“Sinto-me bastante orgulhoso, sou soldador e tenho uma profissão”

“Sinto-me bastante orgulhoso, sou soldador e tenho uma profissão”“Bastante orgulhoso” por, aos 22 anos de idade, ter uma profissão, “ser soldador”. Ainda assim, humilde e agradecido. Hugo Silva admite que a “soldadura foi uma coisa que veio por sorte”, mas que mudou a sua vida, sobretudo ao lidar diariamente, durante um ano e meio, com Jairo Carrasco, o seu formador e treinador que o preparou para os campeonatos de profissões. Campeão nacional e vice-campeão europeu em 2012, nono classificado no mundial no ano passado. “O Jairo é uma pessoa brutal”, admite em entrevista ao “Setúbal na Rede”, e se não fosse ele não seria “metade do soldador” que é hoje. O mesmo Jairo que prepara David Martins, o representante da Solisform ao Skills Portugal deste ano, a decorrer já em Maio no Porto.

“Setúbal na Rede” – Que recordações guarda dos campeonatos?

 

Hugo Silva – É uma coisa a que só se dá valor depois de se passar por ela. Depois de se pensar que já não se vai viver mais aquilo, é que se dá valor. Mas é uma sensação inesquecível em todos os aspetos, quer se ganhe quer não, pois vale pela convivência que se tem com as pessoas, com as amizades que se fazem, embora a vida acabe por nos afastar das pessoas de quem gostamos. Mas são recordações que quero levar desta vida e um dia, quando for velho e tiver os meus netos, são boas recordações para partilhar com eles.

SR – O processo é difícil?

 

HS – O processo é muito focado e, se uma pessoa estiver ali para se divertir, diverte-se, mas se estiver empenhada naquilo que está a fazer, então é muito difícil. Quando se chega a casa ainda se está a remoer naquilo que se fez e naquilo que se vai fazer no dia seguinte. Em todos os campeonatos em que estive, só no último dia, quando acabou, quando já não havia mais nada a fazer, aí sim é que deu para aproveitar um bocado. Ainda se tenta ver um bocadinho do campeonato, mas é difícil.

SR – Como foi a sua vida durante o tempo de preparação para os campeonatos?

 

HS – Tive que abdicar de tudo. Para o campeonato nacional fiz horas e horas de treino com o Jairo Carrasco. Eu chegava a casa e não conseguia ligar a Playstation. Era chegar, dormir, e no outro dia acordar e mais do mesmo. Tem que se ter um grande estofo por trás porque na soldadura tem que se estar completamente concentrado naquilo que se está a fazer e se se tiver um problema, a cabeça não está ali a cem por cento e é um bocado difícil. É complicado conseguir conjugar várias coisas ao mesmo tempo, como o namoro, a família e tudo o resto.

SR – Como foi essa relação com os outros?

 

HS – Acho que tinham de compreender a minha situação. Nunca nos preocupamos com aquilo que se tem de fazer e com o dia de amanhã. Mas chegamos a um ponto em que vemos que temos de fazer alguma coisa e ver que realmente a vida não é só estar sentado num sofá a olhar para uma televisão e a jogar Playstation. Se estiver aqui sentado no sofá é porque a minha mãe está a trabalhar para isso. Tem que haver sempre alguém por trás e um dia esse alguém já não vai haver e vou ter que ser eu a fazer para poder estar aqui sentado a jogar Playstation. Eu já tinha trabalhado nas obras e não era isso que eu queria para a minha vida. A soldadura foi uma coisa que veio por sorte, pois a vida não são só azares. Eu tinha um colega de trabalho, o Carlos, e ele dizia que tínhamos de tirar o curso de soldadura e que a soldadura dava dinheiro. Eu nunca tinha derretido um eletrodo na minha vida, mas fomo-nos inscrever à Solisform e foi daí que começou tudo.

SR – Que sabor teve o segundo lugar no campeonato europeu?

