Por relato em crónicas anteriores já tinha referido que, durante cerca de 15 anos, por motivos de ordem profissional, estive ausente de Setúbal. Entre Moçambique e Portugal distam quase 10.000 kms que se percorrem em cerca 11 horas de voo, mas que não me impediam de, anualmente, vir até à minha adorável terra a espaços de 4 em 4 meses, não obstante as curtas estadias de 8 a 10 dias. Tempo insuficiente para estar com a família e com os amigos e ao mesmo tempo inteirar-me, com pormenor, das novidades e progressos feitos cá no burgo.

Por tal facto, regressado de vez, decidi-me a calcorrear Setúbal de ponta-a-ponta, amiudadas vezes, subindo quase sempre às três colinas que, na minha opinião, proporcionam uma vista panorâmica ímpar dos vários ângulos da cidade.  Refiro-me ás escarpas de S. Nicolau, à encosta do castelo de S. Filipe e ao alto do Viso. Faço-o vezes incontáveis, ora de carro, de bicicleta ou a pé, sob as mais amenas ou agrestes condições climatéricas, na certeza de que nada de igual existe por esse mundo fora – que bem conheço – e onde invariavelmente se me depara uma paleta de cores e um céu de um azul tal que tonaliza o Sado com matizes invulgares.

Foi precisamente lá no alto do Viso quando, num daqueles tórridos dias do mês de Setembro passado, captava umas imagens de uma regata do Campeonato de Portugal da classe “Optimist”, evento impecavelmente organizado pela Federação Portuguesa de Vela, Clube de Vela do Sado e Câmara Municipal de Setúbal e encontrei o Sr. Manuel (nome fictício).

Com o seu sotaque inconfundível, onde os r’s são bem martelados, dizia-me: …”oh amigo, isto é lindo de se ver; cada vez sinto mais engulho em ser de Setúbal…” Continuámos num interessante diálogo, enriquecido por duas histórias deliciosas contadas no passado pelo Sr. Manuel, pescador de profissão e “engulhoso” (repetiu-o por mais duas vezes) da terra que o viu nascer e do bairro onde reside há mais de seis décadas.

Não fosse o simpático senhor pensar que eu estivesse armado em didacta, repliquei no mesmo tom sem que alterasse a semântica e a fonia da expressão. …”também eu Sr. Manuel, tenho muito engulho em ser de Setúbal, nascido na freguesia da Anunciada…”

Já cá mais abaixo, sentado numa esplanada da Avenida, repassando as fotografias tiradas e redigindo algumas notas que me guiaram a esta crónica, meditei sobre o que afinal é, para mim, o orgulho de ser setubalense.

No fundo, é viver nesta terra, é subir ao Viso e ficar lá mais de uma hora a conversar com um conterrâneo de gema, é de não gostar de ouvir os setubalenses criticarem a sua própria cidade, é sentir a nostalgia dos sabores, dos cheiros e das cores da minha terra quando estou fora, é saudar um vizinho, um transeunte e ser correspondido, é gritar pelo Vitória mesmo quando não ganha, é ir pedir um raminho de coentros ao vizinho do lado e lá ficar a falar durante meia hora sobre os acontecimentos de cá, é ir ao mercado e deleitar-me a ver o melhor peixe do mundo, é poder falar das nossas muitas praias do rio, da serra, da Troia, dos vinhos e dos queijos, dos restaurantes, dos doces, das gentes, dos bairros, das marchas, das caminhadas, do horizonte, da minha cidade, com ORGULHO, sem tibiezas, sem desencantos e sem ENGULHOS!

Como curiosidade e para cúmulo das minhas reflexões lia, há dias, que foram selecionados num inquérito os dez motivos principais porque se tinha orgulho em ser português. Nós por cá abarcamos e revemo-nos em quase todos esses motivos, seja pela nossa capacidade inovadora, pelas nossas gentes, pela nossa história e, por aí adiante.  Se não vejamos. Foram estes os dez mais citados: O Fado, o 25 de Abril, o Tratado de Tordesilhas, as castas de vinho genuinamente nacionais, os Descobrimentos, o vinho do Porto, os Azulejos, a calçada portuguesa, o cavalo Lusitano e a Língua Portuguesa. Estamos mesmo em quase todos, de uma forma ou de outra.

E também foi lá no alto do Viso, onde encontrei o meu agora amigo, Sr. Manuel, que em 1847 se travou a famosa Batalha do Alto Viso. Longe estavam os protagonistas da contenda de imaginar que, tantos anos passados, dois setubalenses se haviam de encontrar na rua que dá precisamente o nome a essa batalha (Rua Batalha do Viso), em amena cavaqueira que nos deu, a ambos, muitos motivos para nos orgulharmos de ser setubalenses.

N.B. A semana passada, depois de eu e o Sr. Manuel (a seu convite), termos almoçado umas belas sardas escaladas por ele pescadas e eximiamente assadas, desafiei-o para darmos uma volta por alguns locais da minha preferência em Setúbal.  Dizia-me com os olhos reluzentes:…Setúbal é a cidade mais bonita do mundo, é mesmo um orgulho ser de cá…”

No decurso da conversa contou-me que ao falar com a filha no dia que eu estivera a tirar uma fotografias á regata lhe disse que tinha conhecido um senhor e que combinara um almoço de sardas assadas no seu quintal e que a filha lhe tinha chamado a atenção:…”oh Pai, não vás outra vez dizer que tens engulho em ser de Setúbal…”

Amigo Manuel, desta vez vamos comer as sardas no meu quintal, lá para as bandas das escarpas de S. Nicolau, combinado?

Fotografia de Effervescing Elephant

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Álvaro Oliveira

Técnico de Logística e Transportes e ex-Gestor - Reformado

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