Inação – No passado domingo, 2,4 milhões de pessoas (segundo os números da polícia) a 3 milhões (estimativa dos organizadores) manifestaram-se, em mais de 250 cidades brasileiras (incluindo Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador, Recife, e outras capitais estaduais), contra a corrupção e a política económica do Governo de Dilma Rousseff. Em resposta, a Presidente do Brasil disse que todos no Executivo estavam em “absoluta concordância com esta demanda popular” e com “a clara determinação para tomar medidas que intensifiquem o combate à corrupção”, e aproveitou o momento para anunciar novas regras.


Por cá, salvo raras excepções, as manifestações com maior participação popular são convocadas pela CGTP com a bênção do PCP, as duas organizações que controlam a expressão do descontentamento na rua e o domesticam, assegurando que tudo se processa de forma “ordeira e pacífica”, como os organizadores não se cansam de sublinhar. Em Portugal, o poder político ou vê essas manifestações “com naturalidade”, como já disse Passos Coelho ou, tratando-se do Presidente da República, reage entre o “não comento”; a condenação dos “desacatos” para os quais “não há tolerância possível”; a sugestão de que as vozes da rua “não podem deixar de ser escutadas”; o evitamento, como quando Cavaco Silva anulou, à última da hora, uma visita à escola António Arroio, onde o esperava uma manifestação de alunos.


O resultado é o esperado – não cai o Governo, não se demite um ministro que seja, não se mudam as políticas. Em Portugal, por muito que me doa reconhece-lo, o povo não é quem mais ordena. E não é porque, em verdade, não age.


Medo – A minha geração cresceu num regime salazarento, de pide à cintura, contra a liberdade de pensamento e a correspondente acção. E, mesmo que muitos tenham lutado contra a ditadura, e a democracia tenha nascido há 40 anos, essa cultura da mordaça e do medo, essa cultura da inação ainda por cá mora. Agir tem consequências, e o medo instalado de perder o emprego, o subsídio, de ser preterido na promoção, de ser perseguido pelas Finanças ou pela Polícia ou, ainda e simplesmente, de ser olhado de lado, posto à margem, paralisa e cimenta a inacção. Não fazer nada é o melhor remédio para evitar chatices, há que fugir ao conflito. Somos um povo domesticado em que a maioria anda a fazer de morto porque é nessa não vida que encontra alguma tranquilidade, uma réstia de esperança no futuro.


Por isso o Governo mantem-se em funções, ajoelha perante o IV Reich, quer ser mais papista do que a troika; enquanto o presidente não se mete, como ele diz, em querelas partidárias ou seja, vira as costas à Nação. A pobreza e a fome instalam-se, o desemprego cresce, a saúde adoece gravemente, a escola pública desfaz-se na sombra, e os portugueses não se mexem porque senão ainda pode ser pior. A parálise da cidadania ativa alimenta o satus quo, produzido pela mediocridade da generalidade dos agentes políticos.


Mediocridade – Não creio em homens providenciais mas o certo é que a classe política portuguesa revela uma mediocridade confrangedora, desaparecidos ou retirados que estão os fundadores da democracia portuguesa. A demagogia e o populismo misturam-se com a mentira, a impreparação técnica e política, a falta de rigor. Fazem-se promessas para eleitor ouvir que nunca serão cumpridas porque se busca o poder pelo poder e, em muitos casos, pelos ganhos que dele virão de uma forma ou de outra, mais tarde ou mais cedo. Por isso, a essa mediocridade (à direita, ao centro e à esquerda) junta-se a obscena promiscuidade entre sectores – política e interesse económico, política e futebol, política e tráfico de influências, política e Direito, política e media. O “Estado espectáculo” já era, mas continua a convir aparecer nas notícias, marcar a comunicação ou a conferência para a hora dos telejornais da noite.


E, cereja no topo do bolo, vale a pena ser comentador, “fast thinker”, falar de tudo como um professor-doutor por extenso, conhecedor dos meandros da política internacional, das intrigas do “Paço tuga”, das vigarices da banca, dos meandros da Justiça, das literaturas, dos movimentos do tempo, dos ciclones e tufões, do futebol  e da indústria… Uma verdadeira festa para enganar os tolos, manipular influências e ser presidenciável disto ou daquilo.


Media – A verdade é que Portugal tem a originalidade negativa de ser o país da Europa onde os agentes da política são os seus principais comentadores; em 2013 escrevia-se no jornal “Público” que dos 97 comentadores com presença semanal na televisão portuguesa, “60 são, ou já foram, políticos”. É perverso o efeito destes “sabe-tudo”, destes “fast thinkers” mediáticos, aliado à forma como os telejornais dos canais generalistas se submetem à propaganda da doxa política e económica dominante. Ao mesmo tempo, os canais de informação poupam uns euros com longos directos da Assembleia da República, e até das comissões parlamentares, cujos inquéritos, pela sua complexa tecnicidade, não são acessíveis ao comum dos cidadãos.


E é perverso, também, porque dá aos cidadãos a ilusão de que estão informados, e leva-os a olhar o mundo virtual que lhes entra pelas casas, como a realidade; é a cultura da virtualidade real de que fala Castells E é perverso, e sobretudo, porque formata o pensamento, domestica as ideias, reforça a inação de que já sofremos.


Atentai nisto tudo cidadãos. Mexam-se, “pela vossa saúde”. Olhem que eu, mesmo não sendo, tal como Gedeão, “o alquimista de Dusseldorf”, garanto-vos que ainda é possível “transmutar esta chatice em flores”.

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Mário Contumélias

Etno-sociólogo e autor
Mário Contumélias, natural de Setúbal (S.Julião). Autor (30 livros publicados – Poesia, Romance, Histórias para crianças, Jornalismo/Sociologia). Escritor de canções (finalista de sete Festivais RTP; “O Areias”; “Visitas”…) Prof. Universitário; cientista-social (investigação mais recente no âmbito do Projecto “Values, Institutional Quality, and Development”, 2014). Doutorado em Sociologia. Licenciado em Antropologia Social. Foi também Jornalista.

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