O país voltou a levar a cabo uma boa campanha de recolha de alimentos para o Banco Alimentar.

No distrito de Setúbal foram mais de três mil os voluntários que permitiram realizar esta campanha, em 185 superfícies comerciais, e cujo produto será distribuído a cerca de 50 mil pessoas com carência alimentares comprovadas, através de 183 instituições de solidariedade. É evidente que um esforço destes só pode merecer elogios.

Só que esta acção apresenta igualmente um lado negro de aproveitamento da miséria e do espírito solidário dos portugueses. Fazendo as contas a uma acção anterior e semelhante do Banco Alimentar, que conseguiu recolher cerca de 2600 toneladas de alimentos, segundo as notícias, e imaginando que cada pessoa comprou dois produtos e que esses produtos em conjunto pesavam um quilo e custavam 50 cêntimos, terão sido cerca de um milhão e duzentos e cinquenta mil euros pagos pelos doadores nas caixas dos hipermercados.

Concretamente, o Estado teria arrecadado 287.500€ em imposto (IVA), e as superfícies comerciais lucrado 375.000€, levando em conta uma margem de lucro de trinta por cento, que por vezes é bem maior.

Já há gente a mais a ganhar dinheiro à custa da solidariedade, como no caso de algumas ONG’s em que só uma pequeníssima parte dos donativos e apoios recebidos é de facto canalizada para combater a carência das populações que supostamente servem.

É o caso, também, das campanhas solidárias via telefone, em que tanto o Estado como a empresa telefónica ganham rios de dinheiro, despudoradamente, à custa da emoção geral e da boa vontade dos cidadãos, como aconteceu há uns anos, por exemplo, e entre muitos outros casos, na campanha solidária com os madeirenses vítimas de tragédia, que viram cerca de um terço das receitas ficar pelo caminho, no bolso das Finanças e da PT. O primeiro fazendo incidir o IVA sobre um acto de pura solidariedade e a segunda cobrando vinte por cento (!).

É o caso, ainda, de imensas pequenas instituições sociais que vendem objectos à porta de maternidades e supermercados e cuja receita só em pequeníssima parte vai para o fim a que se destina, já que quem promove na rua tal venda não é voluntário.

Num tempo de Advento, em que se apela imenso à fraternidade entre as pessoas e à solidariedade para com os que sofrem, é muito estranho que tal comportamento oportunista e abusivo venha do próprio Estado.

No mínimo, é vergonhoso.

The following two tabs change content below.

José Brissos-Lino

Docente Universitário
Psicoterapeuta, docente universitário e escritor. Ligado ao associativismo, à solidariedade social e à cultura. Colabora regularmente na imprensa regional, desde 1980. Doutorado Psicologia e em Ciências da Religião. Pastor protestante.

Últimos textos de José Brissos-Lino (ver todos)