Jairo Carrasco, formador na Solisform, treina concorrente para Skills Portugal

“Faz parte da cultura da Solisform competir”

“Faz parte da cultura da Solisform competir”O David Martins “está motivado”, mas “também receoso, porque nunca passou por um campeonato”, explica Jairo Carrasco. O treinador do jovem soldador que se prepara para o Campeonato Nacional das Profissões, a decorrer em Maio, no Porto, diz que são sentimentos naturais, que ele próprio sentiu quando concorreu, embora no seu caso não tenha havido ninguém que o preparasse verdadeiramente para “o que é que ia lá encontrar”, uma vez que foi o primeiro concorrente da Solisform a estas competições. Mas hoje, “já faz parte da cultura da Solisform competir”, confessa em entrevista ao “Setúbal na Rede”. Depois de ter preparado outros dois concorrentes aos campeonatos das profissões, um dos quais se sagrou vice-campeão europeu de soldadura em 2012, Jairo Carrasco treina o próximo representante da Solisform na Skills Portugal. David Martins “vai à espera do primeiro lugar, mas tem a noção que o pode perder”. O importante é que, seja qual for o resultado, ele saiba “que fez o seu melhor”.

“Setúbal na Rede” – Qual foi a sensação de conquistar os títulos?

Jairo Carrasco – Os títulos são a recompensa do esforço e dedicação que tive. Mas o que eu acho que ganhei mais com os campeonatos foi o que aprendi nas fases de treino, o que evolui a treinar. O que sinto que ganhei com os campeonatos foi a experiência profissional que tenho agora. Mas não deixa de ser gratificante. Nós só temos noção do nível em que estamos ou do que conseguimos fazer quando nos comparamos com outros. No campeonato nacional já fiquei com alguma ideia do que os outros soldadores faziam e até que ponto é que podia treinar. Mas só no mundial é que vi até que ponto vai a minha profissão e até que qualidade é possível ir. Aprendi muito e no campeonato europeu já me senti mais à vontade.

SR – Qual o segredo para se conseguir estes títulos?

 

JC – São muitas horas de treino. É como conduzir e pode-se comparar a um piloto de fórmula 1, apesar de ser um exemplo exagerado. Sabemos o limite até onde podemos ir ou até onde é possível humanamente ir o soldador. Depois é treinar exaustivamente até conseguir perceber a soldadura e conseguir executar trabalhos de qualidade.

SR – Que tipo de esforço é necessário?

 

JC – A soldadura é muito vasta, tem muita coisa que precisamos de saber só para o campeonato, sem pensar sequer no mercado de trabalho. A ideia do campeonato é extrair as coisas mais difíceis que há no mercado de trabalho na profissão de soldadura. Nós precisamos de saber um bocadinho de tudo, praticamente, e para ganhar temos de saber fazê-lo bem. Temos de treinar muito para conseguir fazer bem cada tarefa. Portanto, temos de treinar uma coisa de cada vez, desde o tipo de processo ou o tipo de liga e ir juntando o puzzle. É muito tempo a treinar.

SR – Quantas horas são necessárias?

 

JC – Depende das pessoas. Há pessoas que se conseguem concentrar mais, há pessoas que evoluem e depois perdem terreno. No meu caso, treinei muitas horas. Eu cheguei a treinar das oito até às quatro da manhã. Muitas vezes fiz 24 horas seguidas, porque já nem valia a pena ir a casa. E tive até um acidente uma vez, porque adormeci ao volante e despistei-me.

SR – É preciso também estudo e conhecimento técnico?

 

JC – Técnico e teórico, perceber muito bem os processos e depois treinar, treinar, treinar, enquanto conseguirmos.

 

SR – É necessário muito esforço físico?

 

JC – Sim, muito, porque é necessário muita concentração. Basicamente, a soldadura é um exercício prático, psicomotor, e depois é preciso perceber o que está a acontecer e conseguir dominar as técnicas. O melhor exemplo é o do Cristiano Ronaldo, que só conseguiu evoluir daquela maneira por causa das horas de treino e da dedicação. É o que faz a diferença entre os concorrentes, porque de resto somos todos humanos e qualquer um pode ser soldador. Mas também é importante gostar e dedicar-se. Pode haver diferenças na capacidade de concentração num ponto ou noutro, pode haver dias que em que as coisas correm melhor do que noutros, mas depois de muito se treinar a pessoa já sabe resolver os problemas. Mas até chegar aí é preciso mesmo treinar muito.

