Na ânsia de conquistar audiências e suplantar a concorrência, a televisão demitiu-se do papel educativo/cultural/civilizador que deveria assumir e transformou-se numa despudorada vendedora de misérias, ilusões e frandulagens. Ali explora-se tudo até ao osso, sem pejos, porque o que interessa é contabilizar espetadores. Não há limites.

Nos programas que ocupam boa parte da manhã e da tarde (aqueles em que se misturam telefonemas e prémios de milhares de euros com as desgraças das pessoas, de permeio com umas cançonetas brejeiras e paleio a atirar para o idiota), pivôs muito confortáveis nas suas sinecuras exploram os sentimentos até à náusea e dissecam a intimidade de quem se presta ao destempero da logorreia e da sandice.

Os concursos, macaqueados do estrangeiro, não entretêm, não empolgam, não educam (que saudades do Zip-Zip, da Cornélia…), e nem a simpatia e competência de alguns apresentadores salva a honra do convento.

Os reality shows, outra macacada de importação e gosto rasca, devassa da vida privada dos concorrentes, expõem misérias e o que de menos nobre há no ser humano, parecendo idealizados para rotular e expor ao ridículo as novas gerações, que não podem reduzir-se a uma súcia de gandulos e fraldiqueiras, sandeus, tartufos e peralvilhos. Os concorrentes, escolhidos a dedo e formatados para a cegada, entregam-se de corpo e alma ao que vão, e cada programa excede o antecedente no mostruário de autoestimas inflacionadas, numa feira de egoísmos e ordinarice, deslealdades, maus feitios e exibicionismos.

Os programas de debate sobre futebol são outra miséria franciscana que ocupa demasiado tempo de antena. Aí, adeptos facciosos dão lições de antidesportivismo, mordem-se e insultam-se uns aos outros, ao mesmo tempo que determinados jornalistas se expõem descaradamente na sua clubite aguda.

Não se olha mesmo a meios para a caça à audiência, ao share, como preferem dizer, num deleite de peneiras e numa pronúncia de cow-boy.

Mas há mais. Está a família sentada à mesa e perde a vontade de comer com o estendal de faces aterrorizadas ou moribundas, sangue a escorrer pelas ruas, sofrimentos, cadáveres e despojos humanos que nos servem. A nossa História, a nossa língua, os nossos maiores, a nossa cultura, o viver do povo real que trabalha e sofre, e que faz andar o país, são estranhos com pouco cabimento nas grelhas de programação, parecendo aflorarem-se, quando se afloram, a contragosto. A Língua Portuguesa é, de resto, sujeita, diariamente, a tratos de polé, incluso no próprio canal público – quando deixaremos de ouvir dizer, como ouvimos constantemente, «social-democratas…», «júniores», «Embora é….» e outras enormidades ditas por gente licenciada em comunicação social? A cultura anglo-saxónica está na moda, e os profissionais dos órgãos de informação falados, exibindo vaidades que pensam assentar-lhes bem, tornaram-se servos, escravos dela. Nas rádios, então, onde vozinhas amaneiradas debitam um chorrilho de palavras e expressões inglesas por tudo e por coisa nenhuma, a meias com pontapés na gramática portuguesa e idiotices de pasmar, o enfeudamento é ainda mais escandaloso.

Quando confrontados com as misérias que servem ao público, os responsáveis apresentam justificações que seriam criminosas se não fossem tolas: dão ao povo, dizem, aquilo que o povo quer e de que gosta. Falácia das falácias! Insulto à inteligência do espetador! No tempo em que Portugal era pátria de milhões de analfabetos (falo do século passado, anos sessenta e início dos anos setenta) a RTP exibia, salvo erro às quartas-feiras, a «Noite de Teatro». Saibam esses sabichosos (se é que desconhecem) que, a essa hora, não se via vivalma pelas ruas, porque o povo, o povão com pouca escola e que não tinha posses para chegar a um aparelho, estava a assistir ao teatro nas televisões das tabernas ou das sociedades recreativas. O mesmo se passava com o concurso Zip-Zip.

Não há gosto que se não eduque. E o gosto pela qualidade não foge à regra. Os senhores que mandam nas televisões sabem-no muito bem. O que fazem é atirar areia ao ar, pensando que cegam o pagode. Não há mesmo limites para a estupidez de certos dótores da mula ruça!

Fotografia de fdecomite

Juvenal Danado

Professor

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