Quando em 1903 o célebre arquitecto Raúl Lino projectou a recuperação e ampliação do luxuoso Palácio da Comenda, antigo retiro real do século XVIII, seguramente que estaria muito longe de pensar que, depois de tantos anos passados, esta obra-prima da corrente humanista em Portugal, iria ser deixada ao abandono, degradação e vandalismo.

Também conhecida por Casa da Quinta da Comenda, passou em 1872 para a posse dos fidalgos franceses, os Condes d’Armand. Foram os seus descendentes e também amigos pessoais da Família Kennedy que acolheram no Palácio da Comenda, a seu convite e durante alguns meses, a ex-primeira dama dos Estados Unidos da América, a senhora Jacqueline Kennedy e os seus filhos, logo após o assassinato do seu marido e Presidente John Fitzgerald Kennedy, em 1963.

Quando há duas semanas passeava pela deslumbrante praia onde desagua o supino ribeiro do Alcube (por muitos conhecido pelo ribeiro da Comenda), apercebi-me que um grupo de jovens e menos jovens, com ar de quem tinha passado uma noite de experiências vibrantes (talvez um “rave”), descia alegremente a escadaria que conduz ao Palácio, indo refrescar-se nas águas do dito ribeiro e ao mesmo tempo arremessando para as suas margens umas garrafitas de “minis” e outras de conteúdo etílico que esvaziavam em goles apressados.

Certamente que este bem numeroso grupo de adeptos do “hip hop”, do “breakbeat” e do “funk” escolheu o local apropriado para se extasiar perante a paisagem ímpar circundante ao Palácio, onde a vista sobre o Rio Sado oferece o seu máximo esplendor. Ninguém os pode condenar por isso. O Palácio está de portas (e janelas) escancaradas para quem quiser fazer dele o uso que entender. Ora surripiando alguns dos belos azulejos que ornamentam as sumptuosas salas, ou desmontando umas ferragens para venda no ferro-velho, ora usando as casas de banho para aliviar os fluidos, ou para, os mais bem intencionados captarem imagens fotográficas que, depois de postadas nos seus “blogs” ou no “facebook” acabam por, involuntariamente, aguçar ainda mais a curiosidade dos multifacetados visitantes.

Soube recentemente que o Palácio e a propriedade onde se insere, com cerca de 600 hectares, actualmente pertença dos herdeiros de António Xavier de Lima que os adquiriu nos anos 80, foram postos á venda por 50 milhões de euros, valor que alguns interessados abastados poderão considerar uma pechincha e avançar com a sua compra.

Se assim for, o mais provável é que os novos adquirentes voltem a vedar – como no passado – os terrenos que limitam aquela propriedade, passando a impossibilitar o acesso aos amigos das tão em voga e salutares caminhadas, que se interditem as provas e passeios de BTT, que o aprazível parque das merendas seja encerrado e que cessem as “ondas rave” e as visitas de circunstância ao Palácio.

Mais provável ainda é que se venha a dar trabalho aos técnicos e responsáveis dos Planos de Ordenamento, dos Planos de Urbanização e Pormenor, aos mentores dos Projectos Turísticos, aos especialistas dos estudos de impacto ambiental e recursos naturais, etc. etc. Não virá nenhum mal ao mundo se isso acontecer.

Mas mesmo mesmo o mais provável (perdoe-se-me a premonição) é que, depois de comprada e vedada a Herdade da Comenda se deem início a esses planos e estudos, que decorram mais uns bons anos sem nada se concretizar em termos práticos, sendo depois apenas possível captar imagens da continuada e inevitável degradação do Palácio somente pelos sofisticados “drones”. Aqueles que, teleguiados, consigam penetrar através dos intervalos do já tão esburacado telhado.

Mas pena é que não só o Palácio da Comenda, mas muitos outros palácios e edifícios interessantes por esse País fora (muitíssimos na nossa região) estejam entregues a uma inexorável e herética atitude, que se vai perpetuando na singularidade da indiferença dos que têm poder mas não tomam qualquer posição para inverter o rumo destas aberrantes situações.

Seria a altura de se exigir uma ruptura radical com este tipo de imobilismo, sob risco de qualquer dia nos caírem os telhados em cima da moleirinha. Os telhados dos palácios, e tantos outros telhados que este “País do deixa-andar” erigiu.

Dictum et Factum!

Nota: o autor não escreve com o Novo Acordo Ortográfico.
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Álvaro Oliveira

Técnico de Logística e Transportes e ex-Gestor - Reformado

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