Confesso que gostava de ser mais assíduo a ocupar a honra desta coluna de pensamento livre, mas a minha profissão e os livros que estão na calha – um dia o tempo terrestre acaba e fico a meio – não mo permitem. Mas tento; tentarei.

Em 1971, John Lennon, atracado a Yoko Ono e sem Paul, George e Ringo por perto, editava o single “Power To The People” (Poder para o povo), erguia o punho no ar e corria mundo a dormir nas montras dos hotéis que aceitaram o desafio – chocou. A esquerda europeia, ainda sonhando com o postal ilustrado da propaganda soviética, a chamada linha bem pensante da intelectualidade que a social-democracia alimentava de benesses, benefícios e rendimentos, seguia na procissão: do lado de lá da cortina de ferro (que raio de nome), estupefactos, somavam-se pontos. Valeu por mais vinte anos, até que o muro ruiu e com ele ficou à mostra o paraíso construído para o povo.

Mas Lennon, ao exigir poder para o povo, esquecia uma outra canção editada três anos antes pelos Doors, “Five To One”, que propunha explicitamente a provocação a uma América atolada no Vietname, monções e vontade guerrilheira de um povo farto da opressão colonial – os franceses haviam largado o Vietname há pouco tempo. Jim Morrison gritava com vigor romântico: “They got the guns/but we got the numbers” (Eles têm as armas/Mas nós temos os números).

A América do norte encheu-se de manifestações pacifistas (algumas nem por isso) contra a escalada da guerra asiática que ceifou e vincou de traumas a vida daquela geração que cruzava as décadas de 1960/70. O povo jovem mexia-se, usava flores no cabelo, desertava (mancebos) e sentava-se nas principais avenidas de Washington para dizer Não!

O povo.

Mas o povo nunca quis mais poder; o povo quer que alguém faça por ele e todas as forças políticas sabem-no à saciedade. A democracia chamada ocidental, o melhor dos piores sistemas políticos segundo Churchill (talvez por isso os ingleses o mandaram fumar charutos para casa depois de ter ganho a II Grande Guerra), representa o povo, depende do voto dos eleitores e cada vez mais da abstenção, outra forma de ludibriar a democracia – somos cada vez menos a decidir pelos outros que se acham logo a seguir no direito de criticar o cancro do poder instalado.

O povo enche uma alameda em protesto, ciente que picou o elefante, ou marcha enfileirada para Fátima por devoção – troca de sacrifício por benefício – e repete porque crê – a crença.

Vem tudo isto a propósito desta tragédia grega onde tantos amigos portugueses do caviar, boas consciências que recordam algumas páginas dos manuais ideólogos, gostariam de ver o povo, através de um Syriza de retalhos, ir ao focinho da Europa, dos credores que sustentaram a suculenta dívida a troco de juros pecaminosos que os sucessivos governos gregos foram aceitando e empurrando para mais além, sempre o além de outro governo que aplique a razia da austeridade. Lá como cá ninguém quer seguir o rasto do dinheiro, impor novas e duras leis contra a corrupção, porque aceitaram os contentores de euros diários que os fundos estruturais permitiram e uns quantos rapinaram – se por cá comprámos dois submarinos, na Grécia foram seis, ganhando os do costume.

Se a Grécia tinha de entrar no Euro para segurar um território geoestratégico melindroso (com a Rússia e a China à espreita), e por isso as suas contas foram alegremente falseadas, os ricos do mundo ocidental que pagassem os tubos submersíveis. Mas em todo o lado, com a chegada de dinheiro oferecido, a malta gostou do upgrade que nos tornou (a nós, a eles e a outros) importantes do cifrão, ricos como se vê nos filmes americanos, proprietários, modernos arrogantes e espertos.

O mexilhão, que se lixa sempre nestes saltos em comprimento sobre a realidade, vai percebendo que o muito oferecido pesa hoje como chumbo e como chumbo envenena e mata. O povo.

