Foi através de Ribeiro e Castro, no programa Prós e Contras do passado dia 16 de março, que me apercebi que afinal ando enganada há quase 10 anos. Felizmente existem pessoas como Ribeiro e Castro para desfazer estes terríveis equívocos. Parece que, tal como milhares de outras pessoas em Portugal e no mundo, afinal, não sou mãe não sou nada. Foi tudo um grande mal entendido. A propósito, a ver se não me esqueço de avisar a minha “filha”.


Por mais que ame, cuide, proteja e eduque, parece que nunca serei mãe a não ser que abra as pernas e salte de lá uma criança. Segundo Ribeiro e Castro “mãe é aquela que transporta a criança, que carrega a gravidez e que tem o parto”. Ora bolas. Eu não fiz nada disso!


Ribeiro e Castro continua argumentando que “mãe é a que dá à luz e que estabelece com a criança no seu ventre uma relação pessoal muito intensa”. Bem…as coisas poderão melhorar para o meu lado. É que efetivamente estabeleci uma relação pessoal muito intensa com a minha “filha”. Só não dei à luz… A não ser que se conte as vezes todas que carrego num interruptor. Não?


Empenhadíssimo na sua defesa da maternidade biológica como a única legítima, acrescenta que “não é possível do ponto de vista bioético e é uma violência do ponto de vista jurídico estabelecer diferentemente. Mãe há só uma!” A que pariu, entenda-se.


Com esta conceção de maternidade e do que é ser-se mãe, Ribeiro e Castro exclui de uma só vez todas as mães por via da adoção e todas aquelas, que em países onde a democracia, a liberdade e a igualdade falaram mais alto do que os preconceitos, são mães por recurso à maternidade de substituição1, vulgarmente chamadas “barrigas de aluguer”. Despreza aquilo que qualquer mãe (e pai) deveria saber. Que a tal relação muito intensa se estabelece, não por transmissão sanguínea ou genética, mas pelo cuidar, pelos afetos, pelos desafios e pelas partilhas quotidianas. Se revela na dedicação, na preocupação, nas alegrias e nas tristezas, nos abraços, nos beijos e nos ralhetes.


Não fosse a responsabilidade que lhe confere a sua condição de deputado da Assembleia da República, as suas declarações seriam apenas ridículas e não se prestaria a elas mais atenção do que às da sua colega de bancada no referido programa, Isilda Pegado. Mas são, infelizmente, muito mais do que isso. São um insulto a todas as mães e pais por via da adoção ou por qualquer outra via que não a biológica. São uma ofensa a todas as filhas e filhos por via da adoção ou por qualquer outra via que não a biológica. No que me respeita, enquanto MÃE e em defesa da minha filha, aguardo um pedido público de desculpa. Estaremos as duas coladas ao ecrã televisivo.


Não pretendo ditar quantos filhos deve ter o Sr. Ribeiro e Castro, como ou com quem. Nem tão pouco determinar se é pai porque fecundou um óvulo ou se o é por amar os seus filhos, por os cuidar e educar. O resto da sociedade merece o mesmo respeito e a mesma oportunidade de não ser obrigada a viver segundo regras ditadas pelos preconceitos e pelas visões conservadoras e castradoras de uns quantos.


No Bloco de Esquerda continuaremos a lutar contra todas as discriminações e preconceitos e pela igualdade e respeito de quem é capaz de amar para lá das determinações biologistas.


1 O debate no programa Prós e Contras referia-se precisamente a esta temática e intitulava-se “Mães de Aluguer”.

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Sandra Cunha

Membro da Coordenadora Distrital de Setúbal do BE
Socióloga, leciona atualmente no Instituto Superior de Economia e Gestão em Lisboa. Ativista na área da protecção à infância e adopção, feminismo e defesa dos direitos LGBT. É membro da ONGD Meninos do Mundo e formadora na área da parentalidade por via da adoção. Membro da Comissão Concelhia de Sesimbra, da Comissão Coordenadora Distrital de Setúbal, da Comissão Política do Bloco de Esquerda e da Mesa Nacional. A defesa do Estado Social, o direito à Escola Pública, à Saúde ou ao Trabalho e o combate às discriminações são os valores que orientam o seu ativismo.

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