Em vésperas de eleições multiplicam-se as sondagens, com os diferentes órgãos de comunicação social a apresentá-las como se fossem resultados definitivos.

Costuma dizer-se que “os números não enganam”, ainda que cada sondagem tenha números diferentes da outra, enganando-se mutuamente. O “taco-a-taco” grego, entre o Syriza e a Nova Democracia revelou-se numa diferença de sete pontos; o “empate técnico” das eleições britânicas acabou numa vitória estrondosa de Cameron. As sondagens enganaram-se quando apontavam a vitória do “sim” nos referendos escocês ou grego, e no fim os eleitores disseram que “não”. Então, se as sondagens erram, para que servem?

Qual é a diferença entre fazer uma sondagem ou lançar os dados? Será melhor encomendar uma pesquisa eleitoral ou um mapa astral?

Naturalmente que as sondagens têm base científica, e são mais fiáveis do que as alternativas apontadas. Mas, afinal porque erram? Os especialistas admitem que uma das causas de erro das sondagens resulta do tamanho da amostra. As amostras pequenas são menos precisas do que as grandes. Ou seja, se o grupo de pessoas sondadas for pequeno, é menos provável que se encontrem todo o leque de diferentes opiniões que se poderiam encontrar em amostras maiores. Por isso é que os pequenos partidos são geralmente subvalorizados pelas sondagens.

Se nas sondagens o tamanho importa, também a forma como é constituída a amostra é decisiva para o resultado. Se a maioria dos elementos da amostra forem apoiantes de um determinado partido, é natural que esse partido acabe beneficiado na leitura dos resultados da sondagem. Para evitar isso é necessário um cuidadoso trabalho de campo, que no final acaba por ser dispendioso.

Talvez a justificação dos erros das sondagens esteja na redução de custos. Para poupar dinheiro corta-se no trabalho de campo, e para conseguir uma proposta competitiva reduz-se o tamanho da amostra. Afinal as sondagens custam dinheiro, e quem as compra – os órgãos de comunicação social – também anda em tempo de vacas magras.

Porém, não é objetivo desta crónica saber porque falham as sondagens. Há especialistas mais habilitados que procuram resposta para esse problema, e uma vasta literatura sobre o assunto sem que, até agora, tenham chegado a um consenso. As causas que apontei poderão ser parte da resposta, mas não são a solução do problema. Por isso volto a questão inicial: Se as sondagens se enganam, para que servem afinal?

Será que as sondagens fazem parte do jogo político para desmotivar o adversário e mobilizar os apoiantes? Pode uma sondagem condicionar o resultado de uma eleição, desincentivando os apoiantes do grupo apontado como derrotado, e contribuindo para que eles acabem por nem sequer ir votar? Um falso “empate técnico” não serve para incentivar os apoiantes do partido que no início era dado como derrotado, e fazendo que a campanha do que à partida era vencedor desmobilize e acabe por perder terreno? Sem dúvida que os teóricos da conspiração encontrarão aqui terreno fértil para desenvolver os seus argumentos, mas também não é por aí que pretendo ir.

A minha pergunta é bem mais simples: Porque é que os jornalistas se deixam enganar pelas sondagens?

As sondagens fazem parte do espetáculo. O circo mediático vive do fogo-de-artifício, esse cintilar de luzes em que se transforma a realidade. Para os jornalistas deste circo, as sondagens já não são previsões, mas a realidade. A verdade absoluta naquele momento. Quer sejam sondagens de empresas credenciadas, quer sejam inquéritos que o jornalista faz na rua ao primeiro “cidadão anónimo” que encontra, ou mesmo as palavras dos comentadores.

Da “Senhora de Cor-de-Rosa” às sondagens de 300 inquiridos, tudo é a Verdade, ainda que efémera, porque amanhã tudo muda. No dia seguinte alguém descobre uma nova Verdade e todos a seguem até que ela se acabe também por desfazer em fumo e outra estrela brilhe no céu.

O jornalista não se deixa enganar pelas sondagens, elas fazem parte do circo. E, neste espetáculo ninguém olha para trás. Ninguém vai recuar para perceber porque se seguiu um caminho errado. A Verdade está lá à frente. Sempre à frente.

As sondagens enganaram-se? Paciência. No Dia do Resultado, lá estarão todos, excitados e com sorrisos, confirmando a nova Verdade e consultando os comentadores que – tal como os oráculos – lançam os búzios e prevêem o futuro. Sempre o futuro, porque ele é o que nós quisermos, enquanto o passado é a causa daquilo em que nos encontramos.

Confesso que sempre que sou sondado dou as respostas mais parvas que me consigo lembrar. Afinal as sondagens servem para quê?

Fotografia de daniel duende

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José Mendes

Jornalista
Licenciado e mestre em Sociologia; Auditor da Defesa Nacional. É titular de Carteira profissional de Jornalista e iniciou a atividade com o aparecimento das rádios piratas; Foi redator na Rádio Azul, de Setúbal, e chefiou a redação da Rádio Pal, em Palmela. Em 1989 integrou corpo redatorial da Rádio Comercial desempenhando funções de repórter parlamentar de 1991 a 1998. De 1999 a 2006 foi diretor de Informação da Media Capital Rádios. De 2007 a 2010 foi o responsável pelas delegações regionais do Rádio Clube Português. Atualmente é consultor e formador. É também colaborador regular em várias publicações e Provedor no Setúbal na Rede - o Futuro da Região.

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