SR – O que te faz gostar da soldadura?

 

JC – Não sei explicar porque gosto. Eu acho que é mesmo o desafio. De início interessou-me a profissão por causa do valor que o soldador recebia, mas depois isso deixou de fazer diferença. O que me começou a incentivar mesmo foi a dificuldade do trabalho. Os campeonatos também me deram algum prazer porque são muito difíceis, é difícil garantir aquela qualidade toda. Eu penso que seja por causa da dificuldade do trabalho, porque diariamente é difícil. Não são todos os dias iguais, pois todos os dias são difíceis. Deve ser por não se tornar monótono que eu gosto.

SR – A tendência da maioria das pessoas é fugir das dificuldades.

 

JC – Penso que é por isso que me dá gosto. Foi uma bola de neve, porque comecei a gostar, começou a tornar-se difícil e, mesmo quando comecei a trabalhar, o que me dava mais gozo eram os trabalhos mais difíceis, porque são os mais gratificantes. Se estivermos a “encher chouriços”, qualquer um o faz e não nos exige grande concentração, o que desmotiva. Quando comecei a trabalhar, procurava os trabalhos mais difíceis, que puxavam mais por mim, que me obrigavam a estar mais concentrado, dedicava-me e as horas passam a correr quando estamos dedicados. Foi então que a Solisform me convidou para concorrer ao campeonato, o que foi “ouro sobre azul”, porque era ainda mais difícil do que o trabalho e mais desafiante. Entrou-me no sangue e por isso ainda estou cá.

SR – O que te trouxe para a soldadura?

 

JC – O meu pai é soldador, sabia o valor por hora que ele recebia, mas mesmo assim não era por isso que eu pensava escolher. Na altura também não sabia bem do que é que gostava. Quando estava a estudar, procurei várias áreas que podia seguir e vi um anúncio da Solisform num jornal. Um amigo desafiou-me a inscrever e vim para a Solisform em 2005, comecei a gostar e comecei-me a dedicar. Aos 17 anos já trabalhava no estágio pela Solisform. Quando o estágio acabou, já com 18 anos, apanhei logo o avião e fui conhecer a soldadura em mercados mais difíceis, como refinarias e plataformas.

SR – Em que países trabalhou?

 

Jairo CarrascoJC – Estive na Roménia, quando este país entrou para a União Europeia, em refinarias que estavam desativadas e foram colocadas de novo em funcionamento. Depois estive na Bélgica e na Holanda, também em refinarias. Ainda tinha 18 anos quando vim para uma refinaria em Portugal. E foi quando a Solisform me contactou, a ver se eu queria concorrer aos campeonatos. Aceitei, fiz uns testes e lancei-me noutro desafio e a partir daí comecei a treinar exaustivamente, as provas correram bem e isso incentivou-me. Nas provas internacionais aprendi algumas coisas, ainda antes de concorrer ao campeonato europeu. Se não fosse a Solisform eu nem tinha concorrido, nem tinha aprendido o que sei hoje sobre a soldadura. O campeonato abriu-me portas e consegui perceber novas vertentes da soldadura, que nunca iria conhecer se continuasse apenas como soldador profissional, mas já tinha os conhecimentos suficientes para o mercado de trabalho. A soldadura é um mundo, está sempre a desenvolver-se e aprendemos muito uns com os outros nos campeonatos internacionais.

SR – Qual é a sua atividade atualmente na Solisform?

 

JC – Dou formação de soldadura, prática e teórica, a pessoas que querem a iniciação e em três semanas tentam aprender o máximo possível. Dou também formação de TIG, que é um tipo de soldadura já para pessoas que vão a exame de certificação de soldador. Mas nesta fase não posso perder muito tempo com isso porque tenho o campeonato já à porta e tenho de treinar o David Martins.

SR – Qual é o seu trabalho em relação ao David?

 

JC – Elaboro um plano de preparação para o campeonato, incluindo os três processos essenciais de soldadura que ele tem de saber e as diferentes ligas com que tem de trabalhar. À medida que ele vai desenvolvendo o trabalho, vou vendo onde é que tem mais dificuldade. Depois, tento acompanhá-lo e motivá-lo, porque é muito frustrante quando estamos a treinar, uma vez que é muito cansativo, porque entendemos que o trabalho nunca está bom e por isso saímos sempre dos treinos desmotivados. Entretanto, o plano de preparação tem que ir sendo adaptado e vai sendo aumentado o grau de dificuldade à medida que ele vai ficando melhor.

