David Martins tem “possibilidades de alcançar um bom resultado”

David Martins tem “possibilidades de alcançar um bom resultado”Os responsáveis da Solisform estão “esperançados” de que a escola consiga mais um título no campeonato das profissões, na categoria de soldadura, onde têm arrecadado vários troféus nos últimos anos. O Skills Portugal disputa-se no Porto, de 25 a 30 de Maio, e David Martins é o representante nesta edição da escola de formação que funciona dentro do espaço da Lisnave. O coordenador da formação, Ricardo Mesquita, em entrevista ao “Setúbal na Rede”, acha “natural que esteja nervoso, pois não está habituado a campeonatos e é uma responsabilidade grande”, mas considera que tem “possibilidades de alcançar um bom resultado”.

“Setúbal na Rede” – Que expectativas tem para a prestação do David Martins no campeonato das profissões?

Ricardo Mesquita – O David é um jovem que apareceu aqui no início do ano passado sem perceber nada de soldadura, mas foi para nós uma surpresa porque tem uma habilidade grande para a soldadura. Fez aqui um curso de iniciação e ficou logo debaixo de olho, pois tem uma certa arte com ele. Entretanto esteve a trabalhar na Holanda e conversámos com ele para concorrer e começou a fazer o seu treino. Temos ficado admirados com ele, está a fazer um bom trabalho e tem possibilidades de alcançar um bom resultado.

SR – Como vê o estado de espírito dele?

RM – É natural que esteja nervoso, pois não está habituado a campeonatos e é uma responsabilidade grande. Além disso, ele é um jovem que quer perfeição, está sempre a dizer que ainda não está bem e isso é bom. Ao contrário de outros candidatos que já tivemos, ele é um indivíduo que procura sempre atingir o melhor resultado. Eu próprio, quando vou à cabine onde ele treina, digo-lhe que ainda não está bom, embora já esteja. Vamos lá ver o que vai acontecer, pois estamos esperançados, bem esperançados.

SR – Qual o critério para escolher os candidatos que vão representar a Solisform?

RM – Já trabalho em formação há muitos anos e facilmente me apercebo quando uma pessoa está a fazer um bom trabalho, nomeadamente em soldadura, e efetivamente há jovens que dão nas vistas pela qualidade de trabalho que apresentam e às vezes até com poucas horas de soldadura. É a tal habilidade, a tal arte, a mãozinha muito firme e perceberem bem a mensagem sobre como é que se solda bem. Já quando o Jairo Carrasco foi o nosso concorrente, havia uma turma de doze em que duas pessoas soldavam bastante bem e essas foram ao campeonato e corresponderam às expectativas, ou seja, eram artistas na arte de soldar. Isso aconteceu com o Bruno Teixeira, com o Hugo Silva e agora com o David Martins, que são pessoas que dão nas vistas pela boa qualidade de trabalham que apresentam.

SR – Como é que se faz um campeão de soldadura?

RM – A soldadura requer que a pessoa pratique muito. Claro que há aqueles que praticam muito, que estão sempre a soldar e nunca conseguem atingir um nível bom e há outros para quem a coisa se torna mais fácil. É o caso, por exemplo, do David, que começou no ano passado e ao fim de um ano e tal está a apresentar um trabalho com uma certa arte, coisa que muitos não conseguem ao fim de vários anos. Diria que é uma arte que nasce com a pessoa, é um talento.

SR – Qual o papel da Solisform no trabalho com eles?

RM – Para nós é um orgulho enorme verificarmos o sucesso destes jovens. Há muita gente que não acredita nos jovens, mas aparecem-nos de vez em quando alguns que nos dão um certo orgulho porque mais tarde aparecem aqui a dizer que estão a trabalhar e são bem aceites nas entidades que os acolhem, porque apresentam uma boa qualidade de trabalho. Isso para nós é um orgulho enorme.

SR – A personalidade também é importante para se ser campeão?

RM – De certo modo influencia também, porque não basta ser-se um bom executante, também tem que se ser uma pessoa sociável e que aceite as opiniões vindas de quem tem experiência. É importante que saibam fazer e também saibam estar. Temos aqui pessoas com diferentes características, indivíduos que não são muito agradáveis no trato mas que apresentam um bom trabalho, e aqueles que são umas pessoas com quem se lida muito bem, socialmente bem integradas, mas depois a qualidade de trabalho não é grande coisa. O ideal é reunir as duas valências.

SR – A escolha contempla essas questões?

RM – Primeiro as questões técnicas, porque se não for isso, não vale a pena. E, já agora, se for uma pessoa que se dê bem com os colegas e formadores, isso é o ideal, até porque antes do campeonato todos os concorrentes têm reuniões de integração e o ideal é que haja ali uma certa harmonia.

