Muitas vezes, quase sempre, é a história que nos bate à porta. Ai de nós se nos fechamos e nos recusamos a abrir-lha; ai de nós se não a ouvimos, ensurdecidos pelo berro do poder; ai de nós, pobres de nós, se lhe voltamos as costas e nos armamos em sonsos. Ai de nós.


Quando a história entra na nossa vida, dá-nos abraços. Podem ser de afecto, os abraços. Ou de urso, a partir-nos a espinha.


Tudo isto a propósito da tristíssima figura que a ministra fez, ao vivo e a cores, na reunião que decidia os destinos da Grécia. Empurrou a porta à história. Ficou surda e sonsa, dissimulada, voltando as costas a quem lhe deveria merecer solidariedade.


A ministra dos SWAP e o velho Schäuble que recebeu de um amigo, traficante de armas, 100 mil marcos ilegais para a CDU de Helmut Kohl, integram a visão mais clara do despudor e pouca vergonha da política dos tempos que correm.


Aquando do escândalo dos SWAP, a ministra disse, declarou, reiterou, que não mentia.


Schäuble também não mente. Na comissão que investigou o caso do recebimento afirmou, solenemente, claro, não conhecer o comparsa. Quando confrontado com a evidência do delito, declarou, numa memória súbita, que afinal o conhecia.


Duas criaturas leais e confiáveis. Fazem um excelente par. De jarras.


A comissão, as comissões, os grupos, as instituições apanharam um grandessíssimo susto com a vitória do Syriza. Não estavam habituados nem à coragem, nem à frontalidade, nem à legítima recusa de uma política suicida. Estavam mais aclimatados à espinha encurvada e obsequiosa dos Gaspares e outros pares e Luíses de grandes narizes. De gregos colaboradores e espanhóis cúmplices.


Daí esta raiva. Daí o coro condenatório, unânime na injúria.


Têm medo.

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Alice Brito

Dirigente do Bloco de Esquerda
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