SR – Como vê as possibilidades do David no campeonato?

 

JC – Já temos pouco tempo para conseguir o objetivo. O campeonato é avaliado por pontos, que são cem no final. Cada erro que ele tenha vai descontando pontos. Nós gostaríamos que ele fizesse mais de 90, mas isso é muito difícil. Normalmente, o primeiro lugar no mundial são 94 ou 95 pontos. E depois, no campeonato, existem os nervos próprios da competição.

SR – Qual é o estado de espírito do David?

 

JC – Está motivado. Na posição em que está é relativamente normal que esteja também receoso, porque nunca passou por um campeonato. Esta vai ser a primeira competição dele e sente-se à prova sem saber o que vai encontrar. Está ansioso, está com medo, com receio daquilo que vai acontecer, apesar de saber o que vai ter que fazer nas provas. Mas eu próprio senti sempre isso em cada um dos quatro campeonatos em que concorri.

SR – A sua missão é também prepará-lo para o que vai lá encontrar com base na sua experiência, o que porventura não teve na sua formação?

 

JC – As pessoas que me treinaram nunca estiveram na posição para que me estavam a preparar e, por isso, nunca me disseram o que é que ia lá encontrar. Fui aprendendo, mas aprendi sobretudo com o campeonato mundial, e essa experiência serviu depois para o europeu e serviu para ensinar e passar a mensagem aos outros concorrentes.

SR – Como é que acha que o David lidará com uma eventual deceção?

 

JC – É difícil de responder, porque isso é da área comportamental e nós nunca sabemos como é que cada pessoa reage. Para todos os concorrentes o objetivo é o primeiro lugar, mas o David tem noção daquilo que faz e isso é muito importante. Ele sabe que para ganhar tem que fazer daquela forma. É claro que, num campeonato, por mais que queiramos, nunca conseguimos fazer uma prova perfeita, porque é humanamente impossível, quer pelos nervos, quer pela máquina ou pela corrente elétrica. A competição é mesmo assim e é impossível fazer perfeito. O que é importante é ele saber o que tem que fazer para ficar bom e se ficar mal saber como vai reparar. Mas se a competição correr mal, penso que ele não se vai desiludir porque, como é impossível correr tudo bem, o sentimento dele vai ser o de saber que fez o seu melhor. Ele sabe que vai haver algumas coisas que vai fazer mal e sabe que vai ficar à espera do primeiro lugar, mas tem a noção que o pode perder.

SR – Nota muitas diferenças em relação aos outros concorrentes que treinou?

 

JC – Não conseguimos estabelecer comparações porque cada pessoa é um caso. Uns têm uma maneira de ver, outros têm outra. Uns conseguem melhorar mais num ponto, outros conseguem-se concentrar mais noutro. Não encontro nada que seja idêntico em nenhum dos três concorrentes que treinei, pois cada um comporta-se de maneira diferente, cada um faz à sua maneira. Desde que consigam cumprir o objetivo, isso é que é importante e é para isso que trabalhamos. A única coisa que consigo comparar é o cumprimento dos objetivos que são estabelecidos e, nesse aspeto, estão praticamente idênticos

SR – Sente que se respira um espírito diferente na Solisform por se estar a preparar um concorrente para os campeonatos?

 

JC – Sim, penso que sim, há curiosidade e os formandos tentam perceber o que se passa ali. Eu tento simplificar ao máximo explicando que qualquer pessoa pode fazer aquilo. Se calhar, por estar por dentro do processo, não lhe dou muita importância, até porque já faz parte da cultura da Solisform competir e esse é o nosso dia-a-dia. No entanto, há perguntas para saber porque ganhei e como ganhei.

SR – Haverá outros formando com vontade de vir a ocupar esse lugar?

 

JC – Muitos até estão iludidos e eu tento puxá-los à realidade e explicar qual é o processo para isso, pois não se aprende de um dia para o outro. Eu sou novo e muitos deles têm a minha idade, só que eu estou nisto desde os 16 anos e tenho agora 24. Os formandos tentam saber como é que eu aprendi e o que é que faço. Só que muitas vezes nem querem realmente saber como se faz ou como se aprende, porque as pessoas querem os resultados muito rapidamente e eu explico que isto não se consegue de um dia para o outro.