A um mês das eleições legislativas, Portugal é um país em que o contrato social foi rasgado nos últimos anos, conduzindo à insuficiência presente do Estado Social, à desvalorização do trabalho e da sua dignidade, ao aumento exponencial dos números da pobreza, a um inusitado recrudescimento da emigração. Somos hoje um país em que todos são, cada vez mais, vulneráveis aos riscos de desemprego, de doença, de velhice.

Vejamos. Nos últimos quatro anos tem-se realizado uma transferência dos rendimentos do trabalho para o capital, de enormes proporções; o trabalho tem hoje menos cerca de 6 mil milhões de euros do que em 2011, o que significa uma descida tremenda do rendimento dos salários; pelo contrário, o capital foi remunerado em mais quase 4,5 mil milhões de euros. É o INE quem fornece estes dados.

Tudo isto enquanto os portugueses (que ainda têm emprego) trabalham anualmente mais 324 horas do que, por exemplo, os alemães, mas recebem menos 7.484 euros. Estes números são da OCDE, segundo a qual os trabalhadores portugueses laboram 1.712 horas por ano, tempo superior ao registado em 17, dos 34 países da organização.

De resto, em Portugal 686,8 milhares de pessoas efectuam mesmo “trabalho excessivo” (conceito internacional); mas este não é o maior drama. Pior é que, segundo dados do Ministério da Economia, enquanto em 2011 eram 11,43% os portugueses que trabalhavam em troca do salário mínimo, hoje essa percentagem subiu para 20%, ao mesmo tempo que o ordenado médio baixou 2,5%, no mesmo período. E há ainda a praga da precariedade.

Tudo por força e vontade deste Governo que apostou, desde o início, em salários baixos para aumentar a competitividade. Não o conseguiu, por razões que não são da responsabilidade dos trabalhadores, mas aumentou o número dos “novos pobres”, daqueles que, apesar de trabalharem, não conseguem sequer assegurar a sua subsistência e a dos seus familiares. Como reduziu parte significativa da antiga classe média a níveis de sobrevivência, sem qualidade de vida.

Nesta desgraçada sociedade, é a solidariedade intergeracional, no caso dos mais velhos para com os mais novos, que nos vai valendo, para evitar mais pobreza e instabilidade social. Mas nem esse valor este Governo, que tem a pouca-vergonha de se recandidatar, parece prezar. Basta lembrar a frase do deputado do PSD, Carlos Peixoto (hoje candidato pela coligação no poder como cabeça de lista da Guarda), quando afirmou que “a nossa pátria foi contaminada com a já conhecida peste grisalha…” Ou, mais grave, a moção de Passos Coelho ao Congresso do PSD (2014), onde se refere uma “apropriação excessiva dos direitos das gerações futuras por parte das actuais gerações”.

Este Governo esmaga os trabalhadores, sufoca as famílias, rouba o futuro aos jovens (tudo, claro, em consonância com a União Monetária Europeia, a única que existe da Europa), sempre fazendo de conta que não existe luta de classes e colocando no lugar dessa “alucinação marxista”, a luta de gerações.

Entretanto, dizem eles, a economia retoma; o desemprego desce; o consumo sobe; as universidades têm mais alunos; os médicos da família atendem mais doentes. Sempre que há um PSD a presidir ao governo vivemos entre o “paraíso” e o “oásis”, ao gosto do freguês. Nos intervalos, para justificarem as austeridades, dizem-nos que estamos “de tanga”, que andamos a gastar à toa e isso tem que acabar; temos é que ser pobrezinhos mas honrados.

Que se preparem aqueles que hoje acham que está tudo bem e que devem votar em Passos e Portas porque ainda toda a gente tem emprego lá em casa, podem pagar a prestação do apartamento e dos carros, as férias nem que seja no Algarve, os “gadgets” dos putos, etc. e tal. É que, como disse acima, talvez não tenham dado por isso mas são tão vulneráveis como os outros. Espreita-os o desemprego, a doença, a velhice. Portanto, não vão em cantigas. Votem bem!

Fotografia de Alan Cleaver

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Mário Contumélias

Etno-sociólogo e autor
Mário Contumélias, natural de Setúbal (S.Julião). Autor (30 livros publicados – Poesia, Romance, Histórias para crianças, Jornalismo/Sociologia). Escritor de canções (finalista de sete Festivais RTP; “O Areias”; “Visitas”…) Prof. Universitário; cientista-social (investigação mais recente no âmbito do Projecto “Values, Institutional Quality, and Development”, 2014). Doutorado em Sociologia. Licenciado em Antropologia Social. Foi também Jornalista.

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