Passos Coelho seria um pândego, se não fosse o algoz do presente dos portugueses e o carrasco da sua esperança no futuro. É que sua excelência gosta de metáforas e de linguagem popularucha; é, deve ser, a sua maneira de ser povo; a sua forma de mastigar “a salsicha educativa”.
Mas o pior é que o doutor Sr. Coelho usa as metáforas para tentar fazer-nos engolir os “contos para crianças” de que tão pouco gosta. Ainda agora, referindo-se à situação dramática dos portugueses, ditada pelas suas políticas de alinhamento com as diretivas dos donos da União Monetária Europeia, veio dizer que o objetivo do Governo a que preside é “o de vencer a doença, não é o de perguntar se as pessoas durante esse processo têm febre ou têm dor ou se gostam do sabor do xarope ou se o medicamento que tomam lhes faz um bocado mal ao estômago ou qualquer outra coisa; quer dizer, se os efeitos secundários de todo o processo por que se passa valem ou não valem a cura”.
Ainda que este falso médico não nos tenha nunca falado verdade acerca dos efeitos secundários do tratamento imposto, que é como quem diz, nunca nos tenha dado a conhecer a “bula” da austeridade, sabemos por experiência que os ditos cujos são de tal ordem que, como diz o povo, podemos não morrer da doença mas não escapamos da cura.
Senão vejamos, seguindo a metáfora do chefe do Governo, na Saúde as queixas dos utentes aumentaram, o ano passado, de modo desproporcionado. Basta ver o relatório da Entidade Reguladora da Saúde (ERS), para perceber que as reclamações dos utentes do SNS cresceram 34,2%, em relação ao ano anterior. Já para não falar do facto de 900 mil cidadãos não terem médico de família; das urgências hospitalares serem um caos; da saúde se ter transformado num luxo, só ao alcance dos ricos. Tudo isto, na narrativa de Passos Coelho, não passa seguramente do mau sabor do xarope.
Assim como o facto da taxa de risco de pobreza em Portugal, antes das transferências sociais, chegar aos 46,9%, ou seja a quase metade dos portugueses, sendo que, após a transferência das pensões essa mesma taxa se fixa em 25,5%, deve ser encarado como o resultado desagradável do medicamento que, afinal, faz doer o estômago.
O mesmo estômago que é tomado de azia pelo crescimento da taxa de privação material, que deixa os mais pobres com dificuldade de acesso, ou mesmo sem ele, a condições de vida elementares; pelo aumento do risco de pobreza das crianças; pelo agravamento das desigualdades sociais e económicas, que fez Portugal voltar aos níveis de pobreza e exclusão social de há dez anos, situação agora agravada pela diminuição de oportunidades de acesso a serviços públicos.
A tudo isto podemos juntar a leve dor de cabeça provocada pelo incremento da taxa de desemprego (a oficial está em mais de 14%, bem longe da taxa real), como pela falta de perspetivas de futuro para a maioria dos cidadãos e pela destruição da classe média, enquanto um percentagem, insignificante mas significativa, dos portugueses prosperam e arrecadam uma enorme concentração de rendimentos e de riqueza.
Já não sei que efeito secundário destas pílulas de austeridade do falso médico, Sr. Coelho invocar, talvez uma discreta fibromialgia na alma, para retratar a emigração de 100 a 120 mil portugueses por ano (só o Reino Unido recebe 80 cidadãos lusos por dia) ou pelo aumento da dívida soberana que faz de conta que havemos de pagar ou…
Ao contrário do que diz Passos, com ou sem metáfora, por aqui quem se lixa é mesmo o mexilhão enquanto, à porta das eleições, “o PSD (…) está cheio de vontade de ir ao pote”, a meias com o CDS/PP e, por isso, o primeiro-ministro doura a pílula e minimiza os efeitos secundários dela. Bem podemos morrer da “cura”, que ele está-se borrifando.Fotografia de More pictures and videos: [email protected]

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Mário Contumélias

Etno-sociólogo e autor
Mário Contumélias, natural de Setúbal (S.Julião). Autor (30 livros publicados – Poesia, Romance, Histórias para crianças, Jornalismo/Sociologia). Escritor de canções (finalista de sete Festivais RTP; “O Areias”; “Visitas”…) Prof. Universitário; cientista-social (investigação mais recente no âmbito do Projecto “Values, Institutional Quality, and Development”, 2014). Doutorado em Sociologia. Licenciado em Antropologia Social. Foi também Jornalista.

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