A Europa está em guerra. Pode não parecer, sobretudo, porque os agressores procuram impor o seu projecto imperial com novas armas. Desta vez, não troam os canhões, não ceifam vidas os obuses e as metralhadoras, não cruzam os céus bandos de caças e bombardeiros, não se escondem nas profundezas os submarinos, decisivos na batalha dos mares.

A arma fundamental é o dinheiro, que o Banco Central Europeu pode emitir de forma ilimitada, para impor a austeridade e o empobrecimento às populações, em favor do capitalismo selvagem, da alta-finança, dos mercados desregulados e todo-poderosos. Associados ao “Eixo” desta nova implementação de um projecto nazi, liderada como das outras vezes pela Alemanha, estão organizações transcontinentais como o Fundo Monetário Internacional (o sinistro FMI), o Banco Mundial, a Troika, o Goldman Sachs e outras.

Neste quadro, as novas Waffen-SS chamam-se agora Partido Popular Europeu, tropa de elite da “chancelíder”, e de que também fazem parte correligionários seus, como Passos Coelho, Paulo Portas ou Mariano Rajoy. Cúmplices desta contra-revolução nazi são a maioria dos partidos ditos socialistas da Europa, com o Sr. Hollande na primeira fila, travestido de chefe de um novo e vergonhoso governo de Vichy.

Estes imperadores das dívidas soberanas, não procuram agora encher campos de extermínio; antes buscam queimar as instituições democráticas dos países europeus, mandar para a vala comum da solução final nazi, o estado social, a dignidade do trabalho, a solidariedade entre os povos, sobretudo nos países habitados pelos “negros” do Sul. E é neste quadro que deve ser visto o caso da Grécia, agora todos os dias nas primeiras páginas, com renovados insultos aos gregos, dignos do mais boçal etnocentrismo, do mais vergonhoso chauvinismo.

Esmagado pela austeridade europeia (servida pelo subserviente governo de Antonis Samaras, da Nova Democracia, aliado ao dito socialista Pasok) o povo grego elegeu o Syrisa que, desde então, embora sem radicalismos, recusou ajoelhar perante as imposições de Merkel e apaniguados e que, no passado domingo, num acto democrático revigorante, chamou às urnas os cidadãos que reafirmaram a sua dignidade e a sua capacidade de resistência, em condições dramaticamente adversas.

O primeiro-ministro Tsypras dissera, horas antes do referendo, que que o seu país “tem lidado com uma chantagem sem precedentes para aceitar medidas recessivas” por parte das instituições internacionais, embora a Grécia seja a prova de que “a austeridade só serve para aprofundar a crise” e que “os trabalhadores e os pensionistas não podem suportar mais esse fardo”. Por isso, garantiu, “o povo grego não vai sucumbir à campanha de medo”. Tinha razão, o “Não” a mais austeridade ganhou.

Porém, isso não lhes resolveu o problema porque os “donos” da Europa nunca quiseram chegar a acordo com a Grécia. Na guerra pela imposição da dominação capitalista e da solução única, a troika quis sempre derrubar o governo de Tsipras, fazer o funeral á democracia grega, impor a sua ditadura monetária, financeira e política. Para os senhores da Europa não há nem pode haver alternativa; por isso, custe o que custar, a Grécia tem de dobrar a cerviz. Ou sair do Euro.

A União Europeia que temos nunca substantivou uma Europa dos cidadãos, uma Europa social, uma Europa da solidariedade. Apenas uma Europa monetária, da especulação e do lucro sem regras, impositora do crescimento do desemprego, da emigração, da pobreza, da iniquidade, da ditadura.

Se os países do Sul, e se os partidos e governos europeus que se dizem socialistas percebessem isto e tivessem dignidade, a Europa podia ter enveredado por caminhos solidários e democráticos. Mas não, preferiram, como Passos, ser alunos aplicados da senhora Merkel. Ou agradar a gregos e troianos, como o inefável António Costa que critica o Syrisa, a quem acusa de ter agido com “uma enorme imprudência”, enquanto garante que “mais vale manter-nos em terra firme do que ir em aventuras”.

O resultado de tudo isto, de toda esta falta de coragem dos países do Sul (e não só) é que o sonho europeu está a desmoronar-se. Talvez seja preferível assim, uma vez que, tal como existe, o sonho não passa de um pesadelo. O Nobel americano da economia, Stiglitz, dizia, no início deste ano, que a Europa do euro deve manter-se unida mas que, se alguém tivesse de sair, que saísse a Alemanha. Nem mais. De uma forma ou de outra, a Alemanha vai perder também esta guerra.

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Mário Contumélias

Etno-sociólogo e autor
Mário Contumélias, natural de Setúbal (S.Julião). Autor (30 livros publicados – Poesia, Romance, Histórias para crianças, Jornalismo/Sociologia). Escritor de canções (finalista de sete Festivais RTP; “O Areias”; “Visitas”…) Prof. Universitário; cientista-social (investigação mais recente no âmbito do Projecto “Values, Institutional Quality, and Development”, 2014). Doutorado em Sociologia. Licenciado em Antropologia Social. Foi também Jornalista.

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