O tema da emigração tem aparecido frequentemente, nos últimos tempos, no debate político porque o que as oposições precisam é de agitar a malta. Serve mesmo para contradizer, porque para explicar não é, as notícias que dão uma descida no desemprego. Precisa-se de assunto e aí surge a desgraça nacional dos jovens que são obrigados a emigrar porque o governo não cumpre a sua obrigação, constitucionalmente estabelecido como diria o Tribunal Constitucional, duma política de pleno emprego. Só que o emprego não é vara mágica dos políticos e resulta do esforço comum. Esforço que está na consciência de ter uma retribuição equitativa e não um salário por um emprego com produção baixa. Num mundo global não entendo como se pode pensar que emigrar é a falência das politicas governativas. Mas será o fenómeno das migrações uma questão meramente política?

Está a fazer um ano, na última peregrinação dos emigrantes a Fátima, o Bispo do Porto criticou o governo pelas políticas que conduzem à emigração, o que me deixou perplexo. A Igreja sempre teve a sua vocação missionária junto dos que necessitavam de ser evangelizados e dos migrantes que procuravam o encontro na Fé Cristã. Sinto perplexidade porque juntou a sua voz à corrente política do bota a baixo, como se nada tivessem a ver com a situação do País, que obriga muitos jovens a procurar emprego noutras paragens. Então a procura de trabalho, que no cristianismo dignifica o ser humano, é hoje tida como uma escravatura de quem tem a dignidade de querer ser livre? A Igreja deve ter intervenção política, mas essa intervenção deve ser como o sal na comida, nem muito nem pouco, parafraseando o Bispo de Viseu António Alves Martins ( 1862 ). O Bispo do Porto excedeu-se no sal porque a Igreja raramente levantou a voz contra as políticas que são geradoras de ciclos migratórios, sempre acolheu a peregrinação como um desígnio do povo português, tendo esquecido o apelo ao bem comum. Bem comum que o Papa Francisco, na sua palavra aos fieis na Coreia do Sul, alertou para a hipocrisia dos clérigos que fazem uma vida de ricos. E eu direi, a hipocrisia de alguns empresários católicos que não respeitam o direito ao trabalho.

O apelo ao governo pela prática do bem comum, um valor da Igreja Católica tão pouco praticado, mesmo pela Igreja que tem construído templos e poucos centros de apoio comunitário, não se confunda com os centros paroquiais que são complemento das políticas governamentais na área da ação educativa. Volto a referir, o apelo ao bem comum, deve ser entendido como dirigido a todos que devem ajudar os 3 milhões em via de exclusão social, por isso fora do contexto da mensagem para os emigrantes. A mensagem deve ser de louvor a Deus pela ajuda que deu a todos que saíram da sua terra natal na procura duma vida com dignidade como se viu nas imagens da televisão. Uma multidão que enchia o recinto, multidão que deveria levar aos políticos a necessidade de os respeitar como cidadãos que contribuem para o desenvolvimento do seu País, mesmo estando longe.

Gostaria de ver os políticos, que tanto falam na nova vaga de emigração, defender medidas que protegessem os milhões de portugueses que estão lá fora. Que falassem da necessidade de escolas de língua portuguesa onde os filhos tivessem acesso a um ensino escolar com paralelismo pedagógico para que mais tarde voltassem a Portugal e tivessem acesso à faculdade, não sendo empurrados a ficar no estrangeiro como acontece há gerações. Que falassem das políticas de proteção às suas economias, normalmente expostas aos bancos maus. Será que em Portugal haverá bancos bons depois do que acontecem com o BES? Que falassem do apoio consular a quem vive isolado no estrangeiro e que tanta vez esbarra com a burocracia persistente. Mas não, o discurso político é sobre o direito do pleno emprego que estancaria a emigração! Mas que pleno emprego existe na mente de políticos que, eles próprios, foram os causadores da vinda da troika, sempre pedindo de joelhos e sem condições?

Já aqui escrevi que ser emigrante não é um desígnio da nossa história de descobrir e conquistar os mundos. Ser emigrante foi sempre uma oportunidade de lutar por uma vida melhor, substituindo uma vida pobre e dura no trabalho da lavoura, para encontrar outra, também dura e agreste, mas que permite alcançar alguma riqueza. Só quem conviveu com os emigrantes, em França, na Alemanha ou na América, pode falar do que viu. Mas hoje a emigração continua a ser uma oportunidade, não só pela falta de empregos, pois temos tanto campo abandonado, mas pela mesma oportunidade de encontrar a riqueza pelo trabalho. A diferença é que o emigrante do passado, que saía geralmente do país a salto, que abandonava a dureza da vida do campo e ia viver em condições difíceis, não tem nada a ver com o emigrante dos tempos modernos. Este, já gastou o dinheiro do contribuinte numa licenciatura, raramente trabalhou antes e vai procurar um emprego limpo na hotelaria ou no mundo das tecnologias. O antigo, teve sempre o sonho de regressar à sua terra natal onde encontraria uma casa construída com o seu suor e com o sacrifício do isolamento da família. O emigrante moderno, aquele que serve para a demagogia politiqueira, saiu de avião, talvez num low cost, chegou ao país de acolhimento e se não gostou do que viu, aí está de volta à família que o há-de continuar a alimentar. Mas se gostou, instala-se e vai ganhando para férias de turismo.

Na verdade, quem vimos na peregrinação a Fátima foram emigrantes ausentes de Portugal há dezenas de anos, raramente se viram os novos emigrantes, até porque dizem, não precisaram da ajuda divina para começarem a estar bem na vida. Razão lhes seja dada, pois só quem faz lamurias sobre os emigrantes são os oportunistas da política. Aqueles que sabem que Portugal jamais criará empregos para os milhares de licenciados que anualmente são despejados no mundo do trabalho, cujos empregos não aceitam, por não serem adequados às suas habilitações académicas! Pobrezinho daquele que se licenciou para estar numa caixa do supermercado… Mas afinal é o mesmo que emigra, hoje como cidadão do mundo global, e está como recepcionista de hotel. Edm qualquer lugar do mundo.

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António Figueiredo

Gestor Reformado
Foi trabalhador estudante, licenciado e Executivo de três empresas multinacionais, tendo exercido cargos no exterior. Foi Oficial do Exército, casado com dois filhos, reformou-se aos 55 anos, após 40 anos de trabalho. Na pensamento político é social democrata. Dedica o tempo de reforma ao voluntariado social e foi durante dois mandatos presidente da UDIPSS de Setúbal.

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