, no final de cada dia de prova, só lhe vai apetecer descansar, mais nada.

SR – É importante ter um elemento com experiência em campeonatos anteriores, como é o caso do Jairo Carrasco?

 

SL – É bastante importante, até porque relata na primeira pessoa aquilo por que passou. Ainda para mais, o Jairo passou por mais do que três campeonatos. Na altura, passou por um regional, um nacional, um europeu e um mundial. Portanto, o Jairo tem uma grande experiência daquilo que se passa num campeonato e vai dando dicas daquilo que vai acontecendo, ou seja, transfere experiência para o próprio concorrente. No entanto, como já referi, não conhecemos o David em modo de campeonato e isso pode ser determinante.

SR – Há uma caraterística comum aos concorrentes anteriores, que é a humildade.

 

SL – Acho que se trata de uma coincidência. Eles têm sobretudo é uma grande humildade em querer saber e em querer aprender e isso está, de alguma forma, associado à característica da humildade. Eu acho que a humildade existe por estarem dispostos a aumentarem competências que lhes possam valer um dia mais tarde.

SR – Qual é o papel da Solisform neste processo de preparação para os campeonatos?

 

SL – Não sei se é por uma mulher estar à frente da escola, mas existe este efeito maternal. É óbvio que o David tem nas costas um grande peso da responsabilidade mas também lhe dizemos que o que está aqui em causa é o futuro do David e a imagem da Solisform, mas se as coisas não correrem tão bem, nós ficamos satisfeitos na mesma. Ele foi o escolhido pela Solisform e da nossa parte tem todo o apoio. Aliás, como têm tido todos os concorrentes, nós apoiamo-los imenso, mesmo a nível de materiais e dos próprios consumíveis. Nós queremos que eles se sintam bem, que no tempo que aqui estão se sintam em casa, e o mais engraçado é que quando eles saem, vêm isto como a segunda casa. Portanto, a missão é cumprida. Nós habituamo-nos a ver aquele posto de trabalho, do treino dos campeonatos, sempre ocupado, que quando termina o processo sentimos aquela casa tão vazia. Quando não existe nenhum representante da Solisform a treinar, nós sentimos um vazio imenso e parece que perdemos um bocadinho da mística.

SR – O David tem recorrido a algum apoio nos momentos de maior angústia?

 

SL – O David recorre mais ao Jairo, que é a pessoa em quem tem total confiança e ligação direta. Mas sempre que vejo o David, tenho aquela preocupação de saber como é que está e de dar esse apoio. Mas não é que ele o procure.

SR – O Jairo, pela responsabilidade que tem, deve dar-lhe um apoio mais técnico.

 

SL – Não necessariamente, porque acho que o Jairo é um verdadeiro coach desportivo, no verdadeiro sentido da palavra. Aliás, se fosse só apoio técnico poderia não funcionar bem, porque tem que haver cumplicidade entre os dois. Em campeonatos internacionais, o Jairo não é jurado, está como observador, e tem que haver uma grande cumplicidade para que o Jairo, ao ver passar o David, o olhe nos olhos e perceba o que é que se está a passar. O Jairo muitas vezes traduz-me essa linguagem, como tem acontecido com outros concorrentes. Portanto, é uma questão muito técnica mas também é muito emocional. A verdade é que depois dos campeonatos eles ficam amigos, há uma ligação que não se quebra mesmo.

SR – Como é que vai ser a reação perante um mau resultado?

 

SL – Temos que estar preparados para um segundo lugar. A vida continua. E espero que para o David tenha sido uma experiência única e que ele tenha mesmo muito sucesso. Não ficar em primeiro lugar não vai ser o fim do mundo, como é evidente, e nós vamos continuar a trabalhar.

SR – Qual é o segredo do sucesso dos últimos anos?

 

SL – O segredo é mesmo a qualidade da formação que é passada, a insistência, o brilho nos olhos que vemos em cada elemento da equipa quando fala da Solisform, o nosso envolvimento com a causa, porque acreditamos nos serviços que fazemos.

SR – Os resultados nos campeonatos das profissões são úteis para a vida da escola?

 

SL – Dá prestígio à escola. E foi através de um campeonato europeu que conseguimos ter um formador de soldadura a tempo inteiro e que podemos dizer a qualquer pessoa que queira tirar um curso de um momento para o outro que temos capacidade de resposta. É uma chancela de qualidade que utilizamos na divulgação que fazemos junto das empresas que não nos conhecem. E permite o “passa palavra”, como poder entrar nas redes sociais e divulgar junto dos soldadores que estão espalhados por todo o mundo e que gostam de ver como se fala do soldador ‘tuga’ bem classificado, porque é um orgulho e sente-se muito mais esse orgulho quando se está a trabalhar lá fora e se vê que um soldador português é reconhecido e premiado. Portanto, para nós, como escola, é muito bom ter este tipo de bons resultados em termos de divulgação e prestígio.

