Chegávamos ao Outono promissor de 1982 com uma mudança mediatizada de editora, deixávamos para trás o colosso EMI/Valentim de Carvalho para aportar à Rádio Triunfo/Orfeu. As peripécias, as causas e o trajecto foram revelados no meu livro “Por Detrás Do Pano” (Chiado Editora, 2015), lançado no passado mês de Janeiro.

O ‘novo casamento’ dos UHF foi celebrado com o LP “Persona Non Grata” – o título tem tudo a ver com a nova aventura e o ego dos artistas que procuravam outros caminhos, melhores caminhos. Por vezes falhamos o primeiro objectivo. Mas é bom entender, anos volvidos e conhecimento adquirido, que um caminho que avaliámos na hora menos bom permitirá um passo na evolução e uma profusão de outros acontecimentos em consequência. O que é bom e o que é mau depende do observador e do local da observação, passado ou presente. E só vale o que nos diz o presente, o passado ficou lá atrás e o futuro é uma conjectura que depende de quaisquer e todas as variáveis que a riqueza da vivência nos traz.

Nesse LP – vai longa esta prosa iniciática – havia uma canção escrita em parceria com o nosso primeiro guitarrista, Renato Gomes, que intitulei “Quebra-me”. E ouve-se na primeira estrofe: “Ninguém quer a verdade/Que ela estremece/O mais belo sorriso/No momento exacto”. Assim continuamos, continuaremos por disponibilidade cultural ou desleixo ou indiferença, repetindo o costume.

Hoje não quero dar nome aos personagens. Os meios de comunicação, vistos, falados e escritos estão prenhes de opinadores profissionais, alguns no caridoso serviço de explicar às almas o que as lideranças falharam por um triz. Tamanha vulgaridade cansa, de braço dado com as peripécias da transferência do mestre da táctica da Luz para Alvalade – chega-nos aos queixos a manta dos lugares-comuns.

Tempos estranhos, repito.

Participei em várias campanhas políticas enquanto músico contratado e até dei o meu contributo político em algumas outras. Vi de tudo, desde a angariação de fundos com a venda de autocolantes até à chegada dos publicitários para organizarem o ‘pacote’. E o espectáculo chegou onde chegou: ficou a casca, a embalagem vistosa, a plástica fílmica que espalha promessas e a miséria de nos deixarmos enganar – os que votam, claro.

As promessas. Continuam.

O ar de virgens. Também.

Há quem se ofenda com a ‘austeridade’ a que ficámos sujeitos, como se houvesse outra forma de sair do desmando despesista em que o Estado, as empresas e as famílias sufocaram. Sem derivar de um modelo económico saudável, capaz, exportador, fundado em marcas, qualidade e inovação. Gastávamos porque havia crédito e até uma agenda privada ao lado da governamental, veremos mais adiante no tempo dos tribunais.

Podemos discutir os alvos da austeridade, o mau que se fez e o que ficou por fazer (lembram-se das ‘gorduras’?) em quatro anos, mas não se pode invocar numa nova campanha política, no século XXI, ano 2015, o demónio da austeridade como matriz de um governo de marcianos masoquistas. Batêramos no fundo, senhores e senhoras (ainda andamos por lá), estávamos sem dinheiro e os credores impuseram a sua lei de agiotas de puras hienas – o melhor é não gastar de mais e depois ir a correr à loja penhorista com o saque da avó a reboque. A terrível austeridade é o efeito, não nasceu espontânea, tem causas. Podemos sempre fazer como a medicina convencional nos ensinou: tomar o comprimido para aliviar a dor, ignorando o motivo (origem) daquela dor específica. Mas o mal fica lá e pode voltar, degenerar.

A história dos cartazes azarados e das explicações venais fez-me pensar num filme em que os actores tivessem os papéis trocados e ninguém acertasse na deixa. Pode isto ser possível em 2015? Pode, e a série Os Marretas cobra pelo plágio. Talvez aqui com um grãozinho na engrenagem oferecido por quem tem contas para ajustar. E há por aí tanta gente com contas soltas…

Quando no final de Junho Tsipras propôs o referendo na Grécia (Pilatos teria feito o mesmo, apesar das boas consciências do caviar terem achado que o povo grego ia decidir), que me fez sorrir, confesso, coloquei um post no meu FB sob o título “Um Syriza que lhes deu”.

Como sempre acontece naquela rede social, juntamo-nos à conversa com café virtual e fomos por ali em troca de mimos. Mas a minha chamada de atenção partia do flop Syriza e apontava o perigo da tempestade financeira chinesa que borbulhava a oriente e avançava como um tsunami – perante o eventual colapso financeiro da China, a Grécia não passará da categoria de amendoim.

