Perdeu a “vida social por opção” a pensar na soldadura

Perdeu a “vida social por opção” a pensar na soldadura“Nervoso, ansioso, ora motivado, ora desmotivado”. É como se sente David Martins, a dois meses de participar no Campeonato Nacional das Profissões, que vai decorrer em Maio, no Porto. A data vai-se aproximando e o jovem soldador da Solisform diz “não ter noção se é suficiente ou não para o que falta aperfeiçoar”. Para já, acabou de passar uma fase decisiva, que foi a pré-seleção, o que significa que já é concorrente oficial. Em entrevista ao “Setúbal na Rede”, o concorrente diz que objetivo “é conseguir chegar ao campeonato e estar à vontade com qualquer coisa que seja pedida”, o que o leva a pensar nas provas “a toda a hora”. David admite mesmo que está “um bocado paranoico nos últimos três meses” e já nem com os seus amigos costuma estar, “porque o campeonato está a mobilizar as preocupações por completo”. “É estranho”, diz, mas perdeu a “vida social por opção”.

“Setúbal na Rede” – Como está a decorrer o treino?

 

David Martins – Posso dizer que está a correr bem. A única questão é que já só faltam dois meses e não chego a ter noção se é suficiente ou não para o que falta aperfeiçoar. Posso dizer que está a correr bem, mas não sei se está a correr bem para o tempo que tenho. Eu parto do princípio que os meus adversários cumprem as tarefas deles da mesma maneira que eu ou até melhor. A verdade é que não tenho bem a noção, porque não tenho fatores de comparação. É a primeira vez que estou a competir, comecei a aprender coisas que não sabia fazer tão bem, de modo que é um pouco confuso para mim saber em que nível é que estou na aprendizagem e em que nível vou estar daqui a sensivelmente dois meses, que é o tempo que falta.

SR – Tendo em conta que o Jairo Carrasco é mais experiente, o que é que ele tem transmitido?

 

DM – Foram poucas as vezes que perguntei diretamente ao Jairo se ele achava que tenho capacidade de chegar lá e conseguir com o que sei ou se tenho tempo para aprender o resto. Nunca tive uma resposta concreta e por isso a minha incerteza. Penso nisso a toda a hora, seja em casa ou seja aqui. Ainda é um pouco difícil chegar a conclusões, também pelo facto de não ter um termo de comparação com os outros adversários.

SR – Como classifica o apoio que o Jairo tem dado?

 

DM – É enorme. Desde o início que o apoio que tenho tido é enorme, tanto do Jairo como da escola. O Jairo está sempre comigo a ajudar-me nas dificuldades que tenho e é muito esclarecedor quando tenho alguma dúvida. Só que sendo ele a fazer as tarefas é muito diferente de ser eu a fazer, neste momento. Ele tenta-me ensinar, mas eu não sou o Jairo e é complicado fazer como ele. Mas tento fazer sempre o meu melhor. Há vários fatores em jogo e não é só o saber fazer, pois uma pessoa pode saber fazer, ser competente, mas há coisas que podem atrapalhar, como o nervosismo.

SR – Como é a sua rotina diária?

 

DM – Acordo às sete da manhã para apanhar o autocarro a um quarto para as oito. Demoro cerca de dez minutos a pé até chegar à estação e depois venho direto para a Solisform. É o dia todo, até às cinco, aqui, quando apanho o autocarro para casa. Entretanto, frequentava o ginásio até há dois meses atrás, só que decidi abandonar, mas não foi bem por falta de paciência. Às vezes jogava à bola com os meus amigos, mas ultimamente a minha vida é mesmo casa-trabalho, trabalho-casa. Raramente saio, nem ao fim-de-semana. Fico por casa e jogo computador ou algo assim. O que penso nesta altura é que tenho de ocupar a minha cabeça com alguma coisa quando estou fora da Solisform, porque tenho muita tendência para pensar o tempo todo no que se passou durante o dia, no que fiz bem ou que fiz mal. O tempo fora daqui uso-o para mim, para tentar entreter-me e esquecer um pouco o que se passa aqui. Posso dizer que estou um bocado paranoico nos últimos três meses e já nem com os meus amigos costumo estar ultimamente, mas é uma opção minha, porque o campeonato está a mobilizar as minhas preocupações por completo.

SR – E na Solisform, qual é a rotina?

 

DM – Quando chego, começo logo o trabalho. Chega a uma altura em que é tanta coisa ao mesmo tempo que nem sei o que hei-de fazer. Mas estou sempre a soldar, só saio para almoçar ou então faço uma pausa de dez minutos para beber um sumo ou comer uma bolachinha. Mas de resto, tento estar o mais tempo possível dentro da cabine.

SR – E no que consiste o trabalho dentro da cabine?

