Repetindo a espaços a pergunta “Is there anybody out there?” (Está alguém aí fora?), os Pink Floyd criaram uma canção simples, que retrata de forma básica, mas clara, a consciência do isolamento face ao resto do mundo.

  

O tema faz parte do álbum “The Wall”, que conta a história de uma pessoa que constrói um muro metafórico em torno de si mesma para se proteger do sofrimento e da opressão causados pela sociedade, mas acaba por, assim, criar a sua própria dor, da qual só se consegue libertar quando decide partir o muro que ergueu e voltar a enfrentar a sociedade que a magoou e desiludiu.

  

Evoco esta obra de 1979 para comentar parte do estudo “A Saúde dos Adolescentes Portugueses 2014“, uma leitura importante para compreender os efeitos que a crise económica está a ter na juventude nacional.

  

Um em cada 16 jovens do 8º e do 10º ano diz andar quase sempre “tão triste que parece que não aguento…”, revela o estudo. Acresce que 1 em cada 5 diz sentir-se assim às vezes. Ou seja, numa turma com 20 alunos, há pelo menos 4 com sinais ligeiros de depressão e 1 com sinais graves.

  

Nas famílias a situação, provavelmente, não estará melhor: 21% dos alunos afirma que, devido às dificuldades económicas, os pais “estão mais nervosos e irritados do que antes”, enquanto “sinto que os meus pais precisam mais da minha ajuda” é a resposta de 30%.

  

Em declarações ao Público, a coordenadora do estudo, Margarida Gaspar de Matos, lamenta “o fim das áreas curriculares não disciplinares”, pois aqueles que não tenham em casa uma família disponível e atenta, ficam também sem ter nenhum adulto com quem conversar na escola “e não são ajudados a gerir o seu stress e as suas angústias”.

  

Mas será que, com os ataques sistemáticos de que foram alvo nos últimos anos por parte dos governos, os professores teriam, no geral, a estabilidade emocional necessária para impedir o instalar deste sentimento de desesperança em tantos jovens? Afinal de contas, também eles são apenas mais um tijolo no muro…

  

O estudo revela mais dados relevantes, mas deixo ao interesse de cada um a análise dos mesmos. Se quiserem partilhar as vossas reflexões acerca do estudo ou acerca desta crónica escrita numa madrugada solitária e fria, estou disponível para ler o que tenham a dizer… Is there anybody out there?

Fotografia de capa por TheAlieness GiselaGiardino²³

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Luís Humberto Teixeira

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