“É um desafio que queria realmente aceitar”

“É um desafio que queria realmente aceitar”

David Martins treina diariamente para o Campeonato Nacional das Profissões, a decorrer em Maio, no Porto. A vitória nessa competição pode levá-lo ao campeonato europeu, em França, e ao mundial, no Brasil, no próximo ano. O peso da responsabilidade é grande e a exigência alta porque a Solisform, empresa de formação técnica industrial instalada na Lisnave, em Setúbal, já teve campeões nas últimas duas edições. “De certa forma, é uma obrigação e a vontade de poder retribuir a oportunidade que é dada”, refere o jovem soldador, que não quer “pôr as expectativas muito altas”, porque afinal “qualquer outro concorrente quer também o primeiro lugar”. Em entrevista ao “Setúbal na Rede”, David Martins confessa que “estar neste lugar é uma honra, só que ao mesmo tempo é uma responsabilidade saudável”, não escondendo que está “um bocadinho” assustado.

“Setúbal na Rede” – Como é que se deu a tua entrada na Solisform?

David Martins – Eu acabei o 12º ano na área de artes, mas a soldadura foi sempre uma curiosidade para mim. Para o meu pai, o ensino secundário era uma coisa que tinha de ser acabada e nem pensar em dizer ao meu pai que queria tirar um curso profissional na altura em que estava no secundário. Depois disso, o meu objectivo era conseguir inscrever-me para tirar o curso de Arquitectura na faculdade, mas houve ali um ano em que parei para pensar na minha vida e ver o que realmente queria.

Como para a minha geração os cursos superiores são mais ou menos uma incógnita para o futuro, se eu estivesse a tirar o curso de Arquitectura estaria no segundo ou terceiro ano e sem muitas garantias em termos de mercado de trabalho. Depois de terminar o 12º houve um cliquezinho que me fez despertar mesmo para a soldadura. Lembro-me de dizer ao meu pai que me interessava tirar este curso e foi ele mesmo que, graças a Deus, chegou aqui à Solisform. Há vários sítios onde tirar o curso, mas fico bastante contente porque o meu pai veio aqui ter. Mas não foi o meu pai que me obrigou a tirar o curso, partiu mesmo de mim a iniciativa.

SR – Mas como surgiu essa curiosidade pela soldadura?

DM – Tinha amigos que frequentavam os cursos profissionais do IEFP, uns estavam a tirar serralharia e outros soldadura, e sempre foi uma conversa muito vaga, mas tive uma certa curiosidade. Mal sabia que era um mundo assim tão vasto, mas tive a curiosidade e decidi tirar o curso de iniciação e arriscar. Quando vim aqui para e escola ainda não sabia muito bem para o que vinha, mas decidi arriscar. Comecei a gostar e depois frequentei também o curso de TIG, que podemos considerar uma especialização. É um curso avançado em soldadura a tungsténio com gás inerte.

Terminei os cursos e tive a oportunidade de frequentar as formações modulares, que são financiadas pelo Estado, para reciclagem e com vista à certificação dos soldadores. Achei que não fazia sentido ficar em casa a jogar computador e, portanto, decidi vir para cá mesmo antes de procurar trabalho, porque realmente gostava de estar aqui, para aperfeiçoar, porque a soldadura tem vários processos, há muitas posições e materiais, e é um mundo vasto.

SR – Viste alguma ligação entre as artes e a soldadura?

DM – Completamente, pois é outro tipo de linguagem que também nos permite a oportunidade de expressar. Considerei uma arte, mas não vou dizer que de início liguei logo as duas coisas, porque não tinha muito a noção do que isto seria. Hoje já tenho outra noção, de que é um mundo completamente mais vasto, por assim dizer.

SR – O que te levou à opção pelas artes no secundário?

DM – Foi sobretudo devido à geometria e à história de arte que era algo que me interessava bastante na altura. A matemática pus sempre de lado, mas tive a geometria durante dois anos, fiz os exames nacionais e tudo, mas não sei que ligação poderá ter com a soldadura. Talvez porque é um trabalho mais rigoroso.

SR – O objectivo era a arquitectura, onde se exige esse rigor.

DM – O trabalho de perspectiva, por exemplo, era algo que me fascinava bastante. Mas foi aquela curiosidade que me fez arriscar pela soldadura e muito rapidamente comecei a adorar estar aqui e sempre que podia estava aqui, todos os dias. Depois tive esta oportunidade de ir participar no Campeonato das Profissões e isso tenho que agradecer à escola.

SR – Já alguma vez equacionaste que podes ter deixado de parte uma carreira de arquitecto?

