E o vencedor é… Foi com um apelo ao voto nas eleições de ontem que terminei a última crónica. Esta, escrevo-a na véspera, pelo que esta hora ainda não são conhecidos vencedores e derrotados. Espera-se, contudo, que no final de todas as contas, acordos e desacordos, ganhe o país. Sobre o motivo que mobiliza a escrita destas linhas, está relacionado com o período pré-eleições e a forma como o público foi ou não esclarecido pelos média.

Por estes dias, resolvi voltar a ver e ouvir um documentário sobre o estado do jornalismo em Portugal. “Não aconteceu. Está a acontecer”, de Diogo Pereira, um retrato muito bem conseguido por um então jovem estudante universitário. Realizado há cerca de dois anos, reúne uma série de dados e depoimentos de jornalistas e investigadores.

Um dos temas abordados é a questão dos desafios que se levant(ar)am com o aparecimento da tecnologia. Se numa era pré-internet as pessoas tinham as edições dos jornais, dias após dia, ou das rádios, de meia em meia hora, desde meados da década de 90 do século passado que as notícias chegam a cada instante. “Passaram a receber a informação repetida à exaustão, ou seja, várias vezes ao dia”, sublinha João Figueira. Um exemplo do que descreve este professor de jornalismo da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, é o que se passa no Facebook. Já todos percebemos que basta um conteúdo tornar-se viral, isto é, ter muitas partilhas, “gostos” ou comentários, para chamar a atenção de jornalistas e passar rapidamente para a agenda dos média noticiosos. Com isto chega a mais pessoas, inclusivamente aquelas que não acedem à internet. O problema, porém, não tem a ver com a rapidez de propagação da mensagem, mas sim do seu enquadramento e profundidade.

Ainda corria o documentário, quando vejo no Facebook uma notícia referente a uma “mãe indignada” e “anónima”, que invade repentinamente o palco de um almoço-comício do Partido Socialista (PS) em Setúbal. Parei o documentário, para aceder ao vídeo que acompanhava a referida notícia. Vi e ouvi a intervenção e o que me ocorreu, recupero daquilo que partilhei na altura naquela rede social:

“Que conveniente a senhora querer manter-se no anonimato. E até se cita ‘alegremente’ ser uma cidadã indignada. Pois face a isto, quem é que me impede de duvidar? Quem é que me garante que isto não é uma encenação, daquelas feitas à medida das redes sociais e para ‘incendiar ‘meio mundo'”? Oxalá alguém tire esta estória a limpo.”

No dia seguinte, aquela mãe deixou o anonimato, já tinha nome, percurso profissional e ligações ao PS. Li nas notícias. Quer dizer, alguns jornalistas foram além da mera amplificação do que se vira e ouvira no dia anterior e investigaram, contextualizaram. E isso é algo que lhes compete fazer. Sempre. Porque o que se viu naquela ocasião foram partilhas e partilhas no Facebook e comentários de indignação e solidariedade relativamente aquela “mãe indignada” e “anónima”… que afinal tinha ligações ao partido. E isso é uma informação relevante, que contribui para o juízo individual de cada cidadão, independentemente da sua simpatia partidária. Precisamente o efeito que as notícias devem ter: informar os cidadãos, permitindo-lhes uma leitura livre dos factos, sem qualquer enviesamento.

Importa “perceber e não apenas ver”, como também diz João Figueira. Para que tal seja possível, é preciso fugir do jornalismo “mandrião” ou – usando uma expressão da gíria jornalística – não ser “pé de microfone”. Nem por acaso, acabo de ver mais um vídeo a circular na Internet, revelador da iliteracia do público, para a qual muito contribuem os média noticiosos. Eis o exemplo de um diálogo que ocorre na rua, entre um repórter e uma cidadã adulta:
– Seria capaz de votar no Portugal à Frente?
– Se fosse para nosso bem, claro que sim. Se fosse para melhorar Portugal…
– E na coligação entre o PSD e o CDS?
– Nem me fale dessa gente, que essa gente pôs-nos pior do que no tempo do Salazar.

É só um exemplo, mas que não deixa motivar o questionamento sobre aquilo que nos transmitem os média. Se apenas reproduzem o que é dito ou se aprofundam os temas. Queremos as pessoas a saber melhor os ingredientes da pizza que alegadamente o antigo primeiro-ministro José Sócrates terá encomendado quando regressou a casa ou a saber o que significa plafonamento? Qual é/deveria ser o papel dos jornalistas?

Por ora, termino. Falamos depois 🙂

Nota: Autor escreve segundo a antiga grafia.
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Pedro Jerónimo

Docente no Ensino Superior
Setúbal, cidade e distrito, territórios que gosto de visitar. A primeira vez foi por culpa do Setúbal na Rede e mais concretamente do seu fundador, Pedro Brinca. Estava então a iniciar o doutoramento – em Informação e Comunicação em Plataformas Digitais – que me aguçou a curiosidade sobre o primeiro jornal exclusivamente digital em Portugal. Acumulava então esse percurso com o de jornalista num jornal regional, ali mais para norte, em Leiria. Os média e o jornalismo de proximidade, offline e online, motivam pois os interesses de investigação, num percurso que actualmente se faz, profissionalmente falando, no ensino superior.

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