SR – Até que ponto há reconhecimento fora do meio?

 

SL – Este campeonato das profissões não é divulgado de forma transversal, não chega a todas as pessoas, o que é uma pena, porque quando vou apresentar a Solisform e falo do campeonato das profissões, a maior parte das pessoas não conhece.

SR – Por que razão a Solisform só concorre aos campeonatos na categoria de soldadura?

 

SL – Porque não temos capacidade de dar resposta noutras profissões, mesmo por uma questão financeira. São disponibilizados vários meios financeiros, nomeadamente materiais e consumíveis, e até a questão de ter aqui um formador a tempo inteiro a acompanhar o concorrente que representam custos. Por isso, apostamos naquilo em que somos bons e apostamos de acordo com a razoabilidade financeira. Se tivéssemos mais dinheiro, apostaríamos em mais profissões, nomeadamente em estruturas metálicas.

SR – Nessas outras áreas seria expectável ter igualmente bons resultados?

 

SL – Acredito mesmo que sim, até porque há dois, em Faro, quando vimos a prova de estruturas metálicas ficámos com vontade de participar. Mas tudo isto envolve dinheiro e esta primeira etapa tem custos, mas a partir do momento em que ganhemos o nacional os custos não são a dobrar, mas a triplicar ou a quadruplicar porque implica deslocações ao estrangeiro.

SR – É possível medir o retorno económico destas participações?

 

SL – A métrica é complicada até porque muitas vezes funciona na base do “passa palavra” e isso não se consegue medir muito bem. A Solisform tem por trás um grande grupo, que é a Randstad, e que, de certa forma, nos patrocina as deslocações. É muito difícil medir factualmente e com dados em concreto qual o retorno que têm as participações nos campeonatos, mas acredito que o balanço é muito positivo. Estar dois anos fora dos campeonatos é estar dois anos sem marcar presença. É com muito orgulho que posso apresentar a Solisform e dizer que obtivemos bons resultados no europeu e no mundial. Estar dois anos sem esta linguagem acabava por nos prejudicar um bocadinho.

SR – A Sónia também vai nervosa para estes campeonatos?

 

SL – Neste momento sinto-me muito bem, muito tranquila, pois o momento em que começo a entrar em modo de campeonato e em stress é quando o concorrente entra pela primeira vez no posto de trabalho e puxa a cortina. Aí entro em modo de campeonato, não penso em mais nada, não saio de ao pé da cabine, o que é uma coisa impressionante visto que fico ali duas ou três horas e depois vou dar uma volta e volto para o pé da cabine. São quatro dias de provas e isso parece monótono mas não é, porque estamos à espera que o concorrente saia no intervalo e vermos como é que ele sai no primeiro período e no segundo período e por aí fora. Normalmente deixo que seja o Jairo a falar com o concorrente e depois vou massacrá-lo para saber como é que o concorrente está e como lhe está a correr a prova. Mas todos estes pormenores de como vai correndo a prova, às vezes não se traduz em nada porque há muitos pontos em jogo e muitos critérios em avaliação. Só no fim da prova e depois de tudo avaliado é que se sabe realmente qual é o resultado. Durante o campeonato, por uma questão de consciência ou porque entro em modo de campeonato, sabe-me bem estar a par e passo do que é que vai acontecendo, em cada intervalo, embora quase que não fale com o concorrente porque acho que é importante aqueles termos técnicos que são trocados nessas alturas.

SR – Há oportunidade de o concorrente conviver um pouco, ainda que durante a noite?

 

SL – Da experiência que tivemos com outros concorrentes, eles entram mesmo em modo de campeonato e vêm aquilo mesmo muito a sério. No primeiro dia adaptam-se ao posto de trabalho e, a partir do momento em que começa a prova, só pensam nisso, não pensam em mais nada. No final do dia é jantar e descansar. Portanto, depois da prova acabamos por estar um bocadinho à conversa mas à noite já não o vemos. Convivemos no último dia de prova, já que estas terminam a meio da manhã e até ao final desse dia estamos com o concorrente e tentamos descontraí-lo, se bem que a organização marca atividade e excursões para convívio entre todos os concorrentes e nessas nós não estamos incluídos.