A manifestação de Paris, em protesto contra os atentados, reuniu pessoas que habitualmente estão em campos opostos. Sendo significativo que a indignação contra o terrorismo possa congregar personalidades de campos tão distintos, também é certo que cada uma tem opiniões diversas na forma de responder à violência.

   

Ou seja, se estavam unidos no repúdio ao terrorismo, as diferentes visões para combater o problema, transformam a manifestação de milhões num ritual cujas consequências se resumirão ao efeito mediático que se repercutiu por todo o mundo.

   

Com efeito, se todos estavam lá contra a violência, uns estavam também pela defesa da liberdade de expressão, outros rejeitando o fundamentalismo islâmico. Para uns era a solidariedade com os jornalistas assassinados, para outros os mortos no supermercado judeu, outros ainda os policias abatidos à queima-roupa. Alguns para demonstrar que não têm medo da ameaça terrorista, outros para manifestar a sua fé inabalável nos valores da república e confiança no papel do Estado.

   

Naturalmente que todas as vítimas merecem respeito, e não nego que foi a rejeição da forma violenta como morreram que congregou milhões de pessoas em Paris e noutras cidades do mundo. O que quero dizer é que não se pode inferir que todas as pessoas ali presentes “fossem Charlie” e todos lutassem pela liberdade de expressão.

   
Os jornalistas têm tendência para generalizar. Fala-se com três pessoas e presume-se que as restantes trezentas pensam da mesma maneira. Em vez de relatar factos, o jornalista “interpreta, descodifica”, na verdade opina contando aquilo que lhe parece, e geralmente parece-lhe aquilo que pensa. Quando parte para a reportagem o jornalista já sabe o que vai encontrar e por isso sabe onde procurar.

   

Significativo foi que na reunião informal dos ministros dos europeus presentes, se tenha acordado em rever algumas medidas do Acordo de Schengen que regula a livre circulação na Europa.

   
O terrorismo não faz só vítimas nos atentados. A cada ataque terrorista aperta-se também o cerco às liberdades civis. Era importante que no afã de querer defender a liberdade de expressão, os jornalistas não se esquecessem das outras liberdades.Fotografia de capa por Clément Belleudy

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José Mendes

Jornalista
Licenciado e mestre em Sociologia; Auditor da Defesa Nacional. É titular de Carteira profissional de Jornalista e iniciou a atividade com o aparecimento das rádios piratas; Foi redator na Rádio Azul, de Setúbal, e chefiou a redação da Rádio Pal, em Palmela. Em 1989 integrou corpo redatorial da Rádio Comercial desempenhando funções de repórter parlamentar de 1991 a 1998. De 1999 a 2006 foi diretor de Informação da Media Capital Rádios. De 2007 a 2010 foi o responsável pelas delegações regionais do Rádio Clube Português. Atualmente é consultor e formador. É também colaborador regular em várias publicações e Provedor no Setúbal na Rede - o Futuro da Região.

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