Um destes dias, caminhava eu na frente ribeirinha, em passo apressado e próprio de quem insiste em deleitar-se com o incomparável Rio Sado como pano de fundo dos meus exercícios matinais, e eis que deparo com uma cena, no mínimo, surrealista mas bem ilustrativa das inúmeras situações de pura anarquia, que grassam nesta minha adorável cidade.


No lado poente do Edifício dos Cacifos dos Pescadores, contíguo ao antigo Cais do Carvão, um dos habituais utentes do parque de estacionamento ali existente e agora ocupado por muitas autocaravanas, e saído exactamente de uma dessas viaturas, aproxima-se da beira da muralha e, sem qualquer reluctância e em gesto de menosprezo por quem ali circulava, emborca para as águas do rio o conteúdo pestilento da sanita séptica portátil que porventura continha o “produto” da noite anterior.


Sou pouco usado a abordagens intempestivas, mas, na circunstância, não pude evitar a chamada de atenção: …”o Sr. acha que está correcto o que acaba de fazer?”… Resposta imediata: …”mind your own business, buddy”… (traduzo: “amigo, meta-se na sua vida”).


Andei eu a calcorrear seca e meca durante tantos anos, nas mais variegadas paragens do Mundo, pelos cinco continentes para, pela primeira vez, na minha própria terra, um qualquer energúmeno, mal educado, sem princípios e com ar prepotente, me forçar a dar a resposta adequada (em bom inglês) a este inusitado desvario.


Não o fiz. Preferi antes usar da verborreia à portuguesa e mais concretamente do dialecto do “Charroque da Prrofundurra” bem peculiar da zona de Troino, onde há 65 anos nasci. Claro, cheio de “rrr’s” e alguns impropérios, à mistura.


Surpresa a minha: o cavalheiro porcalhão, embora não dominasse completamente a língua lusa, entendeu muito bem o que lhe disse, ao ponto de ter metido o rabinho entre as pernas, accionado a ignição da sua autocaravana e rumado não sei para onde.


Mais à frente, um dos vários pescadores de muralha, que tentava sacar uns chocos das águas do nosso rio, diz-me com ar jocoso: …”você está a perder o seu tempo e a chatear-se para nada. Eu venho para aqui quase todas as manhãs muito cedo e é vê-los a deitar a m… para o rio dessas caixas que têm nas roulottes…”


Não. Recuso-me a pensar que estou a perder o meu tempo.


Andei nos últimos 15 anos a ansiar voltar a Setúbal, o que sucedia em 3 ou 4 ocasiões ao ano, quando decidi exercer a minha profissão em Moçambique, tendo no decurso desse tempo, sobrevoado a linha do Equador, precisamente 72 vezes. Esta ânsia permanente de regressar à terra que me viu nascer e aqui olhar o meu rio, de tantas e tantas aventuras por mim experimentadas e que conheço como as minhas mãos. Setenta e duas vezes de partidas e regressos de e para a cidade mais bela que conheço entre as muitas dezenas que pisei por esse mundo fora.


Não. Recuso-me a pensar que estou a perder o meu tempo, se não me insurgir, reagir ou indignar-me por esta causa. Temos este precioso diamante que ainda está por lapidar. Setúbal na sua grandeza e de incomensuráveis recursos.


O apelo é muito simples. Agora que a Câmara Municipal de Setúbal e a Administração dos Portos de Setúbal e Sesimbra, estão em perfeita harmonia, que seja dada uma especial atenção a esta pequena zona da cidade e mais concretamente ao local onde estacionam as citadas autocaravanas.


Bastaria a construção de um receptáculo (vulgo fossa) adequados ao despejo das aludidas sanitas sépticas que seria posteriormente esvaziado pelos característicos camiões de sucção dos resíduos, o que certamente não acarretaria grandes custos para as entidades referidas.


Ao mesmo tempo, seria também aconselhável colocar uma ou duas torneiras no mesmo local, mesmo que o consumo de água implicasse a instalação de dispositivos para inserir moedas de forma a accionar o sistema.


São meras ideias. Porventura poderão existir outras formas de acolher estes autocaravanistas, sem que, futuramente, eu ou mais algum apaixonado da minha cidade tenha que oralizar este riquíssimo léxico a norte da linha do Equador, que dá pelo nome de “Charroque da Prrofundurra” e que singularmente se adapta a afugentar os prevaricadores das mais elementares normas de higiene, como aconteceu com aquele “beef”.

Fotografia de capa por Gustty

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Álvaro Oliveira

Técnico de Logística e Transportes e ex-Gestor - Reformado

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