 

HS – Foi um bocado mau, pois eu queria o primeiro lugar, sinceramente. Para o campeonato mundial, sinceramente, o nosso país não tem condições para dar as bases. Se não fosse a escola, em todos os campeonatos em que participei não tinha conseguido nada, porque o Estado nunca deu algum apoio. Não é possível estar a competir contra pessoas que têm todas as condições, pois os outros países elevam o campeonato das profissões ao nível de um campeonato olímpico. Há campeões em Portugal e ninguém sabe. O quinto melhor mecânico do mundo é português e ninguém sabe, vive-se numa ignorância. Damos valor ao futebol e ao Cristiano Ronaldo, mas nós trabalhamos e sabemos fazer. Quando era mais novo, também corria 90 minutos atrás de uma bola e dava chutos. Ele teve uma oportunidade para fazer carreira disso, mas acho que valorizamos demais aquilo que não tem valor.

SR – Os campeões das profissões são campeões em áreas com utilidade, é isso que valoriza?

 

HS – Exatamente. Não é por se ter uma capacidade física melhor, pois a pessoa teve que batalhar para chegar ali. São horas e horas de esforço e muitas queimaduras ou muitas entaladelas de dedo para um mecânico, muitas horas a queimar os neurónios. Eu vi mecânicos a abrirem e a fecharem o motor de um carro em 90 minutos. Eu não percebo nada daquilo, só vejo parafusos e para mim era impossível pois se conseguisse desmontar já era muito, quanto mais montar. Por isso digo que damos valor àquilo que não tem valor.

SR – Que tipo de condições têm os atletas dos outros países?

 

HS – Têm uma preparação diferente, com outros incentivos, totalmente diferentes. Eu ganhei o campeonato nacional, a escola deu-me aquilo que podia dar e o Estado não me deu nada. No campeonato europeu fiquei em segundo lugar mas não ganhei nada, no mundial fui o nono melhor soldador do mundo e não ganhei nada e nem trabalho tenho. Sou um bom profissional e de todos os bons profissionais portugueses que competiram comigo nas outras áreas, muitos deles vão ter que se ir embora e vão ter que dar os conhecimentos e a experiência que adquirimos aqui e para que o Estado gastou connosco, para nós aprendermos, noutro país. Estamos dar a nossa boa mão-de-obra a outros países.

SR – No fim destas competições não conseguiu arranjar trabalho em Portugal?

 

HS – Vou ser sincero, também não me preocupei em procurar, mas vemos o país que temos à nossa volta. Por exemplo, trabalhar quinze dias e ficar um mês e meio parado. Trabalhar enfiado em buracos sem nenhumas condições. Isto é o pior que há em termos de trabalho de soldadura e é por isso que dizem que quem trabalha cá, trabalha em qualquer lado do mundo. E depois é o valor que se ganha à hora, pois qualquer pessoa ganha aqui sete euros e eu estava a ganhar dezanove euros à hora em França.

SR – Como surgiu essa oportunidade de ir para França?

 

HS – Foi um colega que me telefonou, dois ou três dias depois de ter chegado dos campeonatos, e perguntou-me se queria ir para França. E eu sempre disse que não ia para França, que era um país de que eu não gostava. Mas também não tinha mais nada, era uma aventura e foi a primeira vez que fui para fora. Trabalhei lá desde agosto mas agora acabou o trabalho e voltei.

SR – E agora como vai ser a sua vida?

 

HS – Agora não sei. Vou estar parado por dois ou três meses, vou tirar a carta e depois vou tentar mexer-me um bocadinho e ver o que consigo arranjar por aqui. Já ouvi qualquer coisa sobre algumas hipóteses, mas há muita gente à procura.

SR – Mas nem todos com a experiência do Hugo.

 

HS – Sim, mas isso também não é uma coisa que nos dê valor ou credibilidade, porque as pessoas em Portugal não sabem o que são os Work Skills. Tivemos o campeonato europeu, em que o Jairo foi campeão, em Portugal, e ninguém soube disso. Eu soube porque estava na Solisform, porque se não estivesse na escola e na área da soldadura, nunca saberia que o melhor soldador europeu era português.

