A decisão do Banco Central Europeu de lançar um amplo e ambicioso programa de compra da dívida pública dos países da Zona Euro constitui um marco de grande relevo para a economia europeia e nacional.


Em primeiro lugar porque ele é o reconhecimento do falhanço das políticas Europeias que se seguiram à crise das dívidas soberanas a partir de 2010.


A ortodoxia económica dos poderes dominantes da União Europeia baseou-se, nos últimos anos na teoria da chamada austeridade expansionista. Pretendia-se com esta teoria conduzir duras politicas de austeridade com três instrumentos fundamentais: num corte substancial da despesa do Estado (em particular nas transferências sociais), em reformas do mercado de trabalho orientadas para um reforço da competitividade através da desvalorização salarial e na convicção de que a recuperação teria de radicar-se na expansão das exportações.


O brutal aumento de desemprego, o agravamento das condições sociais e o crescimento das assimetrias no seio da U.E. foram os resultados mais visíveis do predomínio destas politicas no espaço europeu.


A evolução mais recente da economia da Europa trouxe um novo e tremendo risco: a deflação.


Esse risco, cada vez mais presente, significa que uma evolução negativa da generalidade dos preços traz consigo, não uma melhoria da situação económica, mas uma probabilidade cada vez maior de quebra do investimento, de adiamento da recuperação e de um longo período de desemprego elevado.


A intervenção do BCE tenta dar uma resposta a estes riscos, injetando recursos financeiros na economia na expectativa que essa nova política monetária facilite o financiamento da economia e da criação de emprego.


Este é um debate que se vem arrastando na Europa praticamente desde a crise Grega e do ataque especulativo sobre o Euro e as dívidas dos países mais expostos à crise.


Uma intervenção mais ativa do BCE, garantindo a estabilidade e a defesa da zona Euro era reclamada pelos partidos europeus da esquerda e por economistas de diferentes sensibilidades, crescentemente preocupados com o perigo económico, social e político que a via “austeritária” representava e representa.


Curiosamente não foi possível construir uma visão comum aos países do Sul da Europa, os mais castigados pelo desemprego e pela recessão, para que uma mudança fosse possível.


E um dos Governos que mais se opôs a este caminho de mudança foi precisamente o Governo de Portugal chefiado pelo PSD e pelo CDS, por Passos Coelho e Paulo Portas.


Em todos os momentos desta longa crise a maioria que detém o governo de Portugal distinguiu-se pela sua colagem fundamentalista às políticas da troica, afirmando-se como os seus mais fervorosos defensores.


Agora assistiremos, de quem nos governa, a elogios à nova atitude do BCE e à valorização dos seus méritos.
Mas a verdade é bem diferente. Se não foi possível afirmar mais cedo uma mudança que poderia ter salvo muitos postos de trabalho e poupado sofrimentos enormes tal deve-se à posição daqueles que sempre se opuseram a essa mudança com o destaque, ainda que secundário, para as palavras e ações do primeiro-ministro do nosso país.


Quer dizer que está ultrapassada a crise e que a Europa vai iniciar um período de recuperação rápido e consistente? Infelizmente ninguém o pode garantir, até pelo facto de esta ser uma opção que, sendo correta, é tardia.


É agora necessário que se dê corpo a novas políticas orçamentais que sendo rigorosas, sejam ambiciosas no estímulo à economia, ao investimento e ao emprego.


Será ainda uma batalha longa até que a União Europeia construa um caminho coerente e sustentável de desenvolvimento.


Esperemos que Portugal possa rapidamente ter um governo que se coloque do lado certo das opções na Europa e que, no nosso país, seja um forte aliado dos que querem virar a página duma política que tem afastado os cidadãos da Europa e do seu projeto.

Fotografia de capa por YanniKouts

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Vieira da Silva

Deputado do PS eleito pelo distrito de Setúbal

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