DM – É verdade, também penso nisso e tenho família ligada à área, pelo que poderia ter alguma vantagem. Podia ter sido diferente, mas neste pouco tempo que estive aqui, pode-se considerar que consegui alcançar alguma coisa que não sei se alcançaria se estivesse na universidade, porque ainda estaria a estudar. Entretanto já tive a oportunidade de ir trabalhar para o estrangeiro e fiquei bastante contente com isso, pois quer dizer que deu alguns resultados ter arriscado a soldadura.

SR – Quer dizer que já tiveste uma incursão no mercado de trabalho?

DM – Pode-se dizer que sim, pois em Março do ano passado fui para a Holanda, onde estive cerca de cinco meses a trabalhar, e depois voltei para então cumprir aquele compromisso que realmente queria cumprir, que era o campeonato.

SR – Nunca trabalhaste em Portugal?

DM – Nunca tive oportunidade, apesar de ter procurado, ou num cafezinho ou num bar de verão, mas nunca me deram a oportunidade. Por isso, nunca descontei para o meu país, apesar de ter havido vontade. No verão os jovens que geralmente estão na escola tencionam arrecadar algum dinheiro para as suas coisas, para as férias ou algo assim, e realmente não tive essa oportunidade.

David MartinsSR – E como surgiu esse primeiro trabalho como soldador?

DM – Tive a oportunidade de, logo quando acabei de tirar o curso, ir com uns colegas, que também tiraram aqui o curso na Solisform, para a Holanda. Fomos de carro, fizemos quatro mil quilómetros e foi excelente. Houve um contacto com a empresa na Holanda e esses meus colegas depois é que me perguntaram se me queria juntar a eles na aventura e eu achei que seria bom arriscar. Pelos vistos foi, pois gostei muito e considero que foi benéfico.

SR – Mas foi uma ida à aventura, sem garantias?

DM – Havia garantias de trabalho, mas ainda não sabíamos o que íamos fazer. Só nos diziam que havia trabalho garantido para começarmos e para então nos fazermos ao caminho. Os outros colegas eram mais velhos do que eu, mas falei com o meu pai e ele disse que achava bem e arrisquei.

SR – Como foi a experiência profissional por lá? Os conhecimentos adquiridos na Solisform foram úteis?

DM – Foram úteis os conhecimentos que levava mas aprendi também coisas novas, dei-me bem e fiquei bastante contente. É outro país e é outra realidade, onde é preciso mostrar uma certa competência pois a concorrência é muito grande.

SR – O obstáculo da língua não foi complicado de gerir?

DM – Eu já falo inglês desde os meus dez anos, comecei a aprender através das legendas da televisão, depois a aperfeiçoar na escola e através da internet, o que ajuda muito. Ou seja, com o inglês consegui adaptar-me bem, mas claro que a Holanda tem a sua língua mãe, que não é fácil, mas houve uma certa aceitação que dava para comunicar. Só que é sempre diferente falar a língua mãe em qualquer país.

SR – Era bem remunerado o trabalho na Holanda?

DM – Ganhava bem, muito melhor do que ganharia em Portugal. Voltei mesmo só para assumir este compromisso, porque achava que era importantíssimo. Para mim era um desafio que queria realmente aceitar. Quando vim cá pela primeira vez, lembro-me bem, fui logo directamente à oficina e as primeiras pessoas que conheci foram o Jairo e o Hugo. O Hugo estava, na altura, a treinar para o campeonato e no início era um bocadinho difícil entender o ambiente que seria.

A partir daí, durante o curso, comecei a ver o treino que o Hugo tinha, aquele ambiente todo, e de certa forma acho que, para um jovem que ganhou o interesse na soldadura, é um sonho poder ter a oportunidade de representar tanto a escola a nível nacional como, no caso de uma boa classificação, representar o país lá fora.

SR – Como é que surgiu esta oportunidade de ires ao campeonato?

DM – Não estudei aqui no ensino profissional, onde há cerca de cem alunos na manutenção industrial. A minha situação foi diferente porque já tinha o 12º ano e o meu pai investiu do próprio dinheiro para eu frequentar dois cursos de soldadura. Portanto, é uma responsabilidade muito grande que me fez esforçar e tentar tirar partido do curso. Pode-se dizer que o meu pai ia ficar um bocado desiludido comigo e acho que nenhum filho quer que isso aconteça, pelo que tentei dar o máximo.

E depois de estar aqui oito horas por dia, todos os dias da semana, comecei a ambientar-me e a gostar de estar aqui. Desde que comecei a tirar o curso que nunca mais parei, no sentido em que tirei o curso de iniciação, arrisquei no TIG, ou seja, na especialização, e logo a seguir fui para a Holanda e quando voltei vim imediatamente para aqui. Até agora ainda não parei, desde que vim para aqui.

David MartinsSR – Mas o que fez com que a escola apostasse em ti para essa responsabilidade?

