Os portugueses votaram, no passado dia 4, pelo dever de cidadania e conscientes de passavam um cheque político em branco para os próximos quatro anos. Mergulhados na mais severa crise financeira e social, os portugueses tanto votam pelo medo como pela vontade de que os políticos encontrem uma solução para afastar o país da bancarrota. Escrevi esta crónica no último dia de campanha, publicada já depois de conhecidos os resultados, mas não podia deixar de o fazer.

Dizia na minha última crónica que “todo o cidadão, por imperativo do exercício de soberania, deve estar preparado para exercer o direito de voto”. Com o decorrer da campanha, direi que os partidos políticos nada fizeram para esta esta não fosse pior do que as anteriores. Em boa verdade, esta foi a pior das campanhas políticas que já tivemos. Valorizaram-se as arruadas, um folclore político em que os políticos não se expõem ao debate dos princípios programáticos. Os debates, já em número reduzido, transformaram-se em ataque ao passado das lideranças, nem mesmo esquecendo o objetivo de meter o Presidente da República na campanha. pois assim os políticos transformaram os mesmos num “lavar de roupa suja”, menosprezando os eleitores. Com esta atitude, transversal a todos os partidos que apresentaram candidaturas, os eleitores só foram votar pelo direito de exercerem o seu ato cívico de entregarem nas urnas o seu voto. Na maioria dos casos um voto às cegas, a titular um cheque político passado em branco.

A maior hipocrisia política, esteve na fuga ao debate sobre a sustentabilidade do Estado Social, afinal, importante para o compromisso que permita salvar-nos da bancarrota. Fugiram os partidos a este debate porque, com grande cinismo, sabiam que falar verdade levaria uma grande perda de votos. Os portugueses, a quem sempre se andou a falar da destruição do Estado Social, não estão preparados para assimilar que o Estado Social só é sustentável pelo valor do que produzimos e pela contenção dos gastos públicos, pelo que todos os partidos estão no jogo do poder, tolhidos pelo medo de falar verdade. A coligação centro-direita, como a coligação centro-esquerda, não apresentam homens e mulheres com honestidade mental política e, por isso não colocaram na agenda política um debate sério, verdadeiro, criando um compromisso de futuro.

Fugiram ao debate do estado do país que temos, criaram o embuste do ataque fácil. Uma maioria dos portugueses irão votar neste embuste, só uma minoria, por dever ao seu pensamento intelectual e ideológico. No final os resultados são uma fraude quanto ao estado social que iremos ter. pois a maioria dos votos é sustentada pelo medo de quem não quer perder um estado social que institucionalizou o princípio da subsidiodependência, um direito intocável e que perderia os votos dos 3 milhões de portugueses a viver na pobreza. Reconheço que o partido que se apresentasse a falar, o quem tivesse a honestidade de apresentar um programa social sustentável, teria caminhado para o suicídio político.

O debate da nação não apareceu nesta campanha eleitoral, como a profunda crise em que estamos mergulhados, mas marcará o futuro que vamos ter a partir do dia seguinte às eleições. Ricardo Costa escreveu, no Expresso de 2 de outubro, “que para relembrar quão vulnerável é a posição de Portugal e que de nada serve a arrogância: “a nossa situação económica é frágil, o nosso financiamento depende de entidades externas, o sistema financeiro está a recuperar de choques sucessivos, a economia europeia dá sinais de anemia, a economia global está frágil e dois países que nos são muito próximos, Brasil e Angola, estão em profunda crise”. O debate foi substituído pela demagogia, como o do programa do PS, que empurra o problema com a barriga e com o pensamento que os credores paguem a crise como gritou Mário Soares, liderando a retórica duma esquerda mergulhada no pântano dos acontecimentos na Grécia. Falou-se da refundação do Estado, para impressionar a troika, mas pouco ou nada se fez. Na campanha eleitoral os partidos silenciaram a questão pois não estiveram interessados em confrontar as elite das clientelas políticas que saem das máquinas partidárias. Os partidos, todos eles, entenderam que o problema do equilíbrio do sistema do Estado Social não passa pela despesa, mas pela receita em que ainda existe campo de manobra para continuar a sacrificar a classe média, como o imposto verde e as inconstitucionais taxas cobradas pelo municípios.

Os portugueses votaram no escuro sobre o agravamento de impostos que vão ter de suportar, pois não temos homens e mulheres politicamente sérias que aceitem dizer a verdade sobre o estado das fundações, que ainda existem e intocáveis, nas PPP que serão um cancro a comer à mesa com a vida dos nossos netos. Nas autoestradas e hospitais públicos, nos investimentos não produtivos que são muitas das entidades criadas no âmbito das autarquias e que são o modelo de má gestão, só para garantir o emprego às clientelas políticas e que se tornam, por isso, intocáveis.

Mas eu votei na coligação Portugal à Frente, não pelo seu programa político que enferma do medo que assusta, também os seus dirigentes, mas pelo que vivi nos últimos dez anos de governação. Seis anos de governação por uma maioria do PS, cujo legado de valor foi a reforma da máquina fiscal, hoje moderna e com a capacidade de nos atormentar todos os dias. Pena que tenha deixado uma máquina fiscal tecnicamente quase perfeita para o combate à fraude e evasão fiscal do cidadão, mas absolutamente ineficaz no combate à corrupção e ao controlo das autarquias, cujos autarcas continuam a ter o rei na barriga ou como já ouvi dizer a um autarca que são uma elite política os tornam omnipotentes.

E votei no Portugal à Frente pela frontalidade com que enfrentou a grave situação legada pelo PS, que, em toda a campanha não teve a humildade de reconhecer os erros graves da sua gestão desastrosa, alterando, não tanto como eu gostaria, mas colocou a governação no caminho certo, com medidas que foram sérias mas, possivelmente pouco reconhecidas pela maioria dos que votaram. Com teimosia não cederam e “fizeram a lei dos compromissos, que reduziram os tempos de pagamento do Estado e dos municípios às empresas, que criaram um mecanismo para evitar a falência de municípios, que criaram as condições para que os municípios reduzissem a sua dívida, o que são transformações profundas também de um ponto de vista da relação entre Estado e cidadãos, desde logo por incutirem aquela ideia esquecida de que as obrigações são para cumprir; foram aqueles que não se meteram no BES, não que eu concorde com todas as decisões, mas não se meteram e isso é uma escolha que os distingue de outros; foram aqueles gajos que reformaram o arrendamento, depois de tantas falsas partidas; que puseram ordem nas fundações privadas; foram eles que fomentaram o turismo, com campanhas inteligentes, que regularam o alojamento local; foram eles que estimularam um bom empreendedorismo; foram eles que baixaram o preço do gás natural, que modernizaram o regime elétrico português com as regras do autoconsumo e da pequena produção, passos pouco visíveis mas que abrem o caminho à revolução que aí vem da produção distribuída”, parafraseando João Taborda da Gama em artigo publicado no Diário de Notícias de 2 de outubro de 2015.

Não elogio, porque nunca elogiei, os comodistas da abstenção, pois abstenção é a negação do direito e exercício cívico de votar. Mas como sempre, os políticos de bancada aí estarão para criticar…

Fotografia de Seattle Municipal Archives

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António Figueiredo

Gestor Reformado
Foi trabalhador estudante, licenciado e Executivo de três empresas multinacionais, tendo exercido cargos no exterior. Foi Oficial do Exército, casado com dois filhos, reformou-se aos 55 anos, após 40 anos de trabalho. Na pensamento político é social democrata. Dedica o tempo de reforma ao voluntariado social e foi durante dois mandatos presidente da UDIPSS de Setúbal.

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