Não, não sou “Charlie”!

Condeno em absoluto a morte violenta seja de quem for, em nome do que quer que seja; da religião à política, da vingança à lei. Nada justifica a violência contra a vida, que não pode ser relativizada, sequer em nome da visão particular que qualquer cultura possa ter do mundo. Entendo que os valores traduzidos na Declaração Universal dos Direitos Humanos devem ser universalmente respeitados, e que não é admissível nenhum tipo de impunidade cultural, como justificação do seu atropelo. Por isso, foram criminosos os assassínios dos colaboradores do “Charlie Hebdo”, tal como as mortes da mercearia kosher, na zona oriental de Paris; e todo o crime deve ser combatido e punido, enquanto tal sem hesitações.

Porém, ser “Charlie” é outra coisa. É estar, lado a lado, com o Sr. Hollande na marcha pelas avenidas de Paris, um pseudo-acontecimento cujo mediatismo global não augura nada de bom. Basta ver o resultado da reunião informal, então ocorrida com a participação de ministros da União Europeia e representantes dos Estados Unidos e do governo do Canadá – a Europa encara agora o aumento da vigilância nas fronteiras dos Estados-membros; a alteração dos acordos de Schengen, que estabelecem a liberdade de circulação dos cidadãos da UE; a implementação de redes de cooperação entre os Estados e as grandes empresas da Internet, para melhor vigiarem o uso da Web; a criação de uma base de dados sobre suspeitos, a partir de informações fornecidas pelas companhias aéreas, medida que está bloqueada no Parlamento Europeu desde 2011. É toda uma deriva securitária que ameaça as democracias europeias, com armas bem mais poderosas que as Kalachnikov.

Mais, ser “Charlie” é fazer de conta que se defende a liberdade de expressão quando se faz exactamente o inverso. Na marcha estava um representante da Arábia Saudita, também ela circunstancialmente “Charlie”, país onde o cidadão Raif Badawi foi condenado, pelo que escreveu no seu blog, a dez anos de prisão e a mil chibatadas, em “suaves” prestações de 50 por semana, durante 20 semanas. E não é tudo. É bom ter presente que no “2014 World Press Freedmon Index”, a França ocupa o 39º lugar, o Reino Unido o 33º, a Rússia o 148º, a Turquia o 154º, o Egipto o 159º e até Portugal, que também tem um Coelho que é “Charlie”, se queda por um modesto 30º lugar. Representantes de todos estes países marcharam hipocritamente pela defesa da Liberdade de expressão, a convite de François Hollande.

Basta ver que, em França, o governo, certamente “Charlie” como nenhum noutro, uma semana após a marcha, tinha já aberto 37 inquéritos judiciais por “apologia do terrorismo” e outros 17 por “ameaça de acções terroristas”, dos quais já resultaram condenações. Entre esses 54 está o humorista Dieudonné M’bala M’bala, detido depois de ter publicado uma mensagem em que dizia “esta noite, naquilo que me diz respeito, sinto-me Charlie Coulibaly”, associando o nome de “Charlie” ao do homem que matou quatro judeus na mercearia kosher, em Paris. Muitos leitores do insuspeito jornal “Le Monde” perguntaram online porque razão foi Dieudonné detido, enquanto o “Charlie Hebdo” pode fazer primeiras páginas sobre religião?”

Acresce que ser “Charlie” é ter marchado, mesmo sem ter saído de casa, ao lado da Sra. Merkel e dos seus parceiros e apaniguados, de Hollande a Coelho, responsáveis pelos gravíssimos atentados contra a Liberdade, a Igualdade, a Fraternidade que deviam estar na base de uma Europa Social. Atentados esses, que têm vindo a destruir o Estado Social nos Estados membros, deixando cada vez mais europeus sem futuro nem presente e, até, somando mortes nos corredores dos hospitais, como acontece em Portugal.

Não! Com esta gente não marcho! Não branqueio esta falsa liberdade, que fingem defender. Não disparo, ombro a ombro com eles, contra a Democracia. Não! Não sou “Charlie”!

Fotografia de capa por mayanais

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Mário Contumélias

Etno-sociólogo e autor
Mário Contumélias, natural de Setúbal (S.Julião). Autor (30 livros publicados – Poesia, Romance, Histórias para crianças, Jornalismo/Sociologia). Escritor de canções (finalista de sete Festivais RTP; “O Areias”; “Visitas”…) Prof. Universitário; cientista-social (investigação mais recente no âmbito do Projecto “Values, Institutional Quality, and Development”, 2014). Doutorado em Sociologia. Licenciado em Antropologia Social. Foi também Jornalista.

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