Certamente já ouviu a notícia do homem que foi atingido por um raio. Mais tarde, também a filha dele. Ambos sobreviveram e, em seguida, ganharam um milhão de dólares na lotaria. A notícia pertence àquele grupo de acontecimentos que, de tão extraordinários, são notícia em qualquer parte do mundo. Com efeito, “a probabilidade de tudo isto ocorrer é de 1 para 2,6 triliões”, escreveram alguns jornalistas apressados, citando o matemático que se deu ao trabalho de fazer as contas. Foi isto que leu, não foi? Mas está errado.

Não é a conta que está errada, mas a tradução. Ou melhor, a conta tem parcelas tão abstratas que eu não saberei confirmar ou refutar, já o modo como são traduzidas as notícias, de forma apressada – e por vezes incompetente – que caracteriza o jornalismo atual, é posto a nu numa simples notícia de “fait-divers” que habitualmente se entrega ao primeiro estagiário que apareça. O que está errado com a tradução da notícia é o resultado da conta: não são triliões mas biliões, o que não é exatamente a mesma coisa. Entre um e outro há uma diferença de 6 zeros, mas que à direita do número têm claramente outro valor.

A razão do erro está na origem da notícia: os sortudos são cidadãos canadianos, e o cálculo probabilístico foi feito para uma televisão norte-americana. No Canadá, Estados Unidos e na generalidade dos países anglo-saxónicos utiliza-se a Escala Curta para referir grandes números. Em Portugal e na maioria dos países europeus utiliza-se a Escala Longa e isso faz toda a diferença. Com efeito, enquanto a Escala Curta arruma os grandes números por categorias que têm por base potências de mil (milhões, biliões, triliões, etc.), na Escala Longa as categorias têm por base a potência de milhão (milhões, milhares de milhões, biliões, milhares de biliões, triliões, milhares de triliões, etc.).

A língua portuguesa tem ainda a particularidade de usar a mesma palavra para números com significados muito diferentes, uma vez que o Brasil adotou a Escala Curta enquanto Portugal e os restantes países de língua portuguesa utilizam a Escala Longa. Por isso “um bilião”, não é um bilião para todos os falantes de português. Porém, se isso é infelizmente comum quando a notícia é copiada de uma fonte brasileira, no caso dos felizes canadianos, encontrei o mesmo erro na imprensa espanhola, italiana ou alemã.

Esta confusão entre biliões e triliões é muito comum nos media quando se referem a temas económicos e financeiros e geralmente a números tão abstratos, para o comum dos mortais, que uma diferença entre três ou seis zeros é absolutamente irrelevante. Os jornais económicos anglo-saxónicos têm grande influência nos outros órgãos de comunicação europeus, e como se verificou na notícia que refiro, também os jornais de outros países da Europa sofrem da mesma incompetência de alguns dos seus jornalistas, que os congéneres portugueses.

É para evitar esta confusão entre escalas curtas e longas que os bancos europeus utilizam nos seus relatórios a terminologia norte-americana; e mesmo o Reino Unido, a partir do momento em que se tornou uma grande praça financeira, abandonou a escala europeia para abraçar a nomenclatura utilizada pelo capital dos Estados Unidos.

Assistimos assim a uma normalização da terminologia dos grandes números, sustentada na aparente incompetência dos jornalistas em distinguir entre uma escala e outra. Ou o número é importante e deve ser transmitido sem erros, e para isso usa-se a Escala Curta; ou o número é irrelevante, “sobre a probabilidade de ser atingido por um raio e ficar a falar búlgaro”, e aceita-se o erro com um encolher de ombros.

Enquanto no primeiro caso se impõe ao jornalista uma escala com uma medida diferente daquela que é usada no seu país (ainda que a fonte originária da notícia também seja portuguesa), no segundo caso, mais grave, é o jornalista que impõe aos seus leitores ou ouvintes uma escala que ele nem percebe. Dessa forma banaliza-se uma nomenclatura e cria-se a necessidade de uma normalização, ou “Acordo Numérico” para fazer prevalecer como correto o que atualmente não está certo.

Não deixa de ser curioso, no entanto, que muitos daqueles que hoje clamam contra o Acordo Ortográfico, nada digam – ou até mesmo colaborem – desta anexação do significado etimológico. Clamam que um “facto” não é um “fato”, mas não se importam que “um bilião” seja “um trilião”. Quando esse valor representa dinheiro, manda quem o tem e de onde vem. Mesmo que um raio nos caia em cima.

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José Mendes

Jornalista
Licenciado e mestre em Sociologia; Auditor da Defesa Nacional. É titular de Carteira profissional de Jornalista e iniciou a atividade com o aparecimento das rádios piratas; Foi redator na Rádio Azul, de Setúbal, e chefiou a redação da Rádio Pal, em Palmela. Em 1989 integrou corpo redatorial da Rádio Comercial desempenhando funções de repórter parlamentar de 1991 a 1998. De 1999 a 2006 foi diretor de Informação da Media Capital Rádios. De 2007 a 2010 foi o responsável pelas delegações regionais do Rádio Clube Português. Atualmente é consultor e formador. É também colaborador regular em várias publicações e Provedor no Setúbal na Rede - o Futuro da Região.

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