A dimensão do horror e da tragédia que diariamente invade os nossos quotidianos é demasiado brutal. Mas, a frequência das notícias, se por um lado gera consternação e espanto, por outro cria nas sociedades uma apatia e um distanciamento, sobretudo se os fenómenos não estão ao virar da esquina!

Só este ano, desde o ataque ao jornal satírico francês que gerou uma onda gigante “Se suis Charlie”, ao caos e crise humanitária vividos por povos em regiões inteiras obrigados a fugir e a viver em campos de refugiados, aos estudantes universitários massacrados em Nairobi, até aos perto de mil que nesta semana encontraram no Mediterrâneo não uma porta de entrada para uma desejada liberdade, mas sim o seu cemitério, é demasiado horror pelo número, mas sobretudo por aquilo que representa para a história da humanidade neste século e neste início de um novo milénio. Paradoxalmente, o número e o horror embotam as consciências e as sociedades ficam mais pobres e desprotegidas.

Vem isto a propósito do maior desastre industrial que ocorreu faz hoje dois anos (24 de abril de 2013) no Bangladesh onde morreram 1138 trabalhadores, sobretudo mulheres, e ficaram feridos mais de 2 mil, alguns de forma permanente. O edifício de Rana Plaza de oito andares onde trabalhavam em condições desumanas em troca de um salário imoral, produzindo roupa para algumas das maiores marcas de roupa do mundo, tais como Benetton, Primark, Mango, The Children’s Place, Gap, El Corte Inglés entre outras, colapsou, soterrando milhares de pessoas.

Na sequência deste massacre, uma onda de solidariedade percorreu todo o mundo e milhões de pessoas de diferentes partes do globo mobilizaram-se para reivindicar justiça para as vítimas, para responsabilizar as marcas e reclamar as medidas necessárias para impedir que um novo desastre se repetisse.

Em consequência da pressão internacional, houve melhorias na segurança dos centros de produção de roupa no Bangladesh. Foi assinado um “Acordo sobre Incêndios & Segurança de Edifícios” que estabeleceu padrões mínimos nos locais de trabalho, através de um programa de inspeções independentes, de consciencialização pública e de comités eleitos para acompanhar as questões da salubridade e segurança, em todas as fábricas.

Constituiu-se uma coligação de diferentes parceiros formada por representantes do governo do Bangladesh, da indústria e dos sindicatos, para acompanhar o processo de indemnizações devidas às vítimas, suas famílias e trabalhadores incapacitados e que requerem tratamentos médicos permanentes. Até à data, no segundo aniversário do massacre, as vítimas apenas receberam entre 40% e 70% do que lhes é devido. As firmas de roupa que auferem milhões e milhões de lucros todos os anos contribuíram de forma insignificante para o Fundo das Vítimas de Rana Plaza e, portanto, não estão a cumprir com as suas obrigações.

Passado o tempo da comoção, os capitalistas esperam que os ânimos arrefeçam e que tudo volte ao “normal” que, para eles, significa lucro máximo, direitos mínimos.

Mas, tal como não esqueceremos os milhares de náufragos no Mediterrâneo, ou as meninas nigerianas raptadas e violadas pelos bandidos do Boko Haram, não podemos esquecer as vítimas de Rana Plaza cuja vida terminou ou foi amputada há dois anos. Ativistas, sindicalistas, feministas de todo o mundo recordam hoje esse massacre e denunciam a ganância e o desrespeito pelos direitos humanos que continuam a ser violados.

A Marcha Mundial das Mulheres no âmbito da sua 3ª Ação Global que está a decorrer desde o dia 8 de ,arço, convocou para hoje, dia 24 de abril, entre o meio dia e as 13 horas uma Ação Global de Solidariedade com as vítimas de Rana Plaza. Para mostrar ao mundo que Rana Plaza está em todo o lado e que as mulheres sofrem em todas as partes do mundo as consequências da ganância sem fim do sistema capitalista. Contra a apatia, o esquecimento, a insensibilidade, há que visibilizar estes crimes até que se acabe com todas as Rana Plaza que, afinal, estão mesmo ali ao virar da esquina.

Fotografia de capa por Solidarity Center

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Almerinda Bento

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