“Antes a lágrima da derrota do que a vergonha de não ter lutado”

“Antes a lágrima da derrota do que a vergonha de não ter lutado”

Depois da competição, seja qual for o resultado, olhar para o trabalho que foi feito e pensar que deu “o melhor” e fez “tudo o que estava ao alcance para conseguir atingir o melhor resultado”. É com este propósito que David Martins cumpre os últimos dias de treinos, agora que é oficialmente o concorrente da Solisform na profissão de soldadura ao Skills Portugal, o campeonato nacional das profissões que vai decorrer em Maio, no Porto. A candidatura foi oficializada esta semana, numa cerimónia em que a delegação regional do Alentejo do Instituto de Emprego e Formação Profissional apresentou a equipa de concorrentes que vai representar esta região. Em entrevista ao “Setúbal na Rede”, o jovem soldador admite que “mais vale a lágrima da derrota do que a vergonha de não ter lutado”.

Se David Martins vencer na categoria de soldador o Campeonato Nacional das Profissões, que se realiza de 25 a 30 de Maio, será o representante de Portugal no EuroSkills, de 1 a 5 de Outubro em França, e na WorldSkills, em Agosto do próximo ano, no Brasil. Nos últimos anos, a Solisform, empresa de formação da multinacional Randstad, já conseguiu três campeões nacionais, um campeão e um vice-campeão europeus e um sexto lugar a nível mundial, este com Jairo Carrasco, o treinador de David. Por isso, as expetativas estão altas para o concorrente.

“Setúbal na Rede” – Qual é o estado de espírito atual?

David Martins – Estou ansioso, mas psicologicamente preparado para competir. É a ansiedade que domina mas, de resto, sinto-me igual ao que estava antes. Neste momento, convém normalizar as emoções para não entrar em stress e tentar manter o equilíbrio emocional. E estou a tentar fazer umas horas extra de treino, para depois não ficar com peso na consciência de que me podia ter esforçado mais.

SR – Tecnicamente, sente-se preparado?

DM – Isso é uma incógnita, embora considere que é sempre possível aperfeiçoar mais. Mas nesta altura não posso pensar que não estou preparado porque não posso ir abaixo psicologicamente. Tenho que ter confiança em mim e continuar a treinar até ao último dia para estar o mais preparado possível. Sentir-me completamente preparado nunca me vou sentir, porque tenho a noção de que é impossível fazer uma prova perfeita.

David MartinsSR – Mas nos treinos dá para perceber se os resultados esperados são atingidos?

DM – Consigo simular as pontuações de acordo com os critérios utilizados no campeonato, mas não posso prever o que vou fazer no dia das provas porque depende do meu estado de espírito na altura. Isto que aqui faço é apenas uma guia e não me posso basear nos trabalhos que faço aqui na escola, pensando que vou conseguir a mesma pontuação no campeonato. Os treinos servem apenas para me preparar e transmitir um pouco de confiança.

SR – Mas tecnicamente os treinos estão a correr bem?

DM – As coisas estão a correr bem, mas tenho consciência de que o contexto do campeonato é diferente. Já dei a volta a todas as técnicas necessárias e o objetivo agora é aperfeiçoar tudo, porque é muita coisa. Agora tenho que ter confiança em mim, porque falta pouco para o campeonato.

SR – O reforço de horas de treino é com o objetivo de corrigir alguma fragilidade?

DM – É uma revisão e sempre a pensar em melhorar e aperfeiçoar cada técnica.

SR – Ainda tem capacidade de aumentar mais o tempo dos treinos?

DM – Espero que sim, tenho que me mentalizar para isso. Uma vez que não tenho nenhuma ocupação depois do horário normal dos treinos, vou aproveitar e tentar ficar um pouco mais de tempo para depois não ter nenhum problema de consciência de que me podia ter esforçado mais.

SR – Não há cansaço?

DM – Não me sinto muito cansado porque é maior a vontade de estar aqui e de fazer o maior número de horas possível. É a questão de não querer ter problemas de consciência e isso mobiliza toda a minha motivação. Se posso ficar aqui mais um tempo a treinar e se isso pode ser benéfico para mim, torna-se um prazer estar aqui este tempo todo. Mas penso que não serei o único a adotar este regime de treino intensivo. Não tenho conhecimento dos outros concorrentes, mas penso que quem vai a uma competição tenta sempre treinar o máximo possível se tiver oportunidade.

