Tem sido notícia, na imprensa falada e escrita, o drama dos milhares de pessoas que diariamente procuram alcançar a liberdade atingindo a Europo: “Calais fica a 34 quilómetros de Inglaterra, uma distância andável para os que migram para um lado como quem foge da morte de outro. As dezenas passam a centenas e, todos os dias, há quem dê saltos de fé quando pula a vedação entre fronteiras. É um problema humanitário, para a Europa resolver, e político, para Cameron tratar – e ele promete mais “cães” e “cercas”. Fora de Inglaterra, a contestação aos britânicos cresce; dentro, a tolerância à imigração diminui.” – EXPRESSO Diário de 03.08.2015

O drama humanitário do fluxo de refugiados a caminho da Europa não é de hoje. Sempre os tivemos, mas sempre foram mais ou menos escondidos do conhecimento público. Hoje, tudo é diferente, os meios de informação dispõem de hoje de redes sociais que fazem circular com grande facilidade os acontecimentos. E hoje, quer os políticos gostem ou não, o drama daqueles que procuram fugir para a liberdade, é tido como o grande acontecimento. Ainda há quem apelide estes movimentos de imigração clandestina, quando na verdade são massas humanas de refugiados fugindo das guerras, das catrástrofes, das perseguições politicas e religiosas, dos poderosos corruptos.

Os políticos europeus, sempre arrogantes sobre este drama, esquecem que foram os processos de (des)colonização selvagem que conduziram ao drama dos que fogem, na esperança de alcançar a liberdade, mas, que no final do trajeto, encontram a morte por esgotamento físico, por naufrágio ou por um tiro numa fronteira. Os países europeus foram os colonizadores do espaço africano. Exploraram as riquezas naturais, mas esqueceram-se do desenvolvimento desses países de forma a que continuassem sustentáveis após as indepências. Os europeus, esqueceram a importância que havia em garantir o sucesso dos estados emergentes, e, substituiram o conceito de parcerias para o desenvolvimento, por parecerias para a corrupção. Colocaram no poder ditadores e corruptos, fomentaram-se guerras regionais, permitiu-se chegar a esta situação, em que falamos de povos que vivem a mais feroz pobreza do mundo, mas onde existem riquezas exploradas pelos poderosos, aliados dos políticos que colocaram a Europa na situação em que está.

O fenómeno do massacre humanitário não é de hoje. Dirão alguns que estes movimentos sempre existiram. É verdade, mas nunca com esta dimensão na Europa. A fuga para a liberdade, deixou nos últimos 50 anos, um rasto de morte nas fronteiras europeias, registando-se cerca de 15 mil que morreram, destes 5 mil desaparecidos no mar. Não nos podemos esquecer que o Mediterrâneo, pelos refugiados que se deslocavam de Marrocos, Argélia, Mauritânea e Senegal para chegar a Espanha e Canárias, engoliu milhares que procurariam a liberdade e encontraram a morte. O que está hoje a acontecer com os refugiados que partem da Síria e Libia, já se encontra escrito na imprensa de há 25 anos. Foram mais de 25 anos sem que os países europeus encontrassem uma solução humanitária e de inserção, para os que fogem das perseguições, hipocritamente apoiadas pelos interesses duma Europa, que não pode branquear o ter estado ao serviço dos poderosos.

Horroriza-me, que haja lideres políticos europeus, cujo primeiro-ministro inglês é o exemplo, que promete mais cercas em Calais e mais cães assassinos, para suster a fuga para a liberdade. As cercas de arame farpado deixaram-me marcas. Nascido na Segunda Grande Guerra, aparaceram nos noticiários da imprensa portuguesa, as imagem desumanas em que viviam os presos feitos pelos nazis. Lançados em campos cercados de arame farpado, a fuga para a liberdade tornava-se impossível, Mais tarde, viajando pela Europa, impressionavam-me as imagem do muro da vergonha e os corpos dilacerados pelas barrareiras de arame farpado, quando seres humanos procuravam a liberdade. Um colega alemão acedeu ao meu pedido para ver o muro da vergonha. Ainda hoje tenho horror a todas as barreiras que condicionem a liberdade de movimentos. Cameron, esquece o muro de Berlin, ignora a dívida inglesa para os refugiados que abandonou nas suas ex-colónias, e quer ter glória por assassinar todos os que procurem entrar no terreno de sua magestade.

Mas não estamos numa situação nova, pois não podems esquecer os 238 refugiados que atravessaram Calais e morrerem morreram por asfixia, ou esmagados pelo carga, quando escondidos em camiões. Os políticos não podem ser ilibados de participação neste e outros assassínios, ocorridos pela perseguição aos refugiados. Cameron não pode esquecer os 23 seres humanos que morreram em Calais caindo nas vias do túnel do Canal da Mancha ou fulminadas quando saltavam a rede elétrica no terminal francês. A Europa não pode esquecer os 112 refugiados que morreram congelados, outros sem água nem comida, atravessando a pé as montanhas das fronteiras de Grécia, Turquia, Itália e Eslováquia durante o Inverno. A Espanha não pode ignorar a chacina de 35 refugiados, que foram mortos por disparos dos militares da Guarda Civil, quando corriam para a liberdade e encontraram a morte. A Europa não pode esquecer que estamos perante uma tragédia humanitária, a que só ela poderá dar resposta. Que o faça, porque estamos a falar de seres humanos, e porque, pelas vidas que salvar, diga ao Mundo que quer procurar repara o mal que fez.

E nós, os Portugueses, que pensamos deste drama? Parece que o sentimento é de que nada disto nos diz respeito! Na rua, quando esta notícia salta para a discussão, o que ouço normalmente, é a pergunta de porque havemos de receber 1.500 refugiados? Já por cá temos desemprego que chegue… Deixá-los ao sabor da sua sorte, parece ser o sentimento comum! O problema é nosso, mas só os pobres são impelidos pela auto-ajuda, àqueles que são ainda mais pobres. Em Portugal temos 2 milhões de pobres no limiar da pobreza, é verdade, mas não é por estenderem a mão aos refugiados que abandonaram tudo que deixarão de ser pobres. Neste mundo conturbado, só ouvi uma palavra de ajuda e esperança ao refugiados por parte da Igreja Católica, mas escrevo esta crónica na esperança que cristãos e agnósticos, possam ter um grito de revolta, pelo preço que estão a pagar aqueles que foram abandonados pelos poderosos e seus servos políticos. “ Cercas “, NÃO OBRIGADA.

Fotografia de hakzelf

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António Figueiredo

Gestor Reformado
Foi trabalhador estudante, licenciado e Executivo de três empresas multinacionais, tendo exercido cargos no exterior. Foi Oficial do Exército, casado com dois filhos, reformou-se aos 55 anos, após 40 anos de trabalho. Na pensamento político é social democrata. Dedica o tempo de reforma ao voluntariado social e foi durante dois mandatos presidente da UDIPSS de Setúbal.

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