A quebra nas vendas de jornais e os despedimentos massivos de jornalistas estão na ordem do dia. A crise instalou-se no setor. As dificuldades económicas e o desinteresse pela leitura e pelas notícias poderão ser razões. Mas o que se escreve nos jornais não pode ser considerado alheio à crise.

   

Jornalismo de qualidade, sério, convincente, atrativo, não se faz sem uma comunicação social independente e sem jornalistas autónomos e corajosos – se há profissão que reclame independência e coragem dos seus profissionais para ser exercida com seriedade e plenitude, é o jornalismo. Quando os jornais de referência nacional passaram a ser controlados por grandes interesses económicos, o espaço para os jornalistas aí exercerem livremente a sua atividade reduziu-se e o jornalismo começou a perder qualidade. A lógica empresarial não quer saber de éticas e deontologias, nem de verdade jornalística, e as entidades proprietárias, desrespeitando a Lei de Imprensa, pressionam os diretores relativamente ao conteúdo das publicações. Resultam daí promiscuidades de jornais e jornalistas com a política e o mundo dos negócios, que criam entraves à denúncia dos escândalos e dos crimes dos poderes político, económico e financeiro.

   
Direções comprometidas, jornalistas cobardes e/ou vendidos que escrevem por encomenda e enfeudamento aos seus amos – os figurões que arruinaram bancos e empresas, prejuízos que têm custado os olhos da cara aos contribuintes, andaram décadas a ser endeusados pela pena de muito escrevinhador que se diz jornalista –, ou aqueles que só escrevem o que as administrações permitem que escrevam, de uns e de outros está o jornalismo cheio. Além destes interesses e pressões que tolhem e descredibilizam o jornalismo, não faltam preguiçosos e incapazes que se dedicam a enganar os leitores com notícias feitas a martelo e apropriação de trabalho alheio, expedientes que concorrem para o descrédito da profissão. Assim se desbaratou o capital de grande respeito e consideração que os leitores e o país já tiveram pelo jornalismo e pelos jornalistas.

   

É no meio destas águas turvas que se debatem, entristecidos e enojados, os verdadeiros jornalistas, os profissionais de comprovada competência e seriedade, íntegros, de cerviz direita, que rejeitam acomodar-se e incomodam, a quem o jornalismo verdadeiramente deve a estima que granjeou entre os leitores. São estes os primeiros candidatos às dispensas, e o jornalismo resta cada vez mais pobre. Os outros, os incompetentes, os vendidos, os acobardados, os inventores de notícias, os plagiadores inveterados, não são jornalistas, são mixordeiros. Esses, até poderão conservar o emprego, fazer figura e levar vida mais ou menos folgada, que o oportunismo, a chico-esperteza e o rastejar tem as suas compensações. Mas deles, é garantido, não restará grande memória.

   
Os jornalistas, querendo ser respeitados, têm que se dar ao respeito; querendo ser lidos e credores do respeito dos leitores, não podem faltar à verdade. O que o cidadão comum, agastado com o rosário de porcarias que vai reinando no país, espera ler nos jornais, são notícias verdadeiras, fundamentadas e bem escritas, e denúncias corajosas dos escândalos e crimes públicos que o indignam. Em suma, os compradores de jornais o que exigem é jornalismo de qualidade. Que não é obra que possa sair da caneta de pseudojornalistas, de cobardes ou moços de fretes, de escrevinhadores mal informados ou mentirosos ou que plagiam, ou de jornalistas de pés e mãos atados. A confiança é essencial em todas as áreas do relacionamento humano. E a independência dos jornais, a autonomia e a imparcialidade dos jornalistas são coisas caras ao leitor, que quer confiar no que lê. Não confiando, não alinha e afasta-se dos jornais.

   

O jornalismo está a ficar como convém aos poderosos e à trupe de trapaceiros e criminosos que fazem vida a enganar o pagode. Ora, os leitores, são gente esclarecida (o Portugal de hoje não é já o país de analfabetos que em tempos foi, e que muita gente com responsabilidades, e que se acha mais esperta do que os outros, pensará que ainda é) que não é fácil enganar.

   

Não creio que a venda de notícias online, que está na moda, resolva os problemas com que os jornais se debatem – quem não lê no papel vai ler online, e a pagar? Hum… Os jornais só lograrão resolver os problemas que enfrentam hoje, o que passará por recuperar publicidades e vendas, se apostarem forte na expressão dos sentimentos e preocupações dos cidadãos, na defesa dos contribuintes, na independência relativamente aos poderes e aos poderosos, na denúncia responsável mas desassombrada do que houver a denunciar, na liberdade de ação dos jornalistas autênticos e na expurga dos escrevinhadores e lápis de aluguer. Não há outra maneira de reconquistar a confiança dos leitores.

   

Apesar de não viverem vida folgada, salvam-se e continuarão a existir sem grandes sobressaltos, no meu entender, a imprensa local e regional. E por duas razões fundamentais: os jornais locais e regionais, por definição, sempre foram mais abertos, dando-se à divulgação dos problemas, preocupações e anseios das comunidades que representam, pautando pela sua defesa, aceitando e promovendo a participação desatravancada dos cidadãos, que aí ganham voz e sentem que contam; por outro lado, diretores e jornalistas desses periódicos dão lições de independência, coragem e descomprometimento na defesa dos interesses das regiões e das suas gentes, não vivendo, uns e outros, de escrita peada e/ou avençada, ou de esperar recompensas dos poderes e dos poderosos. Que assim se mantenham, para bem do jornalismo, das localidades, regiões e populações, do progresso do país.

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Juvenal Danado

Professor

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