Há muito poucas pessoas que se tenham dedicado ao estudo da realidade das minorias religiosas em Portugal, em especial dos protestantes e evangélicos.

Isso acontece por várias razões, essencialmente pela ignorância geral da matéria – mesmo no caso dos jornalistas – quer pela falta de visibilidade social deste setor religioso, que procede remotamente da Inquisição e do salazarismo, mas também de uma certa mentalidade de gueto predominante no meio.

Bruno Vieira Amaral, licenciado em História Moderna e Contemporânea, ousou fazê-lo no seu pequeno livro “Aleluia!” (Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2015). Trata-se de um trabalho que revela preocupações de seriedade na abordagem efetuada.

Apesar de tudo não resistiu a fazer processos de intenção. Ao referir o tristemente famoso “pontapé na santa”, com que um líder da IURD insultou a fé católica através da imagem de Nossa Senhora de Aparecida, padroeira do Brasil, em programa da TV Record (1995), afirma: “não terá havido um só evangélico que não tenha rejubilado com aquele gesto”. Como se engana. Qualquer pessoa sensata e decente teria tido uma reação de repúdio. Isso sim. Inclusive os evangélicos dignos desse nome.

Mas retrata muito bem o clima que se criou à volta do episódio da compra gorada do Coliseu do Porto, por aquele grupo neopentecostal, e da perseguição religiosa que se lhe seguiu, assim como as origens da igreja pentecostal Assembleia de Deus no país e sua sangria para o grupo carismático Maná nos anos oitenta.

Retrata igualmente bem a dificuldade dos grupos independentes, dissidentes do Maná e sua ambivalência em demarcarem-se dele por palavras mas nem tanto nos atos, nas crenças e na liturgia.

O autor, que terá andado pelas Testemunhas de Jeová na sua infância, revela no seu escrito um esforço para ser objetivo na abordagem ao fenómeno religioso, desiderato que alcança quase sempre.

A sua conclusão é que “A fé também é uma maneira de as pessoas encontrarem o seu lugar neste mundo, neste tempo”. E manifesta respeito por estas pessoas, independentemente de concordar ou não com as suas crenças e práticas: “Gente que se reúne em caves, em garagens, em lojas suburbanas, para adorar a Deus. Gente que canta e que bate palmas, que proclama alto e bom som o amor a Deus. Gente que, no final, vem para a rua a sorrir. Gente que conhecemos mal”.

Com esta pequena obra, Bruno Vieira Amaral vem prestar um interessante serviço à comunidade, dando a conhecer um pouco melhor “esta gente” desconhecida.
Fotografia de capa por Sean MacEntee

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José Brissos-Lino

Docente Universitário
Psicoterapeuta, docente universitário e escritor. Ligado ao associativismo, à solidariedade social e à cultura. Colabora regularmente na imprensa regional, desde 1980. Doutorado Psicologia e em Ciências da Religião. Pastor protestante.

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