Há exigências éticas e deontológicas que regem a actividade jornalística e não as práticas semelhantes e fortuitas dos cidadãos.

   

Por entre todo o frenesim informativo que pulula no Facebook, deteve-me a denúncia de uma notícia publicada num ciberjornal regional. Com o título “Tábua: Violento acidente (actualização)”, a mesma era acompanhada por uma fotografia. Nela era possível ver o resultado de um choque frontal entre dois carros: num deles, completamente “amassado”, tínhamos o condutor deitado no asfalto e o passageiro com os membros inferiores dentro do carro e os superiores sobre o capô – efeito de ter sido “cuspido” para o exterior.
   

As críticas não tardaram. Sobretudo da parte de jornalistas. “Cada vez mais se assiste a situações aberrantes (na minha opinião) no jornalismo, sobretudo em publicações regionais. Falta de formação, profissionalismo, ética… Valerá tudo? Ninguém regula?”, questionava um deles. A maioria condenava a escolha daquela imagem, a minoria defendia a sua publicação. Houve quem sugerisse que a imagem deveria de ser publicada, mas com os corpos desfocados ou ocultos. Entretanto, a notícia deixou de estar acessível online.
   

Este tipo de prática não é exclusiva das publicações regionais. Também tem ocorrido em publicações nacionais. Há quem defenda que por muito drama que esteja presente em determinada imagem, a mesma deve ser publicada, sempre que reporte factos. Não adianta escondê-los de quem quer que seja, até mesmo das crianças. Por outro lado, há quem entenda que deve existir ponderação em relação aos conteúdos que se escolhem para reportar factos. Os mesmos podem ser transmitidos sem recorrer a imagens chocantes (p.e. através de texto e/ou de imagens registadas a partir de outros ângulos). Seja como for, não há uma opção consensual.
   

Da minha parte, entendo que um jornalista tem responsabilidades sociais, na medida em que as suas opções têm implicações. Também ele é um educador da opinião pública, através das palavras e imagens que escolhe para reportar factos. E isso é sempre um processo que envolve escolhas pessoais e colectivas, isto é, quando envolvem o jornalista e os seus colegas. O que diferencia (ou deveria diferenciar) a publicação de informações por parte destes profissionais, em comparação com aquelas que são feitas por não-jornalistas, é o “parar para pensar” nas implicações sociais do que se veicula. No jornalismo valerá tudo? Não. Na minha opinião, não. O problema é que o tempo é um factor determinante no processo de construção noticiosa. O “é a realidade tal como ela é” poderá ser a via mais fácil para justificar as opções editoriais tomadas e talvez a ausência de debate nas redacções e entre jornalistas. E tanta falta que ele faz. Para o jornalismo, pelo público.
   

Por ora, termino. Falamos depois, em 2015. Boas Festas!
   

Nota: Autor não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.

The following two tabs change content below.

Pedro Jerónimo

Docente no Ensino Superior
Setúbal, cidade e distrito, territórios que gosto de visitar. A primeira vez foi por culpa do Setúbal na Rede e mais concretamente do seu fundador, Pedro Brinca. Estava então a iniciar o doutoramento – em Informação e Comunicação em Plataformas Digitais – que me aguçou a curiosidade sobre o primeiro jornal exclusivamente digital em Portugal. Acumulava então esse percurso com o de jornalista num jornal regional, ali mais para norte, em Leiria. Os média e o jornalismo de proximidade, offline e online, motivam pois os interesses de investigação, num percurso que actualmente se faz, profissionalmente falando, no ensino superior.

Últimos textos de Pedro Jerónimo (ver todos)