 

DM – O campeonato tem uns certos objetivos e várias provas que são exigidas. São muitos processos, são muitas posições e são diferentes materiais, que reagem todos de forma diferente. Umas coisas são diferentes das outras e outras relacionam-se, mas o que tento é cumprir com os objetivos e com o que eles me pedem a nível de peças, a nível de posições e a nível de processos. O que tento fazer é aperfeiçoar ao máximo o que é possível fazer e o que tenho mesmo de fazer no campeonato. O meu objetivo era conseguir chegar ao campeonato e estar à vontade com qualquer coisa que me seja pedida, mas não faço ideia do que vai ser pedido.

SR – As posições são a forma como as peças se juntam umas às outras?

 

DM – Sim, porque não é tudo igual devido a vários fatores, como a gravidade ou a direção da soldadura. Tem tudo uma certa teoria e umas certas regras, por assim dizer, para se seguir. É sempre difícil estar à vontade antes de uma competição, mas o objetivo é conseguir ter mais facilidade em cumprir as tarefas e dar resposta a qualquer pedido que me façam. Posso não estar à vontade mas sabendo que já fiz isso muitas vezes e sei como é que se faz, tenho de me concentrar e se me concentrar consigo fazer. O meu dia passa por isso, por aperfeiçoar coisas que ainda não consigo dominar.

SR – Repetindo muitas vezes os exercícios?

 

DM – Dou sempre a volta por tudo o que tenho de fazer, mas concentro-me sempre naquilo em que tenho mais dificuldades, principalmente agora nesta fase, em que só que faltam dois meses, para que, com o tempo que sobra, possa acertar coisas que faltem ou em que eu sinta mais fragilidades. Agora é mesmo aquela fase de repetir, aperfeiçoar, melhorar e tentar sempre dar o máximo.

SR – Onde tem mais dificuldade?

 

DM – Aquilo em que tenho mais dificuldade é no que estou a treinar há menos tempo, no que fui obrigado a aprender há menos tempo. No campeonato, começam por nos dar um tubo e três chapas, que são os provetes, e são sorteadas as posições e os processos. Depois, há outra categoria de provetes que são as caixas, a caixa de alumínio, a caixa de inox e o vaso de pressão. Como já disse, é tudo muito diferente. No início comecei pelos provetes porque abrange muita coisa e quase todos os processos de soldadura existentes e que são sorteados. Ou seja, era muita coisa e por isso convinha começar por ali e tentar ir eliminando aos poucos as dificuldades. Agora as caixas também envolvem todos os processos e todas as posições mas é uma fase mais de construção a nível de pontos de soldadura. O vaso de pressão é testado com 70 quilos de peso e é a última prova. Por isso comecei há menos tempo e fiz agora uma peça dessas para a pré-seleção.

SR – Acabou de passar uma fase decisiva, que foi a pré-seleção, o que quer dizer que já foi passado um desafio e concluída uma prova?

 

DM – Foi uma espécie de mini-prova e posso dizer que correu bem.  Só que é diferente, pois é uma prova de metade do tamanho das do campeonato. Mas agora é oficial que estou como concorrente ao Campeonato Nacional das Profissões, porque passei a prova de pré-seleção.

David MartinsSR – A pressão mudou?

 

DM – A pressão sinto a mesma. À-vontade nunca me senti nem me vou sentir tão cedo.

SR – Consegue explicar qual a dificuldade da soldadura?

 

DM – Tem tudo a ver com a transferência de conhecimentos que me foi transmitida através do Jairo ao longo do tempo. Requer também muita prática, porque são várias coisas que estão em jogo, como a estabilidade, saber o que se está a fazer, a visão, a precisão ou a reação dos materiais com o calor. São várias coisas que se combinam e a nível do campeonato é uma exigência fora do normal. Mas para fazer qualquer coisa, é preciso aprender e é preciso persistência.

SR – Também é necessária uma preparação teórica?

 

DM – A teoria vem ao mesmo tempo que a prática, porque há muitas coisas com que nos temos de preocupar, mas também depende de até onde é que queremos ir. No campeonato, o objetivo é que os concorrentes façam “perfeito”, o melhor possível. Ao treinar para o campeonato, não podemos ficar contentes com o que estamos a fazer, pois temos de ver se é possível ficar ainda melhor e temos de tentar que fique. É necessário ter noção de que no campeonato há concorrentes que conseguem fazer o mesmo que eu ou melhor ainda. Tenho de ter essa consciência e tentar fazer sempre o melhor possível.

SR – Mas preparação é só treinar a prática ou é necessária alguma revisão de conceitos?

 

DM – De certa forma, tudo o que tinha e tenho de aprender quem me ensina geralmente é o Jairo. Mas já na altura em que tirei os cursos sempre tive interesse em ler um bocadinho mais sobre códigos de processos, decorar as posições em códigos ou em saber as normas internacionais. Mas descobri que não me vale de muito estar sozinho em casa a pesquisar coisas porque vou ter que vir para aqui perguntar ao Jairo e tirar dúvidas. É ele que me está a ensinar, é ele que sabe o que é preciso para chegar ao campeonato e conseguir bons resultados. Por muito que haja interesse em saber, é sempre bom ter uma pessoa a orientar.

