As semanas que passaram desde a minha última crónica foram das mais cheias de informação, política e noticiosa dos últimos tempos.

A Grécia, o Irão, desastres na China e mais umas quantas «animações» caseiras.

Um Adeus estimado

Mas quero deixar, para começar uma palavra de lembrança e admiração e sobretudo muito respeito e carinho por Maria Barroso.

Não é este certamente o lugar apropriado para desenvolver os dois últimos adjetivos; ao citá-los estou apenas a dizer que a minha memória não se esgota na figura pública que foi Maria Barroso. Pelo contrario ela esta fundada nas mais antigas lembranças de meninice em que eu partilhava a mesma carteira que o João (Soares) seu filho no Liceu Francês de Lisboa.

Essa memoria que Maria de Jesus Barroso nunca perdeu nestes sessenta anos que passaram desde que me viu pela primeira vez, foi sempre a da criança que respeitosamente a cumprimentava e dela recebia afeto e interesse nos seus trabalhos escolares, comportamento e brincadeiras. Com o tempo eu esqueci me desses anos felizes do Charles Lepierre, e logo depois do 25 de Abril voltei a encontrar-me com a Mulher do Ministro dos negócios Estrangeiros, primeiro, do Primeiro Ministro e do Presidente da República, depois, e por vezes foi a sua antiga memória que continuou a ver em mim o menino do Liceu Francês que me ajudou a superar um momento de relação institucional mais difícil, sempre explicando e reconhecendo, interessando-se pelo que eu fazia.

Nos últimos anos quando nos encontrávamos era sobretudo essa memória, tão antiga que eu tinha esquecido, de que falávamos. Maria de Jesus Barroso não esqueceu o menino que tinha conhecido sentado ao lado do seu filho João.

Agora é a minha vez de a não esquecer e de recordar esse lado quase maternal de uma Mulher que para além de ter ajudado o nosso país marcou com a sua suave visão do mundo as instituições que serviu, tambem como esposa e como mãe.

O ato jornalístico no mundo digital

Depois deste triste passamento quero chamar a atenção dos meus leitores para dois textos que li nas últimas semanas, casualmente publicados no Diário de Noticias; ambos me parecem muito importantes para a compreensão e visão do jornalismo na era digital e, como foi da sua longa tradição, se este centenário diário de Lisboa continuasse a ter um Provedor do Leitor (como tem o Setubalnarede) certamente já teriam feito correr alguma tinta….

O ultimo texto foi publicado no sábado 15 de agosto e relata a história de um alto funcionário da Administração Pública que um bloguista terá descoberto que se auto plagia, e que é tratado como se tivesse as mesmas responsabilidades de um jornalista; o segundo texto publicado no mesmo título, mas no dia 1 de agosto e refere se aos malefícios e as confusões da existência de um jornalismo cor de rosa que recebe dos leitores e dos editores o mesmo nível de credibilidade e de proteção legal que os jornalismo de informação geral.

Deixemos de parte os autores e concentremos nos apenas no que me parece essencial para os leitores de um jornal digital como o Setúbal na Rede.

A curiosidade, para mim e o que quero partilhar com os meus leitores, é que ambos os textos (um é uma noticia 15/8) e o outro (1/8 um artigo de opinião) dão como certo e seguro que o ato jornalístico (o meu amigo Luís Filipe Landerset Cardoso, costuma corrigir-me incitando-me a falar de ato noticioso) é qualquer coisa de imutável desde que o jornalismo de autonomizou como profissão/atividade e que em consequência qualquer texto que um jornal publique – em qualquer suporte que seja, acrescento eu – será em qualquer circunstancia e tempo regido pelas regras do jornalismo, as quais também não mudariam.

Não sei se tem a ver com a segunda questão (do jornalismo cor de rosa), mas o mesmo jornal diário de Lisboa que tenho vindo a referir publica no Domingo 16 de Agosto uma entrevista com a directora de algumas das mais reconhecidas revistas cor de rosa portuguesas promovendo assim um esclarecimento de que tal jornalismo (a existir qualquer diferença) tem regras bem definidas e quiçá, e na minha opinião, mais respeitadas em Portugal do que por exemplo no Reino Unido se atentarmos a uma outra noticia sobre a preocupação da família Real britânica em relação as artimanhas dos paparazzi para fotografar o muito jovem príncipe William, ou como em Espanha em que a revista Hola estabeleceu um código de conduta em relação a família real Espanhola como se pode ver na edição que esta semana (19 de Agosto) chegou a Portugal.

Mas que têm este caso do jornalismo cor-de-rosa e do auto plágio a ver um com o outro?

Em ambos os casos trata-se de pensar no mundo, na realidade digital com uma cabeça ou um pensamento analógico em relação a informação e, em ambos os casos, bem longe do que é o acto jornalístico e noticioso neste século 21.

No primeiro caso o que confunde e preocupa é que se não tenha entendido que os modelos e direitos da criação intelectual no mundo digital são fragmentados e portanto susceptíveis de reorganização em consequência de um enriquecimento que só as bases de dados e a sua manipulação, através dos meta dados que integram agora os modelos de criação e de protecção autoral, e que ao autor assiste o direito de modificar ou alterar, por recontextualização, aquilo que alguma vez produziu e sobre que mantém a plenitude dos direitos de autor. Não compreender esta nova visão da criatividade é condenar a gestão de bases de dados e o desenvolvimento dos dados a um tempo cronológico que a tecnologia já libertou.

Por outro lado, considerar um artigo de opinião (mesmo informativa) como um ato jornalístico é esquecer nas regras de regulação da atividade jornalística que em Portugal existem, se aplicam e aceitam, uma exceção ao principio dos actos jornalísticos, enquanto conteúdos especialmente protegidos por lei, desde que publicados em órgão de comunicação social, daqueles que traduzem a opinião, seja de um especialista ou de um analista que só implicam o próprio autor conferindo lhe assim uma ampla liberdade de escolha e correspondente responsabilidade dos elementos que integra nos conteúdos que produz.

E tão perigoso como fazer a confusão é aceitar que ela existe e procurar justificá-la.

Espero ter deixado claro que em, Portugal, considerando a definição de ato jornalístico (noticioso) como a que diz respeito a conteúdo produzido por jornalista e publicado em órgão de comunicação social, os pruridos em relação aos conteúdos chamados cor de rosa, ou em relação a recomposições e recontextualizações de elementos de informação (corretos) só deverão ser aceites nos casos em que os estatutos editoriais das plataformas que difundem conteúdos (e que devem ser actualizados anualmente), explicitamente refira tais situações como não aceitáveis no âmbito da relação de confiança que está proposta ao cidadão que busca e usa tal informação.

E nem a importantíssima atividade de curação que, hoje no mundo digital sobretudo, complementa nas redações a produção de conteúdos referindo-os aos estatutos editorais, á legislação aplicável e ás boas práticas editoriais, e também a memória da redação deve ser a razão para propôr vistas como as que li nos artigos que refiro.

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João Palmeiro

Presidente da Associação Portuguesa de Imprensa

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