Como não costumo escrever e falar sobre a situação das mulheres, sobre os seus direitos ou ausência deles, sobre a discriminação a que são sujeitas no dia a dia, aqui neste país ou em qualquer outra parte do mundo, apenas no Dia Internacional da Mulher, mas sempre, aproveito este espaço para voltar ao assunto. É uma matéria inesgotável, sempre em aberto.


O 8 de Março já foi, para o ano há mais. Daqui a um ano, vamos voltar a ouvir que se exagera, que elas já têm tudo e que até querem mais… que disparate, que esta conversa de falta de direitos já está gasta, que isso era dantes, o que é que querem mais, que isto do Dia da Mulher não faz sentido…


Quando escrevo ou falo sobre Elas não ponho sobre elas/nós uma capa de vítimas, mesmo quando denuncio as discriminações, as violências, a invisibilidade. Denuncio, divulgo, mas mostro a outra face da moeda: a das lutas, da persistência, da solidariedade, das vitórias, dos avanços. Elas são objecto, mas também sujeito da História e enquanto não forem tratadas em pé de igualdade e não lhes forem dadas as mesmas oportunidades, toda a Humanidade perde o passo no caminho da modernidade, do progresso e da assunção dos Direitos Humanos para todos e todas. Por isso a actualidade do 8 de Março como Dia Internacional da Mulher.


É indesmentível que em situações de retrocesso social fruto das crises do capitalismo como aquela que estamos a viver e que tem na austeridade a sua marca mais forte, são os sectores sociais tradicionalmente mais vulneráveis – mulheres, crianças, idosos/as – aqueles que mais sofrem e aqueles a quem é preciso dar mais voz para melhor resistirem. Mas dar mais voz não se coaduna com o paternalismo da florinha que se distribui no 8 de Março, com a hipocrisia daqueles dias em que elas não têm de ir para a cozinha porque nesse dia o marido trata da comida, dos espectáculos em que o cantor famoso se derrete a cantar loas às mulheres/mães dedicadas e sempre disponíveis… Tal como as mulheres não querem um tratamento de favor, forçado, também não gostam de ver os seus parceiros a assumir uma caricatura que não lhes fica bem. Flores, venham elas! Partilha de tarefas e responsabilidades, sempre bem vinda! Poesia, queremos todos os dias!


Enquanto no mundo elas continuarem a ser violadas e mortas nos conflitos e nas guerras; enquanto continuarem a ser assassinadas por alguém que um dia disse que as amava; enquanto forem vendidas e forçadas a casar com alguém que nem conhecem e podia ser seu pai; enquanto forem sujeitas à mutilação genital por razões de ordem religiosa e cultural; enquanto continuarem a ser preteridas por um rapaz para ocupar um emprego, mesmo se ela tem mais qualificações que ele; enquanto a sua reforma for menor porque ao longo da sua vida o salário também foi muito menos; enquanto lhe perguntarem se pensa engravidar pois não podem dar-se ao luxo de empregar uma pessoa que lhes não dê garantias; enquanto não se sentirem seguras de não serem molestadas por saírem sozinhas; enquanto só olharem para elas como aptas para os trabalhos menores e mais mal remunerados; enquanto acharem que é da sua “natureza” o cuidar das crianças e dos idosos/as; enquanto os direitos delas não constarem das prioridades…


Enquanto tudo isto for banal, elas continuarão a lutar.


Elas não se vão deixar derrubar pelo cansaço.

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Almerinda Bento

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