A ideia do multiculturalismo é bonita mas nem sempre funciona. Há países nos quais a sua história e a constituição da população, entre outros factores, poderão permitir tal política. Todavia, há limitações noutros países que aconselham a integração ou o interculturalismo (onde existe interacção entre culturas de uma forma recíproca, favorecendo o seu convívio e integração assente numa relação baseada no respeito pela diversidade e no enriquecimento mútuo) e não o multiculturalismo.

 

Desde logo a questão central é a velha máxima: “Em Roma sê romano”. Ou seja, a tentativa de imposição de preceitos culturais, religiosos e sociais por uma minoria à maioria não pode ser considerada normal nem aceite. Daí que o interculturalismo só possa ser aceite, numa sociedade democrática e num estado de Direito, desde que todos respeitem todos.

 

Mas o que o Ocidente está a fazer é outra coisa, está a colocar-se de cócoras perante um certo imperialismo cultural islâmico e também ateu. Alguns exemplos:

 

– O clube espanhol Real Madrid está disposto a retirar a cruz do seu emblema, de modo a expandir-se em países de outras tradições religiosas.

 

– A Oxford University Press aboliu a palavra “porco” e derivados dos seus textos, de modo a não incomodar muçulmanos (e judeus).

 

– Muçulmanos suíços, de segunda geração, exigem que a cruz seja retirada da bandeira helvética, sob o pretexto de promover a separação entre política e religião.

 

– Depois de intenso debate, a União Europeia retirou do preâmbulo do seu esboço de documento para-constitucional a referência às origens judaico-cristãs da Europa.

 

Além da patetice e do disparate aqui plasmados, qualquer destas decisões (e pretensões) não subsiste a uma simples análise.

 

Uma associação centenária como o Real Madrid deve orgulhar-se da sua história, e se está disposta a descaraterizar-se por um punhado de petrodólares, então não faz mais do que prostituir-se. Sabemos que o futebol profissional de alta competição, onde as pessoas valem muito menos do que o dinheiro, está prostituído há muito, mas não era preciso chegar a esse ponto.

 

Não tem outro nome. A decisão de a Oxford University Press proibir os autores de utilizar o termo “porco” e derivados (como salsicha, toucinho, enchidos), coisa que nem os judeus nem os muçulmanos, supostamente abrangidos pela medida entendem, é um disparate monumental. A academia nega-se assim a si mesma, e cai no cúmulo do ridículo do malfadado “politicamente correcto”.

 

Pretender alterar a bandeira do país – que é um símbolo de soberania e de identidade nacional – é não só pretensioso como uma agressão à história da Suíça. O argumento de que tal se justifica pelo facto de uma parte da população não ser cristã é profundamente hipócrita. Veja-se que nos países de origem dessas famílias muçulmanas as bandeiras nacionais contêm símbolos meramente islâmicos (apesar de também contarem no seu seio com minorias de outras religiões) e não existe a separação entre religião e estado que exigem agora no seu país de acolhimento.

 

Quanto à União Europeia, o disparate é influenciado por um laicismo exacerbado. É bom lembrar que os estados modernos são laicos, mas as sociedades não. A laicidade não pretende apagar o passado nem extinguir a liberdade religiosa, mas apenas isentar o estado de tomar partido por uma religião em desfavor das outras, ou mesmo da não-religião, de modo a que os cidadãos tenham os mesmos direitos, sejam eles crentes de que fé seja ou não-crentes.

 

Esta coisa de se achar normal que alguns grupos se ofendam com caricaturas religiosas, mas não considerem ofensivo decapitar pessoas, violar mulheres, praticar mutilação genital e atentados suicidas é sui generis. Contra isto só há uma posição possível, e não é a de agachados, mas sim ficar de pé. Sempre. Fotografia de capa por zoetnet

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José Brissos-Lino

Docente Universitário
Psicoterapeuta, docente universitário e escritor. Ligado ao associativismo, à solidariedade social e à cultura. Colabora regularmente na imprensa regional, desde 1980. Doutorado Psicologia e em Ciências da Religião. Pastor protestante.

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