Fala-se muito, hoje em dia, da extrema-esquerda. Notou-se bem durante a reportagem feita ao XX Congresso do Partido Socialista. Ouvi Nuno Melo, eurodeputado pelo CDS-PP, dizer que lamentava a viragem do PS à extrema-esquerda.

   

Para ter a certeza voltei a ouvir as palavras de Nuno Melo. Incrédulo, voltei a ouvir o discurso de António Costa na integra, cortesia da cobertura total que a SIC Notícias dedicou ao congresso.

   

Tirei daqui duas ilações: de que António Costa parece marcar, de facto, uma viragem do PS para fora do conservadorismo cinzento e para a social-democracia burguesa, de mão dada ao grande capital europeu, e de que Nuno Melo nada sabe sobre a esquerda em geral e muito menos sobre a extrema-esquerda em particular.

   

Quando se fala de extrema-esquerda falamos de redistribuição radical de rendimentos, da abolição da estratificação social, da hierarquização do ser humano segundo um qualquer valor que lhe é atribuido em função da utilidade para o Capital. Falamos de forças que procuram um mundo sem donos nem mestres, em que cada ser humano está ombro a ombro, em posição de igual respeito e dignidade, com o seu semelhante.

   

Pensemos no Partido Socialista. Pensemos nas últimas quatro décadas.

   
Desde o I Governo Provisório até ao actual XIX Governo, o PS foi governo durante 20 anos. Podemos dizer que fizeram jus ao nome de socialista? Investiu-se na sociedade? Somos hoje uma sociedade mais igual? Mais justa? Temos uma economia para as pessoas ou para algumas pessoas?

   

Soube-se esta semana que Portugal é o país europeu em que mais se gasta em saúde directamente do orçamente familiar. Temos hospitais públicos geridos por quem mais tiraria proveito da sua falência. Se derrubar um hospital público abrisse as portas de uma mudança na opinião pública que favorecesse a privatização total da saúde, alguém dúvida que os grandes grupos da saúde privada em Portugal não o faria? Perder um milhão para lucrar mil milhões nos próximos dez anos não seria até um bom investimento?

   

Poderão dizer “Ah, mas isso é culpa do PSD!” e é verdade mas, se o PSD neoliberal é a mão direita da finança especulativa e dos grandes interesses financeiros, o PS é a mão esquerda.

   
Colaborar na exploração do povo em nome do lucro não é de Esquerda.

   

O Tratado Orçamental, de que tão pouco se fala, é um tratado europeu que estipula que todos os Orçamentos de Estado têm de ser aprovados por Bruxelas. Obriga ao pagamento integral de uma dívida que não pára de aumentar. O PS apoia-o incondicionalmente.

   

O Bloco de Esquerda quer romper com o Tratado Orçamental, quer renegociar a dívida, quer nacionalizar a banca, quer nacionalizar os sectores estratégicos como a água e a energia.

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Luís Bernardino

Militante do Bloco de Esquerda
Nascido em Lisboa em 1987, criado entre Moscavide e Forte da Casa, licenciou-se em Tradução pela Universidade Nova de Lisboa em 2011, com uma passagem pelo King's College London onde estudou história e línguas ibéricas e latinas. Estagiou no Parlamento Europeu em 2012, foi tradutor em Istambul em 2013 e ganha hoje a vida a atender chamadas o dia todo em Lisboa. Vive em Almada, identifica-se como anarco-socialista e milita no Bloco de Esquerda.

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