Quando, rendidos ao correr dos anos, deixamos de nos preocupar com os cabelos que nos vão encanecendo o penteado, já perdemos a conta às mudanças a que assistimos na nossa vida, umas para melhor, outras nem tanto. É a altura em que começamos a dar por nós perdidos de simpatias pela asserção “No meu tempo é que era!”. As boas transformações, e nunca são poucas no decorrer de uma vida, tendemos a aceitá-las com normalidade e uma certa indiferença. As outras, aquelas que olhamos de lado, é que usamos frequentemente como termos de comparação.

Dando ouvidos aos mais velhos, ouviremos que a educação e o respeito, a tranquilidade e a segurança, o divertimento, a humildade, a vergonha, o compromisso e a honra, o saber educar os filhos, o gosto pelo trabalho e o amor à profissão, o saber dar valor ao dinheiro, o clima, a comida, a fruta e mais um sem número de coisas e princípios e atitudes e valores do antigamente, ganhariam por larga margem num confronto com o que temos agora. Verdades absolutas? Delírios nostálgicos? Talvez o meio-termo tenha, também aqui, cabimento, sendo certo e sabido que mudamos com o intuito de melhorar, mas que as mudanças estão longe de corresponderem sempre a melhorias.

Na minha última ida à magnífica Praça de Setúbal, pus-me a percorrer os lugares dos camponeses, que me dão gosto apreciar e onde costumo abastecer-me de frutas e hortícolas. Num dos lugares procurei pelos suculentos figos-brancos de pezinho comprido e, uma vez mais, ouvi o “Já não há figueiras dessas!”. Dizem-me os produtores, e eles lá sabem, que a culpa é do consumidor: “Comem com os olhos e correm atrás de todas das novidades que aparecem, desprezando o que é antigo e bom”. E dei comigo às voltas com saudades de outros frutos que vai sendo muito raro encontrar ou já se não veem mais: o delicioso figo-colhão-de-burro, de capa negra e do tamanho de uma mão fechada, e a ameixa cagona (designações brejeiras usadas na nossa região, mas que caracterizam lindamente os dois frutos – um, semelhante ao dito dos asnos, o outro, com propriedades laxantes); as uvas brancas das castas diagal, manteúdo e tamarês, doces, saborosas e de grandes cachos, que no campo se dependuravam em filas de camarões alinhados nos forros das casas para perdurarem até ao Natal – “Tinha cepas dessas, tinha, mas arranquei-as, porque ninguém pegava na uva, nem para vinho. Plantei uva D. Maria, que não lhes chega aos calcanhares, mas é o que as pessoas procuram”, palavra de produtor –; a uva molinha, de baguinho miúdo, dulcíssima, da qual se fazia, em Palmela, um vinho doce dourado, um néctar dos deuses; os damascos pequeninos (hoje vendem-se umas coisas grandes e sensaboronas pelos deliciosos damascos); os pêssegos de roer, que sabiam mesmo a pêssego e perfumavam a casa; as ginjas miúdas, das quais se faziam a boa ginjinha e um doce excelente; a pequenina e gostosa pera-de-Santo-António; a pera-de-inverno, enorme, que amadurecia em camas de palha e duravam pelo inverno a dentro; as nêsperas, as melancias, os melões e as meloas de variedades que se degustavam com prazer, e que já vemos nos mercados.

Como é que deixámos perder frutos de excelência, que duravam na árvore e na fruteira, sabores e aromas ancestrais que fizeram as delícias da minha meninice e que não podemos oferecer aos nossos filhos ou netos? Recuperar, divulgar e preservar estas espécies – tarefa para autoridades locais, agora que navegamos a boa onda de enaltecer e explorar o que de melhor existe em cada região – seria zelar por um património de valor inestimável.

O que vemos nas bancas são frutos que dão no olho, obra de engenharias de laboratório, e água e adubos e herbicidas e fungicidas e pesticidas e aceleradores de maturação e colorantes e lavagens e outras manhas, tudo em doses industriais. Exigências de mercado, ao que nos dizem os expertos. Fruta de calibre apreciável e aspeto imaculado, aspergida com conservantes, encerada, polida, linda, que é colhida fora de tempo, porque a novidade dá mais lucro. As queixas de quem compra não são para levar a sério – sabor e aroma e benefício para a saúde, quem é que liga a essas ninharias?

Falar dos outros produtos da terra, e ressalvadas as exceções de camponeses que amam o que fazem e produzem à maneira tradicional, é vira o disco e toca a mesma: porcarias por banha de cheiro, como diziam os antigos. Os doutores e engenheiros do meio, especializados a vender gato por coelho, chamam-lhes fruticultura e agricultura de qualidade. Pois que lhes faça bom proveito.

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Juvenal Danado

Professor

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