Natal de 2014! Se as previsões estiverem correctas, os portugueses terão gasto mais em prendas do que gastaram no ano anterior, o que terá acontecido pela primeira vez, desde 2009. Ainda assim, em termos de média aritmética, a verba despendida em presentes não terá ultrapassado os 271 euros por consumidor. Parece pouco mas não é! Sobretudo, porque somos um país com cerca de 600 mil desempregados (segundo números oficiais), metade dos quais não recebem qualquer prestação social, e em que o salário mínimo é 505 euros ilíquidos. E, pior, no qual cerca de 80% dos pensionistas recebem uma reforma média de apenas 364 euros. Portugal, mais do que um país pobre, é uma nação em que a pobreza se instalou, com os bons ofícios da União Europeia e de sucessivos Governos lusos.

   

Acresce que a relação entre o Natal e a febre das compras é uma das hábeis perversões do sistema capitalista, para reproduzir o capital. Antes do cristianismo, o que os diferentes povos recorrentemente celebravam, em Dezembro, era o solstício de Inverno. Ou seja, o momento em que o sol vencia a escuridão, já que, a partir dessa data, os dias voltavam a ser maiores. A celebração homenageava o renascimento do sol, que continha em si uma promessa de regeneração, de um novo recomeço da vida, na sua plenitude. Quando a Roma cristã implantou o Natal, quis cristianizar a celebração pagã do solstício, que a antecedia e não incentivar qualquer sistema de mercado.

   

Passou-se assim da celebração pagã do “Natalis Solis Invicti” (nascimento do sol invencível), para a comemoração religiosa do nascimento de Jesus Cristo, mesmo tendo Ele nascido numa data bem distante do 25 de Dezembro, dia limite do solstício; Roma não tirava a festa ao povo, mas mudava-lhe o conteúdo simbólico. De então para cá, e até há poucos anos, o Natal (ao celebrar o nascimento de Cristo e as suas circunstância, e é isso o presépio…) caracterizava-se pela simplicidade, pelo amor a Deus e aos seres humanos, com especial incidência na família. Não propriamente no actual contexto de trocas materiais, em que o amor se mostra na qualidade e no volume dos presentes do dar-receber-retribuir natalício.

   

Mas, deixando de parte a crítica a um Natal dominado pela busca no supérfluo, como pilar para manter algo do essencial, volto à promessa de futuro e de verdadeira vida que ele encerra, quer na celebração solsticial, quer na comemoração do nascimento do Filho de Deus, ambas as interpretações portadoras de esperança. E é disso que precisamos hoje neste Portugal desgraçado e esbanjador dos anéis (já se foram a REN, a EDP, os CTT, a ANA; seguir-se-ão a TAP e a PT), deixando aos dedos a única coisa que lhes resta – pedir esmola. O que nos faz falta é que o sol renascido e o Menino nos devolvam o futuro e nos tragam a regeneração.

   

Dito de outra forma, um novo ciclo marcado por uma Democracia digna desse nome, em que os cidadãos queiram activamente influenciar as decisões políticas e os políticos os ouçam e respeitem a sua vontade, e não de uma democracia nominal que se esgota no voto. Uma política para as pessoas e não para os mercados; uma economia que não imponha uma lógica de remuneração do capital, mas uma prática equitativa da reprodução da riqueza, que é de todos mas fica apenas nas mãos de poucos; uma justiça rigorosa e isenta, em vez da mediática república de juízes em que vivemos. Um Estado que saiba ser social (porque se o não for não terá qualquer razão de existir) em vez de um aparelho ao serviço da classe dominante económica e ideologicamente. Tudo isso incentivado por uma comunicação de massas vigilante e crítica, ao invés de um jornalismo cúmplice da propagação da doxa neo-liberal.

   

É um Natal assim que vos desejo.

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Mário Contumélias

Etno-sociólogo e autor
Mário Contumélias, natural de Setúbal (S.Julião). Autor (30 livros publicados – Poesia, Romance, Histórias para crianças, Jornalismo/Sociologia). Escritor de canções (finalista de sete Festivais RTP; “O Areias”; “Visitas”…) Prof. Universitário; cientista-social (investigação mais recente no âmbito do Projecto “Values, Institutional Quality, and Development”, 2014). Doutorado em Sociologia. Licenciado em Antropologia Social. Foi também Jornalista.

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