SR – Em França davam valor a isso?

 

HS – Um pouco mais. Havia lá um chefe que me dizia que nunca tinha visto ninguém com a minha idade e com a minha responsabilidade no trabalho e ser aquilo que eu sou.

SR – Essa experiência nos campeonatos foi útil no mercado de trabalho?

 

HS – A soldadura é uma arte, e quando se domina uma coisa, já se domina de qualquer forma. Quando se percebe aquilo que está a acontecer, só tem de se parar um bocado, olhar e pensar sobre o que se está a fazer, e ver como se vai resolver cada situação nova. Só que é necessário muito treino, muitas horas para se conseguir dominar e para conseguir perceber o que está a acontecer. E muito mais do que isso, é necessário ter um grande formador por trás, sem dúvida nenhuma.

SR – E no seu caso foi o Jairo Carrasco.

 

HS – Se não fosse o Jairo, não era metade do soldador que sou hoje em dia. Sem dúvida alguma. O Jairo é uma pessoa brutal mesmo.

SR – Que importância teve este processo na sua vida?

 

HS – Mudou a minha vida, porque foi um ano e meio, se não me engano, a lidar com o Jairo todos os dias. O Jairo é uma pessoa que tem uma grande responsabilidade, tem 24 anos e uma vida feita. E não é qualquer pessoa que, com aquela idade, já conseguiu aquilo que ele conseguiu. A maior parte das pessoas chega lá, muitas vezes homens com quarenta e tal anos, e quando vê que vai ter formação de soldadura com o Jairo ficam surpreendidos. Eu aprendi muito e fez-me muito bem lidar com ele.

SR – O que tem a soldadura de tão fascinante?

 

HS – Acho que é uma coisa a que se dedica tantas horas na vida, custa tanto conseguir chegar ali, que se dá um grande valor àquele trabalho. Sabemos quantas horas são precisas para dominar as técnicas, quanto esforço é preciso, quantas vezes é necessário falhar. E depois os campeonatos têm uma coisa que é frustrante, pois por mais que se faça nunca está bom. Podia sempre estar melhor. É complicado chegar a casa e pensar que se podia ter feito melhor, mas tínhamos dado tudo o que tínhamos.

SR – Pode ser uma boa lição de vida?

 

HS – Sem dúvida nenhuma, especialmente quem se consegue tornar um bom soldador. Pode haver dois tipos de soldadores, aquele que até tem jeito, aprende rapidamente e estanca e aquele que precisa de batalhar para chegar lá mas nunca pára de evoluir. Porque há sempre conhecimento para se adquirir ao longo da vida e implica muita teoria, ligada à engenharia, o que se torna mais difícil para alguém como eu, que tenho o nono ano. Mas com gosto pelas coisas começa-se a perceber como é que as coisas funcionam e leva-me a questionar porque não estudei, porque podia ter ido mais além, mas agora é tarde.

SR – E não pensa em estudar?

 

HS – É complicado, porque se arranjar trabalho em Portugal posso estar alguns períodos parado ou ir trabalhar para o norte do país. Para estudar precisava de alguma estabilidade profissional e, se calhar, familiar, que não tenho. É complicado, pois sinto-me um bocado limitado. Mas também quero ter um bom carro e uma casa e não vou perder agora dez anos a estudar, até porque não posso, porque a minha mãe está cada vez mais velha e cansada. Tenho que ser eu a trabalhar e a fazer com que a minha mãe possa descansar e não vejo tempo para poder estudar. A soldadura é uma coisa de que gosto e só isso já e uma dádiva da vida.

SR – Como é que se vê e se sente?

 

HS – Sinto-me bastante orgulhoso de mim próprio e isso é uma coisa que eu nunca senti. Poder estar ao pé de quem quer que seja e ter orgulho em mim próprio. Eu sou eu, sou o Hugo Silva, tenho 22 anos, sou soldador e tenho uma profissão. E tenho um orgulho enorme nisso.