O circo político montado em Bruxelas sobre o tema “Grexit” tornou-me eurocético perante a luta fraticída e selvagem dos intervenientes na causa da Grécia. Por ideologia não sou eurocético, já o escrevi algumas vezes, mas perantes as feras europeias, leões, tigres, macacos e “palhaços”, ilusionistas e domadores, não é possível ficar indiferente. Com o espetáculo montado em Bruxelas em que gatinhos se transformaram em leões e tigres, ao mesmo tempo que os macacos faziam as suas diabrices, o circo tornou-se numa palhaçada em que ninguém se saiu bem na fotografia. A Europa tornou-se num palco dum circo político onde deixou de haver respeito, caráter e responsabilidade. Perdoem-me a imagem os tigres, leões e macacos que são animais que seguem regras de comportamento, e perdão aos palhaços, aos ilusionistas e domadores, que respeito com humildade pois fazem do rir o acalmar as tristezas de cada um de nós.

No circo só faltava Alexis Tsipras, um gato manso com arrogância de tigre, que se juntou há cinco meses para alegrar a malta da esquerda política. Apareceu no circo político como domador de feras, mas da sua arrogância e valentia “a montenha pariu um rato”. Não foi suficiente transformar-se em “palhaço” e malabarista. As feras esperavam o momento para devorar o falso artista circense, pois o circo já tinha a fera Merkel, ansiosa por esfarrapar quem não teve a dignidade de defender os seus princípios. E por fim, da montagem do espetáculo que durou cinco meses, apareceu o ilusionista, que o grande público grego hoje apelida de traidor. Em boa verdade, no circo político que ameaça fazer uma deslocação pela Europa, Alexis Tsipras consegue o número de ilusionismo mais surpreende: transformar o “não” da vontade esmagadora do povo grego, num “sim” com que as feras sempre desejaram.

Quando caiu o pano o circo estava deserto, só desfilavam os atores do grande circo de Bruxelas, pois o povo saira e já se manifestava na rua a violência com que queria defender o “não”, mesmo que o ilusionista tenha dito que não havia outra alternativa e transformar o “não” em “sim” teria sido a menos má!

A Europa ficou desacreditada e quem não era eurocético com grande simplicidade se tornou. A Europa, com estes políticos, pouco dotados de princípios de justiça e igualdade, deixa uma imagem negativa no mundo que não pode acreditar numa (des)União em que há muitos intervenientes e nenhuma liderança. Tornando-se o Parlamento Europeu num circo político, mesmo que gritem que foram eleitos pelo povo, que estão afinal a defender?! Defendem o princípio dos poderosos de que “manda quem pode” sem que haja uma política comum de desenvolvimento dos países mais pobres. Juntando-se a esta desilusão temos, ainda os mais pobres a dizer que não respeitam os compromissos assumidos, os ricos que paguem a crise, ou, como escrevi na crónica de 2 de abril passado, não respeitando princípios de dignidade como a afirmação popular de que “o dever é honra se o pagar for a brio”.

Durante cinco meses, o partido no poder na Grécia traçou uma estratégia clara de fratura da Europa. Quem acreditou que Alexis Tsipras era o novo espírito da esquerda europeia, marcada pela vontade e independência de cada Estado, teve o maior soco no estômago que jamais imaginou. Alexis Tsipras servia o confronto de Putin com a Europa, sendo o seu agente em Bruxelas, provocando à Europa mais danos do que Putin alguma vez conseguiu. Os políticos europeus totalmente desorientados, deixavam correr o tempo. Os gregos, acreditando na sua grandeza histórica, estavam longe de pensar que entregaram o poder, a um político habilidoso, sorridente, mas manipulador. Mas, o que se poderia esperar duma coligação de esquerda, radical ou não ainda não sabemos, com a extrema direita grega? O poder pelo poder tem um preço e a Grécia perdeu a oportunidade de ser um exemplo político para os países da Europa que andam na “corda bamba”.

É curioso ouvir a esquerda portuguesa gritar que o Povo grego é humilhado pelo pacote de medidas de austeridade, quando a grande humilhação é de Alexis Tsipras que ignora a vontade do povo expressa no referendo que ele próprio provocou. A esquerda tem a necessidade de branquear a sua derrota e humilhação, acabando tão desorientada como a classe politica europeia. As medidas de austeridade não são humilhação, são a vontade dos poderosos contra os que nada podem, mesmo que queiram viver em pobreza, como os gregos o afirmaram no referendo. Humilhação, é não respeitar a vontade popular, é manipular a soberania nacional. Quem humilhou os gregos foi uma esquerda traidora e irresponsável, ao serviço de interesses que nada têm a ver com a dignidade e soberania do Povo grego. Alexis Tsipras, na politica do tempo moderno, é o exemplo de que na classe política não há dignidade e muito menos a esperança de ver emergir um estadista. A democracia política cavou a sua própria sepultura…

O Grexit só foi adiado. Acreditar que se salvou a unidade europeia seria enterrar a cabeça na areia. A Grécia continuará a ser o focus da disputa na guerra fria entre a Europa e Putin. O jogo de xadrez está lançado e o tempo já está a contar. Iremos assistir a empates, até quando? A Europa enfraquece a sua presença no xadrez político e Alexis Tsipras continua por dentro do jogo, como observador astuto e esperando ser o domador de feras. A paz na Europa está ameaçada, não pelo Povo grego mas pelos atores políticos duma Grécia geoestratégica. A Grécia será o grande problema da Europa, não pelo perigo de contágio, mas pelo que representa na História do passado, de hoje e do futuro próximo. A História do passado nós conhecemos. Não é só de paz e cultura como se quer afirmar, pois ainda há 20 anos combatiam ao lado do exército bósnio-sérvio, na guerra dos balcãs. A de hoje que já todos nós conhecemos. A de amanhã que, por certo não irá dignificar o povo grego pois estamos a falar dum “país com telhados de vidro”, como escreveu Henrique Raposo no EXPRESSO Diário de 29 de julho.

The following two tabs change content below.

António Figueiredo

Gestor Reformado
Foi trabalhador estudante, licenciado e Executivo de três empresas multinacionais, tendo exercido cargos no exterior. Foi Oficial do Exército, casado com dois filhos, reformou-se aos 55 anos, após 40 anos de trabalho. Na pensamento político é social democrata. Dedica o tempo de reforma ao voluntariado social e foi durante dois mandatos presidente da UDIPSS de Setúbal.

Últimos textos de António Figueiredo (ver todos)