Como por cá. O bom povo, presumo, que canta “José Sócrates sempre”, que dá à “Casa dos Segredos” o topo das audiências e entra no cenário vivo dos programas de entretenimento musical ao fim-de-semana nos três canais de televisão. Bom povo português, dizia o homem que caiu da cadeira, o mesmo povo arreigado às manias ancestrais e ao sofrimento devoto de quem negoceia a troca de milagres por orações e sacrifícios.

O povo serve para tudo porque enche as bocas de paixão democrática no discurso político. É vê-los a sair de uma reunião fechada por iniciados e um porta-voz encher o discurso de vulgaridade: ‘A maioria dos portugueses’, o povo, ouve-se sem se perceber como conseguiu o homem num ápice o benefício da confissão desse homens e mulheres que somam a nação. O povo não se chateia, ninguém lhe paga um copo, o povo não conhece o povo – esquece e segue.

Sócrates, que continua detido em Évora depois de recusar ir para casa com uma pulseira eletrónica e viu assim regulamentarmente aplicada a decisão de continuar numa cela, voltou a ser advogado em causa própria, defendendo-se e acusando os dois condutores do processo Marquês, em entrevista publicada esta semana no Diário de Notícias e TSF, que Proença de Carvalho, seu antigo advogado, comanda, esquecendo que a sua detenção já foi caucionada por outras instâncias superiores (Relação e Supremo). Ninguém estaria à espera que Sócrates facilitasse a investigação e se auto-flagelasse.

Mas o ‘animal político’ cresce de tom acusatório e roça a ameaça – Mário Soares também o fez por ele – procurando que o povo aceite o guião da cabala política (não há presos políticos num estado de direito democrático, mas apenas presos de delito comum que serão julgados ou inocentados nos locais próprios), invocando a paixão dos seus fiéis: manuseia como nenhum outro detido preventivamente em Portugal a mídia – o advogado João Araújo, seu representante, assumiu que o segredo de justiça terminara para eles, mas não nos disse quando isso aconteceu. Terá sido logo em Novembro quando a SIC filmou a sua detenção no aeroporto da Portela?

Li o livro “Cercado”, do jornalista Fernando Esteves, e as dúvidas sobre a quem interessa a violação do segredo de justiça crescem e encaixam – descredibilizar os passos da investigação é o alvo.

Mas, numa semana em que o povo viu a seleção de sub-21 falhar um troféu europeu; numa semana em que a Grécia jogou a cartada de um referendo para camuflar o incumprimento que assinou (pagar 1.600 milhões ao FMI até 30/06 – estas somas são estonteantes), empolando o valor democrático porque a tarefa é dura e vai contra as promessas eleitorais do costume (a redação da pergunta a referendar é no mínimo caricata); numa semana em que Jorge Jesus chega ao covil de Alvalade (1/07); e na mesma semana em que o féretro de Eusébio irá repousar no Panteão nacional (3/07), Sócrates ficou com pouco povo para valorar os desabafos estafados que fundamentam a sua tese de defesa.

Como se ouve entre pires de caracóis e sardinhas alouradas populares, não haverá por aí um amiguito que dispense uns milhões por amizade? Vox populi, a voz do povo do costume.

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António Manuel Ribeiro

Autor, compositor, escritor e músico
Nasceu para a música fugindo dos bancos da igreja ao domingo, espantado com a voz do pai, pairando sobre a melodia da toada: era tenor como ele. Em 1979, quando pela primeira vez entrou num estúdio de gravação com os UHF que fundara, julgou que perdera a voz, só porque a insonorização do espaço lhe roubara o eco da sala de ensaios. Já escreveu mais de trezentas canções e ajudou a vender mais de um milhão de discos. Tem a língua afiada: cerca de 30 discos de originais com os UHF, dois a solo e quatro livros de poesia. Está sempre a gravar um novo disco. Escreveu a banda sonora sobre os 44 poemas épicos da “Mensagem”, de Fernando Pessoa. Ou um disco infantil, o risco de uma outra aventura. Duas vezes divorciado, é pai do António (guitarrista dos UHF), da Barbara (psicóloga) e da Carolina (designer de moda).

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