David MartinsSR – A vida social continua inexistente?

DM – Neste momento é nula, porque não tenho mesmo tempo. Saio daqui, vou para casa, janto, durmo e volto para o treino no dia seguinte, com o mesmo objetivo.

SR – O que vai fazer a seguir ao campeonato?

DM – Ainda não sei, mas em princípio vou visitar a minha família à Madeira. Já lá não vou há algum tempo e vou aproveitar essa liberdade, seja qual for o resultado.

SR – Está preparado para qualquer resultado?

DM – Já me preparei psicologicamente para isso. Vou tentar dar o melhor de mim e, sem querer ser muito lamechas, recorro a uma frase de que gosto muito: “mais vale a lágrima da derrota do que a vergonha de não ter lutado”. Portanto, seja qual for o resultado eu sei que vou fazer o máximo que conseguir e depois há que dar os parabéns a quem ganha e a quem compete.

SR – Mas está confiante?

DM – Eu quero é fazer o meu trabalho, fazer uma boa prestação, esse é o meu objetivo. E o lugar que conseguir será o resultado disso.

SR – O que tem dito o Jairo sobre as possibilidades no campeonato?

DM – Ele diz que é preciso fazer o melhor, é isso que ele diz sempre. Também não me vai dizer se tenho oportunidade de ganhar ou de perder, porque não era correto, mas está todos os dias comigo e dá-me uma grande ajuda. Agora depende de mim, porque ele pode-me ensinar, mas quem vai ter que estar lá no momento a fazer as provas sou eu.

SR – Há muita cumplicidade entre os dois?

DM – É normal, porque passamos aqui o dia inteiro desde há quase seis meses, com ele a perder a cabeça comigo e eu a querer aprender.

SR – Que importância tem o momento em que se fecha a cortina da cabine e começa a trabalhar?

DM – Acho que todos os concorrentes dão importância a esse momento, porque é naquele momento em que começa tudo. Não sei qual é o sentimento que vou ter no campeonato, mas no momento em que se fecha a cortina tenho a noção de que a partir daí tudo depende de mim. O Jairo é que me tem ensinado e tenta ajudar-me para conseguir a melhor prestação possível mas eu é que vou estar lá. E é então que tenho de aplicar o que já aprendi e fazer o meu melhor.

David MartinsSR – O que se pensa dentro da cabine?

DM – Estou sempre a pensar no campeonato, sempre a pensar na hora da verdade e em tentar fazer o melhor possível. Estou a olhar para a peça e o sentimento é sempre o mesmo, de tentar fazer o melhor possível, porque sei que vou ser exposto à mesma situação no dia do campeonato e tenho de estar preparado para isso.

SR – Isso parece quase uma obsessão.

DM – Estou sempre concentrado. Claro que uma situação de trabalho não tem nada a ver com a competição e aí o pensamento vagueia, mas aqui tenho um compromisso para ir competir. No momento em que aceitei este desafio eu sabia realmente para o que vinha e o meu objetivo era mesmo este, de levar isto a sério a cem por cento. Isto não é para sempre e não vou morrer se tiver de viver com pressão num curto espaço de tempo. O meu objetivo é, depois da competição, seja qual for o resultado, olhar para o trabalho que foi feito e pensar que dei o meu melhor e fiz tudo o que estava ao meu alcance para conseguir atingir o melhor resultado.

SR – Estamos a falar de uma grande autodisciplina?

DM – A responsabilidade também é o concorrente que a põe, porque sempre me disseram que as pessoas da escola não vão ficar tristes ou desapontadas se não conseguirmos o objetivo. Mas o objetivo é sempre corresponder às expetativas que colocaram em mim e à oportunidade que me deram.

SR – Vê isto também como uma oportunidade para o futuro?

DM – É óbvio que toda esta formação ajuda a nível profissional mas, acima de tudo, é a vontade de representar a bandeira portuguesa e a da escola num campeonato internacional. É mais isso, porque a nível profissional acabamos sempre por evoluir com toda a formação e com as horas que estamos aqui dentro.