“Amar uma pessoa significa querer envelhecer com ela.”
– Albert Camus

A Operação Censos Sénior permitiu à GNR sinalizar cerca de quarenta mil idosos a viver sozinhos ou isolados, um número mais de treze por cento superior a idêntico levantamento realizado no ano de 2014.

Este indicador social tem vindo a revelar-se alarmante nos últimos anos, registando crescimentos de 45%, 21% e 20% nos anos anteriores. Mesmo considerando alguns erros de avaliação, como o caso de idosos que passam o Verão no interior e o Inverno no litoral, em casa de familiares, ou na casa onde viviam antes de se reformar e regressar à sua terra de origem, estes números não deixam de ser assustadores. Explicam em parte, aliás, os casos crescentes de idosos que morrem sozinhos, sem ninguém se aperceber, e que vão surgindo com desconfortável frequência na comunicação social.

A esmagadora maioria destes idosos está sozinha, uma parte significativa deles vive isolada, outra fatia relevante acumula: está sozinha e isolada. Há ainda os que estão acompanhados mas que sofrem de graves limitações físicas e / ou psicológicas.

Esta população está altamente vulnerável a inúmeros perigos, quer por via da criminalidade: furto, roubo, burla e até violação, quer por via dos acidentes domésticos (quedas) ou de saúde (episódios cardíacos, neurológicos, desidratação, falta de cuidados básicos).

Face a esta situação há que pensar fora da caixa, ousar em novas soluções e reforçar as já existentes, como por exemplo:

Centros de Noite: onde os idosos que ainda dispõem de autonomia possam pernoitar em segurança, fazendo a sua vida autónoma durante o dia.

Programas intergeracionais: colocando jovens estudantes do ensino superior, deslocados das suas terras de origem, a viver em casa desses idosos, dando-lhes apoio em troca de alojamento e participação nas tarefas e despesas domésticas.

Residências urbanas colectivas: prédios de apartamentos inseridos na comunidade onde os idosos possam sentir-se integrados na cidade, mas com os apoios e a vigilância necessários. Podem fazer a sua vida independente, mas têm a segurança de um suporte permanente para o que necessitarem e sempre que precisem.

Programas de cuidadores familiares: que permita a familiares qualificados e formados tomarem conta dos idosos dependentes, em vez da sua institucionalização, que será sempre muito mais dispendiosa, despersonalizada e ineficaz.

Serviços ambulatórios: profissionais médicos e de enfermagem que circulem pelo interior, em rotas programadas e agendadas, de modo a desenvolver cuidados de saúde preventiva, uma vez que muitos desses idosos, por razões financeiras ou de falta de transporte, dificilmente se deslocam a hospitais, centros de saúde ou unidades de saúde familiar, por se encontrarem longe.

A tendência é para o aumento desta população. O censo de 2011 já registava cerca de 19% da população com idade igual ou superior a 65 anos e, deste aí a quebra da natalidade e o aumento da emigração só se agravaram.

Mas é importante que se pensem soluções adequadas tanto para a realidade dos idosos que vivem isolados nos grandes centros urbanos, como também para os que residem no interior, em regiões quase despovoadas e sem dispor sequer dum telefone.

Os tempos que vivemos exigem inovação, não só empresarial mas social.

Fotografia de WeVe1

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José Brissos-Lino

Docente Universitário
Psicoterapeuta, docente universitário e escritor. Ligado ao associativismo, à solidariedade social e à cultura. Colabora regularmente na imprensa regional, desde 1980. Doutorado Psicologia e em Ciências da Religião. Pastor protestante.

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