Um caso recente de impedimento de contacto de representantes do SJ com algumas redacções regionais, é o mote para uma reflexão para a qual convocámos os directores do Setúbal na Rede e do Diário da Região.

Faz dia 24 de Abril um mês que representantes do Sindicato de Jornalistas (SJ) tentaram contactar com os profissionais de duas redacções regionais, tendo alegadamente sido impedidos de o fazer. Esta iniciativa, anunciada pela nova presidente daquele organismo, a jornalista Sofia Branco, teria – e tem, porque ainda decorre – como objectivo conhecer a realidade dos media regionais.

Embora este caso não se relacione com nenhum daqueles que se localizam nos territórios de Setúbal, concelho e distrito, entendi questionar os directores do “Setúbal na Rede” e do Diário da Região. Sobretudo quando estamos a poucos dias de mais um 25 de Abril, em que se comemora a liberdade. Faz, pois, sentido questionar que liberdade têm hoje aqueles que têm por missão defender a(s) liberdade(s), designamente a de expressão. Quisemos, pois, saber como é que se “posicionam” em relação ao contacto dos seus jornalistas com uma das entidades que os representa (SJ) e como “encaram” essa a possibilidade desse contacto nas suas.

“É efectivamente uma questão muito actual e relevante. Acresce tratar-se ainda de matéria sensivel, não tanto do dominio da etica jornalistica mas do âmbito das relações entre patronato e sindicatos, conflituante por natureza e tradição”, começa por referir Francisco Alves Rito, director do Diário da Região. “Em abstracto, quer-nos parecer que o acesso do sindicato ao contacto com as redacções é positivo e desejável. Mas isso tem de ter regras que não transformem as redacções em locais de actuação propagandistica por parte dos sindicatos”, acrescenta.

“Não vejo qualquer situação razoável em que seja normal proibir a entrada de qualquer pessoa na redação e/ou impedir uma conversa com jornalistas (ou outro funcionário) desde que seja da sua vontade”, começa por dizer José Luís Andrade, director do “Setúbal na Rede”, ressalvando, porém, que “talvez existam locais onde certas conversas consideradas de foro privado sejam aconselhadas a ser feitas no tempo pessoal e fora das instalações laborais”. Concretamente em relação aos jornalistas do “Setúbal na Rede”, acrescenta ainda que “não existe qualquer impedimento em permitir que qualquer pessoa converse com quem pretender, desde que não prejudique o trabalho da equipe”.

Uma voz que entedemos trazer para esta reflexão, é a de Carlos Camponez, professor na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, com investigação e livros publicados sobre “Jornalismo de proximidade” e “Deontologia do jornalismo”, que sublinha a pertinência do debate em torno desta questão. Habituado a ter conhecimento deste tipo de acontecimentos nos media, é agora “surpreendido” por eles envolverem os próprios media. “O que esta situação parece espelhar é que algumas empresas jornalísticas não estão à altura dos acontecimentos que denunciam ou que deveriam fazê-lo e isso coloca-as perante uma situação embaraçosa perante o público”. Para este professor de jornalistasmo, “a situação evidencia a forma como algumas empresas jornalísticas entendem a autorregulação do setor, ou seja, como uma expressão destinada apenas a libertá-las dos constragimentos considerados necessários para alcançar os seus objetivos, esquecendo-se que ela deve ser exercida num processo negocial dos diferentes interesses em presença”.

“No caso do jornalismo, esta situação parece-me particularmente grave uma vez que a Lei de Imprensa consagra o princípio da autonomia dos jornalistas face à administração das suas empresas. A este facto acresce que o Sindicato dos Jornalistas, para além de uma instituição de defesa dos trabalhadores, – quer gostemos quer não – é o mais importante organismo de autorregulação da profissão. Quando as administrações dos órgãos de comunicação social não percebem isso, penso que fica tudo dito acerca do que entendem sobre o que é do jornalismo e a informação”, acrescenta Carlos Camponez.

Face ao que aqui partilhamos, fica a certeza da abertura ao diálogo por parte dos directores do “Setúbal na Rede” e do Diário da Região. O que aliás esperávamos e desejamos – pelo bom exercício do jornalismo. Já a partir dos contributos de Carlos Camponez, levamos a questão: que liberdade de expressão para os defensores da liberdade de expressão?

Por ora, termino. Falamos depois.

Nota: Autor não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.
Fotografia de capa por Lisa Padilla

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Pedro Jerónimo

Docente no Ensino Superior
Setúbal, cidade e distrito, territórios que gosto de visitar. A primeira vez foi por culpa do Setúbal na Rede e mais concretamente do seu fundador, Pedro Brinca. Estava então a iniciar o doutoramento – em Informação e Comunicação em Plataformas Digitais – que me aguçou a curiosidade sobre o primeiro jornal exclusivamente digital em Portugal. Acumulava então esse percurso com o de jornalista num jornal regional, ali mais para norte, em Leiria. Os média e o jornalismo de proximidade, offline e online, motivam pois os interesses de investigação, num percurso que actualmente se faz, profissionalmente falando, no ensino superior.

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