Segundo a organização não-governamental britânica Oxfam, em 2016 o património acumulado pelos mais ricos do mundo – 1% da população mundial – vai ultrapassar o dos restantes 99%: “A parte do património mundial detida por 1% dos mais ricos passou de 44% em 2009 para 48% no ano passado e vai ultrapassar os 50% no próximo ano”. Ou seja, prevê-se que em 2016 a ínfima fatia de um por cento da população mundial irá deter mais riqueza que os restantes noventa e nove por cento…


A ONG, que se baseou num estudo recente, revela que a “amplitude das desigualdades mundiais é vertiginosa” e exigiu a realização, ainda este ano, de uma cimeira mundial de fiscalidade para rescrever as regras fiscais internacionais.


A situação é insustentável e chocante uma vez que o fosso entre as grandes fortunas e o resto da população aumenta rapidamente, pelo que há que atacar “os interesses particulares dos pesos pesados que são um obstáculo para um mundo mais justo e mais próspero”.



Segundo a Oxfam é urgente que a comunidade internacional adopte um plano de luta contra as desigualdades, contrariando a evasão fiscal, com mais impostos sobre o capital e menos sobre o trabalho, criando salários mínimos ou ainda através da criação de sistemas de proteção social para os mais pobres. Tudo medidas que vão contra a lógica da actual política europeia.


Na prática a situação denunciada representa mais pobreza, desemprego, fome e doença no mundo, em vez de maior coesão social e desenvolvimento. Pode assim dizer-se que todas as ideologias falharam quando aplicadas às sociedades concretas. Falhou o comunismo e o capitalismo. E a social-democracia está também a falhar visto ter ficado cativa dos altos interesses financeiros que hoje comandam o mundo.


Quem manda hoje no mundo são os mercados, que é como quem diz, a especulação financeira e os bancos. É tempo de ressuscitar a política, as ideias, e de reinventar a ideologia. As pessoas movem-se por ideais e não apenas por notas de dólar ou euro.


Independentemente de como a aventura terminar, o facto é que aquilo que se passa hoje na Grécia é a ressurreição da política. A tentativa de furar o cerco que o poder financeiro aplicou ao poder político, paralisando-o através da corrupção das elites, de uma organização capitalista à escala global e da opressão sobre os povos.


Será que a Europa ainda vai a tempo para sacudir o jogo?


Fotografia de capa por Carsten Schertzer

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José Brissos-Lino

Docente Universitário
Psicoterapeuta, docente universitário e escritor. Ligado ao associativismo, à solidariedade social e à cultura. Colabora regularmente na imprensa regional, desde 1980. Doutorado Psicologia e em Ciências da Religião. Pastor protestante.

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