SR – O Hugo, o Jairo e o David representam o perfil médio dos formandos da Solisform?

RM – Estão um bocadinho acima da média e acabam por ser exceções. Mas os jovens precisam é que se fale com eles e se faça ver que uma profissão é importante e saber fazer é muito importante, porque para o futuro é uma mais-valia com que ficam. Temos aqui alguns jovens que andam aqui só por andar e por muito que se fale com eles, fazem sempre aquilo que lhes apetece e nem sempre é o melhor. Mas direi que uma grande parte dos alunos que passam por aqui são pessoas que, depois de estarem connosco uma temporada, saem daqui melhor do que entraram e convencidos que saber uma profissão é importante.

SR – Porque razão a Solisform tem tido tanto sucesso nos campeonatos, de profissões?

RM – Esta escola tem uma tradição muito grande, pois passaram por aqui a maior parte das pessoas que trabalharam no estaleiro da Lisnave. Em 1972 havia a necessidade de transformar, por exemplo, merceeiros em soldadores e teve de se criar um sistema para, de uma forma intensiva, pôr as pessoas a saber fazer. Essa experiência ninguém nos tira pois esta é uma escola onde ainda actuam mestres, pessoas que trabalharam durante muitos anos e que reúnem condições enormes para saberem transmitir o conhecimento e a experiência. Há aqui uma certa tradição, um certo bom hábito de ensinar a saber fazer e temos umas instalações boas, bem equipadas e utiliza-se um processo muito intensivo.

SR – As coisas mudaram muito nesta atividade ao longo dos anos?

RM – Os métodos são os mesmos, mas o que mudou foram os equipamentos. Temos um bom exemplo disso aqui na oficina, onde existe o equipamento que se usava antigamente e o que se usa agora. Por exemplo, dantes para se soldar a elétrodo revestido era preciso uma multi-operadora e uma resistência, portanto, uma coisa enorme que só fazia esse tipo de soldadura. Neste momento, uma máquina pequena consegue fazer todos os tipos de soldadura e até com mais perfeição. Houve uma certa evolução nos equipamentos, mas os processos e a forma de transmitir o saber fazer, isso mantém-se. O equipamento também ajuda e, provavelmente, um soldador faz-se mais depressa do que antigamente. É claro que depende da arte e da mãozinha de cada um, mas hoje temos muita gente com poucos anos de soldadura já a obter certificados de qualidade.

SR – Como vê a valorização desta profissão?

RM – A soldadura é uma especialidade que se aplica muito, que tem muita procura e um soldador facilmente arranja trabalho, seja aqui ou no estrangeiro. Num estaleiro desta natureza, como a Lisnave, enquanto numa secção é preciso uma quantidade grande de soldadores, porque há muitos metros de soldadura para fazer, noutras especialidades já não serão necessárias tantas pessoas. Acredito que a soldadura ainda vai empregar muita gente.

SR – Os jovens têm essa noção de que a soldadura pode ser um futuro profissional?

RM – Alguns terão, quando têm a possibilidade de se aperceber disso. Por exemplo, os jovens que estão aqui noutras especialidades, apercebem-se que a soldadura representa uma possibilidade futura de colocação e gostam muito de soldar. Até porque todos eles vêm que têm saído daqui campeões e vão atrás dessa expectativa.

SR – Estes títulos que a Solisform tem ganho têm contribuído para o reconhecimento desta profissão?

RM – Sempre que há uma visita à escola, digo que o nosso prato forte é a soldadura. Também temos aqui um curso de serralharia, mas a soldadura é aquela especialidade que tem uma aplicação mais imediata e a prova está em termos jovens que vêm tirar um curso de soldadura e muitos têm a sorte de conseguirem colocação logo após a formação.

SR – Sente que há um devido reconhecimento em relação a estes campeões que aqui têm sido formados?

RM – Às vezes não. Quando foi o campeonato europeu, em 2010, em que o Jairo Carrasco foi campeão, toda a gente estranhava porque passava pouco na televisão. Alguém até comentava que se houvesse lá um acidente qualquer ou se um candidato tivesse dado uma paulada num júri, isso era notícia de jornal. A coisa era pouco divulgada e é uma pena, até porque, num país como o nosso em que é preciso motivar os jovens para o trabalho, isso devia aparecer como notícia diária. Lá fora, nota-se que estes campeonatos são muito divulgados.

SR – É um motivo de orgulho para a Solisform ter estes campeões?

RM – Orgulho e vontade de continuar. Houve jovens que quando passaram por aqui não deram o seu melhor e nem se aperceberam que estavam a aprender uma profissão e, só mais tarde, passados uns anos, é que vêm a reconhecer que valeu a pena terem passado pela Solisform.