Os países africanos e o Brasil fascinam-me. A grande parte das minhas viagens de trabalho e férias foram a este conjunto de países. Já viajei no Brasil do Maranhão a Santa Catarina, tempo em que fiquei preso ao encanto da paisagem tropical e, raras vezes, me preocupei com o país social e político. Por razões de saúde, uma doença rara, fui aconselhado a sair de Portugal durante o período frio, tendo escolhido o Brasil, mais correto o nordeste, para passar seis meses em cada ano.


A introdução, foi para dizer que agora vivo o Brasil profundo, uma sociedade multicultural onde coabitam os condomínios de luxo e as favelas. O Rio de Janeiro, a cidade maravilhosa, São Paulo, a cidade de grande metrópole, são exemplos deste mundo diferente. O brasileiro é afável, falador e aberto, alegre nas próprias aflições. Por isso, não é possível viver em terras de Santa Cruz sem olhar para o País social e político. Para um europeu não é fácil traçar comparações, porque pouco ou nada é comparável. Mas dou comigo a escrever sobre o abismo que existe entre a ideologia dum comunismo ortodoxo do PCP e a ideologia dum comunismo do PT do Brasil, num momento em que o novo governo de Dilma Roussef nomeia ministros fora da sua área ideológica, como o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, um técnico que liga a política económica e fiscal do PT à escola de Chicago! Passados 20 dias anunciava um pacote de reequilíbrio fiscal que tem uma grande carga neoliberal.


Olhando para trás, dou conta que a política comunista de Lula da Silva não tem as marcas da ortodoxia comunista que emana de Moscovo. Cruzei-me com Lula da Silva quando, como sindicalista, desafiou a ditadura militar e lançou a greve dos metalúrgicos que parou a industria automóvel. Porque se vivia o PREC em Portugal, não reconhecia nele a figura leninista de dirigente político comunista. Mais tarde, quando disputava as eleições que venceria, eu estava no Brasil e deparei-me com pessoas da alta sociedade que iriam votar no Partido dos Trabalhadores! Mas explicavam: Lula da Silva não era comunista ortodoxo, era um operário brasileiro e não marioneta de Moscovo, pelo que a sua eleição seria a mudança de que Brasil precisava para o desenvolvimento social. Estavam certos…



O primeiro governo de Lula da Silva aconteceu em 2003 e, para surpresa do mundo comunista, não houve PREC, não ocorreram nacionalizações, foram garantidas as liberdades, não houve perseguições. O que mudou, por ideologia era um conjunto de medidas no plano social que tiraria da miséria cerca de 30 milhões de brasileiros. Lula da Silva não seguiu a ortodoxia comunista pois deve ter tido um olhar para o mundo que o rodeava e só via que o centralismo socialista conduzira à ruína e desespero dos trabalhadores. Por outro lado, o mundo mostrava uma outra via, um comunismo moderno que na Europa esta consolidado em Itália e na Polónia pela ação de Lech Valesa. Lula da Silva é um cidadão brasileiro que recusou o falso paternalismo de Moscovo e dos países vizinhos.



Mas no discurso político, que não na ação, encontramos a ideologia e a preferência pelos seus parceiros comunistas. Dilma Roussef confessa-se admiradora de Fidel de Castro, o seu líder e orientador político, e Lula da Silva admitiu recentemente que “em 2010 o próprio Planalto decidiu pela parceria (construção do gasoduto) com os chineses e que a escolha teve motivações ideológicas”. Mas não hipotecou o petróleo do Brasil como já outros o fizeram nesta América do Sul.


Por isso, compreendo, porque a transição de regime político no Brasil foi pacífica e diferente ao que ocorreu com o PREC em Portugal. O PT está no poder há mais de dez anos, há evidências de cansaço e dificuldades no controlo da grande máquina deste País, onde a corrupção é uma mancha negra. Terá a atual Presidente Dilma Roussef energia para vencer a crise financeira que o Brasil atravessa? Ao tomar posse do novo Governo, encontramos as pastas ligadas ao desenvolvimento entregues a técnicos fora da esfera do PT. Realismo ou necessidade de lançar um programa de reequilíbrio fiscal e refundação do Estado? Diria que ambas as coisas.


Sem medo, o PT anunciou um pacote de medidas que me deixou surpreendido, pois embora se diga que o “ajuste dos tributos” se torna necessário para que os “benefícios sociais se tornem melhores”, na verdade é um pacote de choque fiscal que, quando Passos Coelho o aplicou em Portugal, o PCP lançou durante 3 anos ataques e greves pelo direito dos trabalhadores e perdas sociais. A irresponsabilidade do PCP só foi possível pelo sua ideologia marxista e ortodoxa, enquanto que o PT de Dilma Roussef gerou consensos e aplica severas medidas para evitar o colapso financeiro e económico do Brasil Não vejo os sindicatos planearem manifestações e greves, numa atitude diferente da atuação em Portugal, embora aqui os sindicatos não passam de correia de transmissão na velha ideologia marxista.


A crise financeira que devastou a economia dos países desenvolvidos está agora a aproximar-se do Brasil, é certo que pela estratégia seguida pelo PT, mas, agora também pelos efeitos da queda abruta do preço do petróleo, área da economia em que investiram o que tinham e o que não tinham. O preço atual do petróleo, que os analistas dizem estar no limite dos custos de produção na exploração do pré-sal, coloca a sustentabilidade orçamental em risco, pois o petróleo é a maior fonte de receita do Brasil, com efeitos na balança de pagamentos e no preço dos transportes. Como irá o governo de Dilma Doussef contornar o colapso é que será importante observar. O que não vai é seguir a receita que o PCP tem para Portugal. Será um crime político do PT o recurso ao pensamento neoliberal para salvar o país?


Nota: Depois de escrita a crónica, o governo do PT anuncia novo pacote de medidas de austeridade, em que sobressai a redução do seguro de desemprego, alargando o período de carência e redução do valor do mesmo. Ocorreu, também o aumento da eletricidade numa média de 23,4%. Quanto a greves só é de assinalar a dos camionistas autónomos, aqui se diz caminhoneiros, que bloqueiam estradas e já paralizam a atividade económica do Brasil.

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António Figueiredo

Gestor Reformado
Foi trabalhador estudante, licenciado e Executivo de três empresas multinacionais, tendo exercido cargos no exterior. Foi Oficial do Exército, casado com dois filhos, reformou-se aos 55 anos, após 40 anos de trabalho. Na pensamento político é social democrata. Dedica o tempo de reforma ao voluntariado social e foi durante dois mandatos presidente da UDIPSS de Setúbal.

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