DM – Vou ser mesmo sincero, eu não consigo responder a essa pergunta porque foi algo que surgiu, mas que não estava nada à espera. Fiquei bastante contente e não sei como explicar, mas às vezes há coisas que acontecem e que não se explicam e se calhar é essa a razão.

SR – Mas estás confiante com o desafio?

DM – Estamos a falar de um campeonato onde qualquer outro concorrente quer ganhar tanto como eu e é complicado. Acho que não seja uma característica individual de uma pessoa que marque a diferença, porque tudo está envolvido, dedicação, tempo e interesse. Quando já começamos a levar isto para casa, já é outra questão completamente diferente, pois já há aqui muito envolvimento. Por isso, não sou muito bom a avaliar-me a mim próprio.

SR – Será o envolvimento uma característica decisiva?

DM – Isso já parte de cada um. Mas quando isto se torna um objectivo, porque estamos aqui oito horas por dia, é um treino intensivo, a trabalhar para a perfeição, em posições diferentes que a soldadura tem, com diferentes processos e materiais, e estamos todos os dias a exercitar, pois não é assim tão fácil como parece e requer muito tempo e dores de cabeça, no bom sentido e no mau sentido também, começamos a viver realmente isto. Antes de me começar a preparar para o campeonato era um educando normal, estava aqui na cabine a praticar o que me era dado, mas a partir do momento em que entrei naquela cabine dos campeonatos, é um exercício completamente diferente, porque também, de certa forma, é uma obrigação e a vontade de poder retribuir a oportunidade que nos é dada.

SR – Que expectativa tens?

DM – Eu não gosto de pôr as expectativas muito altas, porque prefiro surpreender-me do que decepcionar-me. Essa é a resposta sincera. É natural que vou dar o meu máximo mas, como já disse e repito, qualquer outro concorrente quer também o primeiro lugar. Vou dar o meu máximo e espero conseguir a melhor classificação possível.

SR – Para isso são necessárias muitas horas de treino?

DM – Muitas horas de treino que já começam a escassear, pois já começam a diminuir as horas disponíveis para treinar até ao campeonato.

SR – Na cabine, durante o treino, não passa pela cabeça que podias estar lá fora a fazer outra coisa mais divertida?

DM – Passa, mas penso que o campeonato é completamente diferente do trabalho. Quando se ganha o espírito, só se pensa no campeonato. Ando focado, preocupado e isso é uma bola de neve.

SR – E para depois do campeonato, quais são os objectivos?

DM – O objectivo de qualquer soldador é ser um bom profissional para poder singrar lá fora. Não vou dizer que não gostava de trabalhar no meu país, perto da minha família, só que o trabalho escasseia e o vencimento também não é assim tão vantajoso como lá fora. O meu objectivo é tornar-me um bom profissional e poder ir para o estrangeiro, trabalhar. Para concorrer a um trabalho, há vários tipos várias exigências e várias categorias, que podem ser em refinarias ou em plataformas, por exemplo. Cada tipo de trabalho tem a sua exigência, daí, um bom vencimento ou mau vencimento, pelo que o objectivo é conseguir chegar onde puder, o mais alto que puder.

SR – Imaginas a vida numa plataforma, que parece ser um trabalho muito duro?

DM – Sonho com isso e espero um dia conseguir. Mas agora estou a treinar para o campeonato nacional e, se tudo correr bem, o fim seria 2015, no campeonato mundial. Só o primeiro lugar é que permite ao concorrente representar Portugal na Europa e no Mundo. Estar aqui neste lugar é uma honra, só que ao mesmo tempo é uma responsabilidade saudável, mas assusta-me um bocadinho.

SR – Tens sentido apoio da escola neste teu processo?

DM – A escola apoia-me imenso desde o início, desde que comecei a tirar o curso. As pessoas são espectaculares, a Solisform é quase como uma família, porque a nossa relação é excelente, tanto na oficina como no escritório. Os meus colegas também me apoiam bastante. Algumas das pessoas que estão aqui na escola andaram comigo na primária, são pessoas que moram perto de mim, e de certa forma apoiam-me. Pessoas que conheço bem, outras que nem por isso, mas apoiam-me e vão às vezes ali à cabine e dizem “vá, treina que tu vais conseguir”.

SR – Sentes-te o centro das atenções na escola?

DM – É o facto de ser o único aqui da escola a concorrer ao campeonato, mas é bom sentir esse apoio. Quer dizer, às vezes é bom mas às vezes é mau, por isso há alturas em que fecho a porta da cabine para não sentir tanto a pressão.

SR – Sentes esse aumento da pressão?

DM – Sem dúvida. Só penso em trabalhar para quando chegar ao fim de Maio estar preparado para competir e fazer uma boa prestação.

SR – E o nível de stress como está?

DM – No início era um bocadinho mais suave, mas agora que o tempo vai apertando, já aumentou mais um bocadinho.