SR – Do ponto de vista físico, é uma atividade exigente?

 

DM – Sim, mas só até estarmos habituados, porque quando estamos aqui oito horas por dia durante algum tempo, habituamo-nos e já não noto muito a diferença. No início, sentia que era um bocado exigente do ponto de vista físico, mas vim a descobrir que é muito mais psicológico do que físico. Nas obras, temos que nos adaptar às condições e trabalhar muitas vezes em condições muito estranhas. Mas nos campeonatos temos um posicionador em que colocamos a peça em posição, na altura adequada ao soldador, embora depois a peça fique fixa e não se possa rodar e sejamos nós a rodar em torno da peça.

SR – O treino no ginásio não era útil para alguma preparação física para as provas?

 

DM – Era, mas quando saio daqui só quero estar fechado em casa. Depois de sair do treino não consigo fazer mais nada, só quero descansar para no dia seguinte voltar de novo. É estranho, mas perdi a minha vida social por opção. Por exemplo, fui operado a um ouvido há uns cinco anos e precisava de ir ao médico, mas evito para não faltar aos treinos, porque não sei se esse dia não me pode fazer falta e o campeonato correr menos bem por causa disso. Não é saudável ser assim, mas foi uma opção e sinto-me confortável com isso.

SR – Como descreve o seu estado de espírito?

 

DM – Nervoso, ansioso, ora motivado, ora desmotivado, uma oscilação porque é tudo uma expetativa, algo que nunca fiz e para que estou a trabalhar para conseguir sair da melhor forma e quando não se sabe ao que vamos é complicado. Nunca vivi essa experiência e só quando chegar lá é que vou saber. Sei que vou ter o Jairo sempre comigo, mas também sei que cada elemento do júri representa uma entidade que também tem um concorrente e, portanto, estão lá para nos destabilizar. Imagine-se que algo me corre mal e entra nesse momento um elemento do júri, ele vai mexer com o meu estado psicológico e vai fazer por me enervar, e não posso dar-lhe essa satisfação.

SR – Está confiante em relação ao campeonato?

 

DM – Isso é algo que me falta muito e sempre me faltou. Não posso ter falta de confiança, mas não quero subestimar nenhum dos adversários que também estão lá a querer ganhar. Se já estivesse no fim do treino, estaria confiante porque sabia que teria de fazer o meu melhor. Mas hoje, falta-me uma perspetiva do que falta fazer até ao final do treino. Em relação às provas, a minha vontade é dar o meu melhor, conseguir fazer o melhor possível. O meu sonho, o meu objetivo, era ganhar. De certa forma, sinto-me confiante mas, ao mesmo tempo, é complicado de explicar os meus sentimentos.

SR – E se as coisas no campeonato lhe correrem mal?

 

DM – Se correrem mal é uma grande desilusão para mim, mas grande mesmo, porque perdi a minha vida social e abdiquei de certas coisas para só pensar na soldadura. Claro que se corresse mal no Porto era uma completa desilusão para mim e nem quero pensar nisso sequer. Às vezes penso, porque isso é importante para a minha concentração e estar consciente do que pode acontecer, mas quero mesmo sair de lá bem. Perder a vida social não perco porque já a perdi quase toda. Estou a ser um pouco radical, mas vou manter este radicalismo até ao fim da prova. A minha vida não se vai desmoronar por causa disto, mas se não corresse bem quase. Entrei no espírito do campeonato, concentrei-me nisto, é uma coisa que eu quero desde o início, desde que assinei o contrato com a Solisform. Além disso, é uma responsabilidade por vários motivos, quer pelo historial que a escola tem nos campeonatos, pelas medalhas que a escola tem e pela honra que é estar aqui. Adorava poder retribuir à Solisform e a toda a gente que me apoiou desde início. Existe sempre a pressão de competir mas, desde o início, sempre tentaram tirar-me o peso de cima. Sou eu que estou a fazer isto a mim mesmo.

SR – Mas está preparado para um mau resultado?

 

DM – Tenho que pensar sempre nessa hipótese. Nunca pensei que ia ganhar, mas quero conseguir, quero ganhar, mas sei que depende de mim, embora haja muitas coisas em jogo. A confiança vai aumentando, mas esta fase final é decisiva e é a parte mais complicada, porque o tempo aperta e tenho de tentar colocar nesse tempo o que penso e considero que tenho que aperfeiçoar. Ao não saber se o tempo chega, todos os dias temos que usar o tempo para fazer tudo o que for possível. Por isso ando ansioso, mas também fui sempre um pouco assim e é algo que tenho que controlar.