Os recentes acontecimentos em redor da administração de um fármaco potencialmente vital para doentes com hepatite C colocaram definitivamente a nu o lugar secundário em que o Governo coloca as pessoas.


Não há mais prova a esperar! Se nem o valor da vida se sobrepõe à contabilidade nacional é assente que os dramas nascidos da precariedade social acumulada aos longo destes três últimos anos nunca serão motivo para PSD e CDS/PP fazerem quaisquer inflexões relevantes. Para estes governantes será definitivo o que se ajuizava ser um esforço transitório.


A desumanização da política que este Governo protagoniza data do início da legislatura. A marcante expressão do chefe de Governo, “custe o que custar”, a propósito do apertar do garrote até mais não, era premonitória. Custasse o emprego, custasse a dignidade no acesso à solidariedade social pública, custasse o rompimento da permanência no percurso escolar, custasse o abandono do país a convite do primeiro-ministro,…e, sabe-se agora, com prova válida, que custa o direito à saúde. Direito à saúde que para esta maioria é exclusivamente, também, um custo. E tudo isto parece ser irrelevante para o Governo, particularmente para o seu líder, porque a posição de espinha dobrada perante o caminho da Europa subserviente à Alemanha faz a preferência.


O que aconteceu com o caso dos doentes de hepatite C é tudo o que não podia acontecer. Em primeiro lugar por eles, evidentemente. Mas, também pela dignidade da política e da nobreza do exercício de cargos públicos. Diga o Governo o que disser, procure justificar-se como entender, foi protagonizado, em democracia, um dos mais fatais acontecimentos para a vida política. A fatura vai ser pesada, muito maior que a do preço inicial do ansiado medicamento. Não vai ser paga em euros mas em subtração de credibilidade, respeito e reconhecimento aos poderes públicos e contará, irremediavelmente, para o aprofundar do déficit da vida pública.


O Governo vai inevitavelmente pagar bem essa fatura mas quando se toca o limite, o que foi o caso, a “política”, no seu todo, leva um valente “empurrão”. Mais um!


Fotografia de capa por Zuerichs Strassen

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Eurídice Pereira

Deputada do PS eleita pelo distrito de Setúbal

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