Nada melhor do que o caos das urgências que marcou este Inverno para servir de imagem para o estado anímico dos portugueses.


O fracasso da estratégia de austeridade virtuosa e expansionista, o sentimento de um esforço repartido de forma desigual e que nem sequer impediu o crescimento da dívida e a frustração das expetativas criadas à mais qualificada das gerações portuguesas contribuem para um ambiente deletério perigoso para a saúde da nossa democracia.


Depois de quatro anos de violência social em que os cortes de salários se tornaram banalidades, a emigração uma oportunidade, os apoios sociais um privilégio evanescente e as penhoras digitais uma ameaça à estabilidade social por dividas menores o comportamento leviano de Pedro Passos Coelho relativamente ao cumprimento das suas obrigações contributivas surge como um misto de ofensa coletiva e sentimento de derrota coletiva na alteração de atavismos estruturais.


Se Cavaco fosse um Presidente atento ao sentimento coletivo, e não o patrono rancoroso da coligação governativa, teria atempadamente ajustado o calendário eleitoral à necessidade de dar uma refrescada legitimidade ao poder, de mobilizar os portugueses em torno de novos rumos e encontrar uma solução que não nos deixe no final do ano sem Orçamento, com uma reduzida capacidade negocial com a Europa enquanto o inquilino de Belém têm já os novos aspirantes à porta em campanha eleitoral.


O que vamos ter será uma longa agonia de casos pouco edificantes que ainda mais amarguram o sentimento de impotência dos portugueses. Tal com como esperaram horas infindáveis em urgências hospitalares que subitamente se mostraram incapazes de corresponder às expetativas cridas pela confiança no SNS também a espera pela profilaxia democrática do voto faz perigar a confiança nos efeitos redentores da democracia.


A ligeireza impotente com que se acha normal que o Litoral Alentejano não tenha direito a ter médicos, quando em número temos dos maiores ratios da Europa, ou com que se assiste à degradação da rede de cuidados públicos entre a instabilidade de serviços assentes em “médicos a dias” e a sangria de quadros para nichos apelativos de medicina privada são o caldinho de um sentimento de raiva surda a que o sistema político tem de dar respostas estruturadas sob risco de implosão pela abstenção deslegitimadora ou pelo populismo.


A construção de uma alternativa exige ao PS a apresentação de propostas claras, exequíveis e mobilizadoras. Mas obriga na nossa região a que o PCP seja confrontado com um momento de verdade. Se insiste , pelo seu sectarismo tático na relação com o PS, em ser o tapete vermelho para a manutenção de soluções governativas de direita ou se contribui para que seja dada uma pulseira verde na nossa “urgência democrática” para uma alternativa de crescimento com solidariedade social assente num apoio político estável e num diálogo social construtivo com trabalhadores e empresários.

Fotografia de capa por 401(K) 2013

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Eduardo Cabrita

Deputado do PS eleito pelo distrito de Setúbal
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