Foi há precisamente 20 anos, num mês de maio, que pisei o solo de África pela primeira vez na minha vida. Lançava a mim próprio um desafio aventureiro após algumas contrariedades experimentadas – do ponto de vista pessoal – numa altura que se viam os efeitos da recente abertura à livre circulação de pessoas e bens entre os estados comunitários da União Europeia.
Tinha-se também completado um ciclo de 22 anos de colaboração dedicada com um Grupo de empresas de sucesso onde me foram sempre dadas todas as oportunidades para me valorizar e especializar em setores muito específicos de uma enriquecida atividade profissional, mais concretamente nas áreas de Despachantes Aduaneiros, Agências de Navegação, Transitários, Transportes Multimodais, Movimentação de Mercadorias e Logística e que a criação da famigerada União Europeia veio enfraquecer em Portugal, retirando-nos (a empresas e a empregados) o protagonismo áureo que perdurou durante décadas.
Refiro-me às empresas do Grupo Fernando Pedrosa e do seu saudoso pai, Sr. Augusto Pedrosa, duas figuras incontornáveis da sociedade setubalense, que ao longo de muitos anos, como Despachantes Oficiais, deram continuidade a uma atividade iniciada por um bisavô, a quem foi atribuído pelo Capitão-Mor da altura uma licença especial para exercer semelhante profissão como reconhecimento dos atos de bravura que o Sr. Juvenal Augusto Batalha, assim se chamava, evidenciara na pesca do bacalhau na Gronelândia. Estava-se no ano de 1840.
Curiosamente repetindo-se estes marcantes ciclos de 20 anos, promoveu-se recentemente um almoço/reunião entre ex-colegas do Grupo Fernando Pedrosa, onde o próprio esteve presente. Foi o culminar de uma iniciativa levada a cabo pelas quatro secretárias de Administração/Direção que por lá passaram durante as últimas décadas e que se mantiveram até ao inevitável encerramento das portas da empresa. Aconteceu há 20 anos.
Tratou-se de um momento emocionante e pleno de simbolismo, caracterizado pela inesquecível e continuada mística que sempre norteou a amizade entre colegas, materializada na célebre imagem-de-marca que dava pelo nome de “Família Pedrosa”. Sou de uma fase em que chegámos a ser 72 colaboradores nas empresas e que, por vicissitudes da vida, pela força do destino, ou por uma ou outra razão, se foi dissipando no tempo.
Porque sou um sentimental e porque nessa África vivi também um inolvidável e marcante ciclo de quase 20 anos, mais concretamente em Moçambique mas muitas vezes deslocando-me em lazer e por afazeres profissionais a países vizinhos como a África do Sul, Suazilândia, Botswana, Lesoto, Zimbabwe, Tanzânia, Malawi e Quénia, não posso deixar de enfatizar os êxitos que obtive na sequência dos ensinamentos que obtive nessa grande escola que atrás referi.
Não me canso de dizer que África conferiu-me a experiência dos audazes, a possibilidade de olhar o Mundo sob outros prismas, a capacidade de interpretar sentimentos, a noção de saber mais sobre cada vez menos; lá onde o céu parece abraçar a terra, onde os dias esvaziam lentamente as noites, onde se deseja que o silêncio nunca mais acabe e onde o horizonte rubro nos proporciona desenhos de figuras incomuns.
Mas foi cá que granjeei as grandes amizades, que constituí uma família feliz e unida, que ficaram as grandes saudades e que este nosso encontro veio agora reavivar e fortalecer com insofismável robustez.
Brilhante ideia esta das meninas-secretárias. Bem hajam por isso!
Tenho cá um palpite que daqui a mais uns 20 anos, voltaremos a comemorar uma qualquer nova etapa destes curiosos ciclos que insistem em nos aproximar e a revolver o baú das recordações, o que não invalida que até lá não encurtemos as oportunidades de nos rever a propósito de qualquer coisa para que as admiráveis mentes das meninas-secretárias nos desafiem.
N.B. Eu sei Ivone, Inês, Beny e Lurdes. Vocês avisaram-me: “…nada de ações mediáticas…”. Desculpem mas eu não resisti a esta tentação. Até à próxima.

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Álvaro Oliveira

Técnico de Logística e Transportes e ex-Gestor - Reformado

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