Há duas semanas, foi o jovem participante no programa Ídolos a quem esticaram as orelhas. Há uma, foi a vez de se ver um outro jovem a ser agredido, filmado e o respectivo vídeo publicado – um anos depois – nas redes sociais.

São elas, as redes sociais, quem marca a atualidade e a agenda dos media noticiosos. Cada vez mais! Se há muitas partilhas, comentários e “likes”, então rapidamente esses conteúdos passam para a esfera dos media. Dos nacionais aos regionais. Os primeiros vão a reboque das redes sociais, enquanto que os segundos vão a reboque dos primeiros. Então se for um “vídeo viral”, tanto melhor. É também por isso que os jornalistas estão cada vez mais fixos à secretária. Se por um lado são menos nas redações – fruto da crise e não só –, por outro, não sair delas sai mais barato às empresas de media.

Independentemente do meio, importará questionar se estes casos são novidade. Não são. Este tipo de violência sempre ocorreu. Numas épocas mais do que outras, nuns locais mais do que noutros. O que mudou? Uma maior exposição mediática – Internet, redes sociais, telemóveis, etc – a fenómenos de violência, que leva a uma amplificação dos mesmos.

Recordo-me que a escola onde fiz o ensino básico tinha “má fama”. Estávamos ali na década de noventa. Havia “porrada” todos os dias e era até rara a semana em que a ambulância não fosse lá. Para quê? Levar alguém com hematomas ou golpes. Como surgiam? A grande maioria das vezes fruto de “jogos”. O poste, o garrafão… assim eram conhecidos. Estes e mais uns quantos. O objectivo era sempre o mesmo: “malhar” em alguém. Perante isto, lá todas as semanas saía uma circular do conselho directivo a proibir tais “jogos”. Porém, era “sol de pouca dura”. Na semana seguinte, surgia um novo. Sempre com o mesmo objectivo. Eram “brincadeiras” correctas? Não, não eram. A consciência também não era muita, com 10, 11, 12 anos.

Líamos, ouvíamos ou víamos notícias sobre o assunto nos media nacionais ou regionais, como agora? Não. Devem-se omitir factos? Não. Deve-se noticiar? Sempre que haja motivo. E expor o público – dos mais velhos aos mais novos – à violência? Se sim, só porque sim? Só porque há interesse público? Não será igualmente interesse do público que os media reflictam sobre o que fazem, procurando melhorar o seu papel junto do mesmo? Que responsabilidade(s)? Que consciência relativamente ao seu papel formativo? Ou serão eles meros “debitadores” do que vai acontecendo aqui e ali?

Vivemos num tempo em que qualquer pessoa tem mais capacidades informativas e sobretudo comunicativas. Convém é registar que com elas vêm mais responsabilidades.

Por ora, termino. Falamos depois.

Nota: Autor não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.

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Pedro Jerónimo

Docente no Ensino Superior
Setúbal, cidade e distrito, territórios que gosto de visitar. A primeira vez foi por culpa do Setúbal na Rede e mais concretamente do seu fundador, Pedro Brinca. Estava então a iniciar o doutoramento – em Informação e Comunicação em Plataformas Digitais – que me aguçou a curiosidade sobre o primeiro jornal exclusivamente digital em Portugal. Acumulava então esse percurso com o de jornalista num jornal regional, ali mais para norte, em Leiria. Os média e o jornalismo de proximidade, offline e online, motivam pois os interesses de investigação, num percurso que actualmente se faz, profissionalmente falando, no ensino superior.

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