É característica de muita imprensa local e até regional em Portugal, publicar “tudo” o que chega à redacção. Seja da autarquia, da associação, do partido político, do amigo ou do amigo do amigo. E com demasiada frequência sem qualquer tipo de tratamento jornalístico. Sai no jornal tal e qual como chega à redacção. É só copiar e colar. Tão fácil que nem são necessários jornalistas para o fazer. Este é um dos lados deste tipo de publicações, que leva a que por vezes se tome o todo pela parte e que a percepção geral ainda seja a de amadorismo. É verdade que ele ainda existe, mas já não tem a ver com o que sucedia há duas décadas.

Depois, temos publicações de proximidade com jornalistas, que diária ou semanalmente procuram fazer jornalismo a sério. Ao contrário das práticas do copia-e-cola, este dá mais trabalho. Implica fazer escolhas – que nunca agradam a gregos e a troianos – e arcar com as respectivas consequências. Quando os jornalistas, fontes e público se conhecem, então a dificuldade aumenta.

Vem isto a propósito de um desabafo de uma jornalista, lido no jornal regional onde escreve sobre desporto. É rara a semana – dizia ela – em que não recebe emails ou telefonemas de clubes, associações, dirigentes, atletas ou pais destes, questionando o porquê de não noticiar determinada competição ou feito. A limitação das páginas de que dispõe é o principal argumento apresentado. Porém, aquele desabafo trazia uma novidade. Referia-se ao caso de informações que lhe teriam sido enviadas, em que dois clubes reclamavam o título de campeão. Mandam as boas práticas jornalísticas cruzar informações, com o objectivo de procurar e publicar a verdade. Ora, como a principal fonte oficial – respectiva federação – não ajudava a esclarecer, a jornalista decidiu que (ainda) não havia notícia. Embora este imbróglio seja só por si notícia, isto é, a entidade que organiza não conseguir esclarecer, parece-nos acertada que opção por não publicar quem venceu. E o que resulta de situações como esta? Quando o jornalista não fez o jeitinho, a fonte fica melindrada.

Esta situação recorda-me uma outra, ocorrida há uns anos, envolvendo a mesma temática e outro jornal regional. Na altura, recebi o email de um clube, que dava conta dos resultados dos seus atletas numa prova nacional. A partir daquele alerta, procurei saber – junto da respectiva federação, porque a fonte original não o dizia – se teriam estado mais clubes daquele território envolvidos na prova. Bingo! Mais: os resultados tinham sido melhores. Portanto, a notícia foi publicada, evidenciando os atletas com as melhores classificações. Resultado: quem enviou o email original ligou indignado por não se ter dado relevância aos atletas do seu clube. Em casos como este tem que se lidar “com pinças”, pois a fonte prestou um importante papel. Ainda assim, ele foi mero ponto de partida para o trabalho do jornalista. Quem fala em desporto, pode falar de outros temas (cultura, política, religião, etc). Há sempre alguém que fica melindrado com o facto de haver jornalistas que trabalham comunicados de imprensas e outros conteúdos, não os publicando ipsis verbis.

Se a prática do jornalismo de proximidade já é difícil, quando o mesmo envolve o tema desporto e os seus agentes, ainda mais. Resta a quem procura fazê-lo com seriedade, ajudar esses mesmos agentes a compreender qual o papel do jornalismo. Um desafio que se reconhece difícil, quando lidamos com uma actividade competitiva e que envolve paixões, em que a lucidez e o discernimento nem sempre estão presentes. A busca pela verdade é o compromisso, a causa maior que um jornalista deve ter. Se assim não for, não há jornalismo. E nesse caso, para que servem os jornalistas?

Por ora, termino. Falamos depois.

Nota: Autor não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.

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Pedro Jerónimo

Docente no Ensino Superior
Setúbal, cidade e distrito, territórios que gosto de visitar. A primeira vez foi por culpa do Setúbal na Rede e mais concretamente do seu fundador, Pedro Brinca. Estava então a iniciar o doutoramento – em Informação e Comunicação em Plataformas Digitais – que me aguçou a curiosidade sobre o primeiro jornal exclusivamente digital em Portugal. Acumulava então esse percurso com o de jornalista num jornal regional, ali mais para norte, em Leiria. Os média e o jornalismo de proximidade, offline e online, motivam pois os interesses de investigação, num percurso que actualmente se faz, profissionalmente falando, no ensino superior.

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