Mas a malta não queria falar da China (em meia dúzia de semanas as bolsas locais tinham caído 30%, ui, ui, ui, ou ping, ping, ping), porque o referendo grego ia colocar Merkel no seu devido lugar, os orgulhos e as purezas ideológicas saídas do mofo erguiam-se desfraldadas e os gregos passariam a saber governar-se sob o milagre lusitano das rosas transformadas em euros. Mas os gregos há muito que não sabem governar-se. O terceiro resgate vem aí, com mais dívida e mais sofrimento para o povo.

Mês e meio depois as vagas do comunismo/capitalismo de génese maoista continuam imprevisíveis por aí e ninguém sabe como isto vai acabar, apesar de todos imitarem a pose simbólica da avestruz – basta ouvir os eufemismos do léxico dos operadores bolsistas para se perceber que a ventoinha começou a espalhar desgraça com cheiro a mais desgraça.

Quando há uns dois anos vi um programa da BBC sobre as cidades fantasma que a China edificava para manter o seu PIB num ranking invejoso (não invejável, por ser falseado) e suscitar mais investimento estrangeiro porque tudo na China ‘cresce’, nem queria acreditar. Afinal, tinham-nos copiado o modelo imobiliário – por mais de uma vez escrevi neste espaço que há mais habitações que portugueses e, contudo, havia e há gente e lobbies (construtoras, bancos, imobiliárias e sindicatos) que defendiam e defendem o imobiliário como motor da economia nacional. Maior aberração é impossível. Ou talvez não.

Enquanto isto, a Terra respira, transpira e espirra.

El Niño chegará este ano com uma imprevisibilidade destruidora, que já fez as agências norte-americanas que monitorizam o fenómeno lançar alertas, avisos que as férias e as transferências do futebol interno sufocaram sem ruído.

No Equador, o mega vulcão Cotopaxi entrou sem aviso em erupção; no Chile, o denominado Calbuco respondeu à altura; na Indonésia vai-se perdendo a conta às erupções dramáticas que os sucessivos desastres aéreos ofuscam.

Foi com uma contínua erupção vulcânica que os dinossauros, fisicamente um pouco maiores que nós, desapareceram lá atrás – a Terra, e não é metáfora, ficou sob cinzas voláteis. Estaremos atentos a estas causas ou só iremos abrir a boca quando chegarem os efeitos impiedosos?

Enquanto isto, no leste europeu, Rússia e NATO avaliam meios, tácticas e disponibilidades humanas. Estará uma nova guerra a entrar no horizonte europeu para que Putin, filho de Putin, seja coroado Czar do orgulho eslavo? Outros vulcões dos tempos estranhos que sulcamos.

No Mediterrâneo, túmulo de sangue, migrantes africanos com os sírios à cabeça arriscam cruzar o mar para fugir à guerra, à fome, ao limite humano. Uma crise a assolar uma Europa de convulsões, estática, formal, lenta. Bashar al-Assad, o Estado Islâmico ou o governo húngaro de extrema-direita são exemplos que revelam como o homem se situa a um passo da barbárie. Que podemos fazer nós a estes tempos estranhos?

E chegamos às presidenciais de 2016, com candidatos, proto-candidatos e um ou outro agarrem-me se não sou candidato.

Um deles tem o nome próximo da névoa que evoca – do nada foi-nos servido tutelarmente por três ex-presidentes na reforma. Também há quem ache que pelo nome chega lá, questão patronímica reivindicativa. Um outro, que podia vir a ser primeiro-ministro, nem sim, nem não, sorri, enquanto o comentador malabarista do reino resfolga de nervos e catarro aos domingos. À espreita fica o do costume, aquele que mais invoca o passado de Sá Carneiro como herança e certificado de qualidade. Sim, é uma charada, assumo.

Fico-me pelo apoio a um homem do norte. Porque trouxe a corrupção para a agenda presidencial, antes que o país se extinga em vistos gold, intermináveis inquéritos judiciais e o nevoeiro que Sebastião nos legou para tudo esconder sob a carpete.

Fotografia de tishamp

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António Manuel Ribeiro

Autor, compositor, escritor e músico
Nasceu para a música fugindo dos bancos da igreja ao domingo, espantado com a voz do pai, pairando sobre a melodia da toada: era tenor como ele. Em 1979, quando pela primeira vez entrou num estúdio de gravação com os UHF que fundara, julgou que perdera a voz, só porque a insonorização do espaço lhe roubara o eco da sala de ensaios. Já escreveu mais de trezentas canções e ajudou a vender mais de um milhão de discos. Tem a língua afiada: cerca de 30 discos de originais com os UHF, dois a solo e quatro livros de poesia. Está sempre a gravar um novo disco. Escreveu a banda sonora sobre os 44 poemas épicos da “Mensagem”, de Fernando Pessoa. Ou um disco infantil, o risco de uma outra aventura. Duas vezes divorciado, é pai do António (guitarrista dos UHF), da Barbara (psicóloga) e da Carolina (designer de moda).

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